«Lote 12 – 2.º Frente», de Alice Vieira

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Recebi este livro quando fiz treze anos. Escrevi diligentemente, na guarda branca, a data e o meu nome e arrumei-o na estante para ler um dia. Era verão, o ano letivo tinha acabado e ia passar o mês de agosto no Alentejo. Procurei, na estante, livros para levar e, lembrando-me daquele presente de aniversário, peguei nele e guardei-o na mala, com intenção de o ler durante as férias. Mas a canícula infernal alentejana não inspirava leituras, pelo que deixei-o para a segunda parte das férias, no Algarve, onde estaria com certeza mais fresquinho. Mas a promessa de muitas horas de diversão na praia com as primas atirou mais uma vez as leituras para segundo plano.  Quando cheguei a casa, à entrada do outono, com as primeiras chuvas a obrigarem a ficar entre paredes, li-o finalmente, num fim-de-semana. Voltou para a prateleira quase incólume, sem que eu tivesse pensado muito na dimensão daquela história, talvez porque na verdade eu fosse a Rosinha e não a Mariana. Era a irmã mais nova e nunca tinha tido de mudar de casa.

Anos mais tarde, já adulta, li-o de novo.  Foi então que descobri que aquele era o segundo volume de uma trilogia que começava com Rosa, minha irmã Rosa e terminava com Chocolate à Chuva. Posso dizer que só aos vinte e poucos anos de idade pude apreciar verdadeiramente a escrita de Alice Vieira, de uma fluidez e simplicidade, que facilmente nos transporta e nos faz ver o mundo através do olhar de Mariana, que se encontra perante grandes mudanças na sua vida – primeiro o nascimento da irmã, depois a mudança para a nova casa e a entrada na adolescência, com as suas inevitáveis transformações físicas. É fácil compreender os sentimentos contraditórios de Mariana em relação às suas novas circunstâncias e como ela se vai ajustando àquela realidade ao perceber, aos poucos, que a mudança faz parte do crescimento. Alice Vieira é muito sensível e cuidada na linguagem, sem ser condescendente. O realismo dos diálogos e das situações descritas no dia-a-dia mudaram a forma como hoje em dia leio literatura juvenil e também como escrevo.

Um livro que gostaria de ter lido com outros olhos na adolescência (nessa altura não era uma grande leitora), mas cuja redescoberta já em adulta permitiu-me lê-lo com uma atenção diferente, sendo hoje a autora Alice Vieira umas das grandes influências na minha escrita.

Catarina Araújo

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