Monthly Archives: Novembro 2013

«Não matem a cotovia», de Harper Lee

Penso que deve ser comum a todos aqueles que leem este livro, provavelmente até será um clichê, mas fiquei fascinada com Atticus Finch. Curiosamente, o título do livro era Atticus quando foi entregue ao agente, mas a autora acabou por alterá-lo antes de ser publicado. Não tenho a certeza se um jovem ainda na adolescência, dado à rebeldia, conseguirá apreciar esta personagem, entendê-la, admirá-la e respeitá-la.  Dependerá muito das circunstâncias que levaram à leitura do livro, suponho eu. Contudo, não deixará de absorver a sua retidão de carácter, a sua benevolência e o seu sentido de justiça. Em nenhum momento, porém, sentimos que esses valores nos estão a ser atirados à cara. As personagens estão muito bem construídas e à medida que vamos conhecendo cada uma delas, as crianças Scout e Jem, Atticus, Boo Radley, Calpurnia, Mr. Underwood, compreendemos a sua maneira de ver o mundo e o seu modo de agir sobre ele (embora isso não queira dizer que concordemos com algumas dessas visões). Tudo se passa durante os anos da Grande Depressão, numa terra pequena do sul dos EUA, e Atticus Finch, advogado e viúvo, é incumbido de defender um homem negro, Tom Robinson, acusado de violar uma jovem branca, Mayella Ewell. Apesar de Atticus provar a inocência de Tom em tribunal, este é condenado a pena de prisão. Obra vencedora de um prémio Pulitzer, Não matem a cotovia é um livro que, apesar de tratar de temas pesados, como violação, racismo e morte, acolhemos com uma certa inocência, pois é através do olhar curioso de Scout, de seis anos, de Jem, o irmão mais velho, e Dill, o amigo, que vamos tomando conhecimento do que se passa. Eles acompanham a vida na comunidade enquanto decorre o julgamento de Tom Robinson, observando as transformações que nela se vão operando. É assim que eles se apercebem das injustiças do mundo, de como cada um tem o seu modo de ser, com atitudes por vezes contraditórias, e de como, perante esse conhecimento, podem tentar ser melhores e passar aos outros essa aspiração, como Atticus Finch. Em cada situação descrita, com cada personagem, há sempre algo a descobrir e que contribui para uma complexidade profunda da história, enredando-nos completamente.

Uma ótima leitura para pais juntamente com os seus filhos ou para discussão num clube de leitura juvenil, porque só numa conversa se pode assinalar e apreender a multiplicidade de temas e ideias que o livro passa.

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Novelas gráficas – leituras para adolescentes

Estava a ler um artigo no The Guardian quando fui parar a um outro em que uma autora, Malorie Blackman, recomendava novelas gráficas para adolescentes. Numa troca de e-mailes com uma amiga, ela estranhou algumas das sugestões da autora, pois não eram de todo para adolescentes. Entre as recomendações de Malorie Blackman encontravam-se Persepolis, de Marjane Satrapi (editado em Portugal pela Contraponto/Bertrand) e Maus, de Art Spiegelman (cujos direitos foram adquiridos pela Bertrand, com data de publicação prevista para a primavera do próximo ano) e Sin City, de Frank Miller. De facto, também me pareceram recomendações um pouco estranhas para adolescentes. Acho que neste caso faria mais sentido se fossem para leitores «Young Adult», tendo em conta que um dos livros sugeridos até tem conteúdo sexual explícito. A lista encontra-se aqui.

Entretanto, resolvi pesquisar nas livrarias online o que há por aí de novelas gráficas mesmo para adolescentes (gosto de novelas gráficas, mas tenho lido muito poucas) e comecei a criar a minha própria lista. Há títulos para miúdos dos doze aos dezasseis/dezassete anos, que tocam temas mais profundos ou que apelam mais ao entretenimento, não deixando contudo de focar assuntos que interessam sempre aos teenagers. Aqui deixo uma seleção (poderia ser outra, mas ficaram estes):

Anya’s Ghost, de Vera Brosgol, sobre uma rapariga cuja nova amiga já há algum tempo se encontra «do outro lado».

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– Morro da Favela, de André Diniz, Edições Polvo, sobre o crescimento de um rapaz numa favela do Rio de Janeiro.

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– María e Eu, de Miguel e María Gallardo, Edições Asa. Maria tem doze anos e é autista. Vive com a mãe em Las palmas, nas Canárias, e quando o pai, que mora em Barcelona, a vai visitar, decide levá-la a passar alguns dias… num resort…

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I Kill Giants, de Joe Kelly e JM Ken Nimura. Uma rapariga luta contra monstros, tanto verdadeiros, como imaginários.

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Lost at Sea, de Bryan Lee O’Malley. Uma adolescente com dificuldade em socializar com pessoas da sua idade é confrontada com os seus maiores receios quando embarca numa viagem com os colegas da escola.

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– Os livros da série Scott Pilgrim, também do autor Bryan Lee O’Malley. Estes estão editados em Portugal pela Booksmile.

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– As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy, de Filipe Melo e Juan Cavia, editado pela Tinta-da-China.

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As escolhas do Goodreads Choice Awards

Já se pode votar nos favoritos do ano de 2013 no sítio do Goodreads.  São os Goodreads Choice Awards e entre as obras nomeadas na categoria juvenil encontram-se o Doll Bones, de Holly Black (que estou a ler), Fortunately, The Milk, de Neil Gaiman, livros de autores como Rick Riordan e Jonathan Stroud, e também outros títulos que me suscitam curiosidade, como Navigating Early, de Clare Vanderpool, autora vencedora do Newberry Medal 2011, com Moon Over Manifest; e Counting by 7s, de Holly Goldberg Sloan,  obra já distinguida por uma série de nomeações.

Na categoria de «Jovens Adultos» estão nomeados The 5th Wave, de Rick Yancey, e Allegiant, o terceiro volume da trilogia de Veronica Roth, entre muitos outros.

Para ver as listas completas, entrar aqui.

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Dinamizar um clube de leitura juvenil

Às vezes é difícil pôr os miúdos de dez, onze e doze anos a ler. Preferem o tablet ou o computador ou ver televisão. É, contudo, interessante verificar, nas visitas de autores a escolas, o entusiasmo com que depois aderem e se tornam leitores fiéis desta ou daquela série ou de um autor em particular. O clube de leitura pode ser outro veículo de apresentação de leituras para eles. A partilha do prazer de ler uma história pode ser tão ou mais contagiante se feita com uma certa estrutura que permita manter a atenção e o interesse das crianças, tarefa tão difícil nestas idades. Mas como fazê-lo? No Portal dos Miúdos encontra-se uma página com dicas muito úteis sobre como dinamizar um clube de leitura juvenil. Também inclui linhas orientadoras que ajudam a criar um clube dinâmico e que certamente acolheria muito bem os leitores mais jovens. Pode consultar a página aqui.

 

Poesia juvenil, onde encontrar…

Existe muita poesia, mas muito poucos leitores. Assim se diz num país de grandes poetas. No caso infantil, penso que é diferente. A poesia é talvez mais fácil de assimilar pelos pequeninos, ajuda-os a descobrir as palavras, a descobrir o ritmo das frases e de como jogar com a língua. Para mim a poesia foi fundamental quando estava a aprender a escrever. De tal modo que na infância e na adolescência só escrevia poesia. Variava entre a simples quadra, o soneto e a tentativa de inventar algo diferente, ousado, mas ainda assim com uma estrutura simples, fácil de assimilar.

Por me lembrar disto, de quão importante foi para mim a poesia, embora ler, não tenha lido muita, além de Sophia de Mello Breyner ou de António Gedeão, entre outros, fiz uma pequena pesquisa de livros de poesia para crianças e jovens. Eis uma seleção daqueles que encontrei e que me parecem particularmente interessantes.

Histórias em Verso para Meninos Perversos, de Roald Dahl, publicado pela Teorema, com tradução de Luísa Ducla Soares. É recomendado para crianças a partir dos dez anos.

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Primeiro Livro de Poesia, de Sophia de Mello Breyner Andresen, editado pela Caminho já faz mais de dez anos, pelo que talvez seja um bocadinho difícil de encontrar.

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A Casa com o Sol Lá Dentro, de Maria Teresa Maia Gonzalez, da PI editora, um livro em que a autora nos descreve como a natureza inspira a poesia, e no meu caso é bem verdade, porque a natureza era o mote principal dos meus poemas, escritos entre os nove e os doze anos, com os cheiros, as cores, os sítios que visitava e as marcas que me ia deixando.

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De Que Cor é o Desejo?, de João Pedro Mésseder, Editorial Caminho, um livro que também segue a mesma linha que o da Maria Teresa Maia Gonzalez, mas explorando um pouco mais além, onde «a poesia é a arte de revelar através das palavras o lado escondido da realidade», os nossos desejos e medos.

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E porque me parece um conceito interessante, aqui fica Desmatematicar, de João Manuel Ribeiro, da editora Trinta por uma Linha, com vinte poemas sobre números, tabuada e figuras geométricas, pois não podemos viver sem palavras e sem números.

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C. S. Lewis, o criador de Nárnia

Clive Staples Lewis é o seu nome, escondido atrás das primeiras siglas. Nasceu em 1898, em Belfast, na Irlanda, e foi professor na Universidade de Oxford e na de Cambridge. Era amigo próximo de J. R. R. Tolkien, autor dos livros do Senhor dos Anéis, com quem formou um grupo literário chamado «Inklings», juntamente com outros amigos, e onde falavam sobre diversos temas e se discutiam os escritos de cada um. Curiosamente ele era tratado pela família e amigos por Jack, tudo porque quando era pequeno, o seu cão Jacksie morreu atropelado e ele ficou tão desgostoso que adotou o mesmo nome, dizendo a toda a gente que passaria a responder apenas àquele. Claro que com o tempo, a família convenceu-o a responder, pelo menos, a Jack.

C. S. Lewis era um grande fã dos livros de Beatrix Potter, autora que terá tido uma grande influência  na sua escrita. Na adolescência descobriu as lendas nórdicas e apaixonou-se pela sua mitologia, tal como o seu amigo Tolkien.

O primeiro livro que publicou, em 1933, intitulado The Pilgrim’s Regress, não teve muito boas críticas e passou despercebido junto do público leitor. Seguiu-se uma trilogia de ficção-científica, passada no espaço, e só depois então é que Lewis deu início à sua mais famosa série As Crónicas de Nárnia, constituída por sete volumes, escritos entre 1949 e 1954. Até à data terão sido vendidos já mais de cem milhões de cópias por todo o mundo.

Lewis faleceu aos 64 anos, a 22 de novembro de 1963, no mesmo dia em que o presidente norte-americano John F. Kennedy foi assassinado, pelo que a sua morte não teve grande destaque nos meios de comunicação social.

Para saber mais sobre o autor de um dos maiores clássicos da literatura juvenil mundial, não deixe de visitar a sua página oficial aqui.

C. S. Lewis