«O Deus das Moscas», de William Golding

Só depois de adulta é que li muita literatura juvenil. Não fui uma grande leitora em criança, como já referi noutras ocasiões. Interessavam-me mais os livros sobre História, Ciência, entre outros temas. Aos meus vinte e poucos anos de vida é que me tornei numa verdadeira devoradora de literatura. Assim, apenas recentemente li alguns dos maiores clássicos da literatura deste género, entre os quais O Deus das Moscas, de William Golding, autor galardoado com o prémio Nobel de literatura, em 1983.

O Deus das Moscas foi publicado em 1954, e na época em que foi lançado não foi um grande sucesso, mas com o tempo tornou-se um clássico e teve duas adaptações ao cinema, uma em 1963 e outra em 1990.

A história passa-se durante uma suposta guerra nuclear e segue um grupo de rapazes, crianças pequenas e pré-adolescentes, presos numa ilha deserta após um acidente de avião em que todos os adultos pereceram. Sozinhos e sem comida, eles sobrevivem tentando recriar naquela ilha uma pequena civilização, como a dos adultos, mas com resultados desastrosos.

Conhecia a história por alto, mas não imaginei que fosse ser uma leitura tão intensa. Acho que não teria gostado de o ler se fosse adolescente, talvez porque me teria confrontado com uma realidade que um adolescente nunca se quer confrontar – como seria, efetivamente, a vida sem a presença de adultos. A ideia parece ótima quando estamos a crescer e vivemos como que aprisionados numa estrutura de regras, proibições e obrigações impostas a todo o momento. Contudo, a plena liberdade, sem essas tais regras, proibições e obrigações, pode ter um custo e transformar o mundo num lugar onde, no final das contas, nenhuma criança ou adolescente iria gostar de viver, quando confrontados com algo muito mais primário, como é a questão da sobrevivência e que se sobrepõe a tudo o resto, incluindo, por vezes, educação e valores morais.

É um livro bastante perturbador. É com desconforto que somos transportados para aquela ilha e que acompanhamos as lutas externas e internas daqueles rapazes – Jack, Simon, Roger, Ralph e Piggy –, na sua tentativa de recriar uma comunidade, em que cada um tem uma tarefa para cumprir, seja recolher alimentos, cuidar das crianças pequenas, construir abrigos.

Após Ralph e Piggy encontrarem uma concha que usam para chamar todos os rapazes para se reunirem e decidirem regras e afazeres, Ralph é nomeado o líder do grupo. Este estabelece de imediato a necessidade de acender uma fogueira no ponto mais alto da ilha para o caso de um navio passar. Porém, rapidamente a situação foge do seu controlo quando a maior parte das crianças perde o interesse pelas tarefas e começa a brincar em vez de construir abrigos, e outras preferem explorar a ilha para caçar e comer. Tudo piora quando se espalha o rumor de que há um monstro na floresta. Aos poucos, o medo vai tomando os rapazes, que agem cada vez mais por instinto, sem respeito pelas regras frágeis da comunidade. Entretanto, Ralph é desafiado por Jack, um rapaz menos regulado pela lógica, defensor de métodos mais violentos, e que acaba por nomear-se líder e afastar-se criando a sua própria tribo, após ultrapassar uma grande dificuldade – matar um porco para comer. A maior parte dos rapazes decide juntar-se a Jack, e Ralph, apesar das suas boas intenções e da sua natureza racional, perde definitivamente a capacidade de manter a estrutura civilizacional que tentava construir para sobreviverem até que a ajuda chegasse. À medida que os instintos primários se vão sobrepondo em alguns dos rapazes, como Jack e Roger, a situação vai-se tornando cada vez mais violenta, culminando numa tragédia.

A leitura deste livro invoca questões sobre a natureza humana e a influência que a ordem que conhecemos pode ter nas ações de uma pessoa quando confrontada com uma situação inesperada e extraordinária. Numa altura em que abundam livros e filmes passados em cenários apocalípticos, onde governos e Estados caem, e em que as pessoas se veem perante a necessidade de se reorganizarem para manter algum tipo de ordem no meio do caos absoluto, podem-se tirar muitas e diferentes leituras das personagens de O Deus das Moscas e examinar, talvez, como cada um de nós (re)agiria diante de um cenário semelhante.

Uma leitura inquietante que nos leva a refletir sobre a nossa verdadeira natureza.

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2 thoughts on “«O Deus das Moscas», de William Golding

  1. É curioso falares desse livro aqui. Comprei-o na feira do livro deste ano (2013) e está na minha lista a ler em 2014 (já não falta muito) 🙂 Já sou bem adulta e este estava em falta.

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