Margarida Fonseca Santos, escritora de fantasia e da vida real

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Margarida Fonseca Santos nasceu em Lisboa a 29 de novembro de 1960. Formada em Música, deu aulas em várias escolas, nomeadamente na Escola Superior de Música de Lisboa entre 1990 e 2005. Em 1993 descobriu o gosto pela escrita e desde então tem-se dedicado à criação de histórias, como autora e como formadora.  Escreve para crianças e já se aventurou no romance e no teatro. Dedica também parte do seu tempo a ensinar os outros a escrever histórias, através de oficinas, ateliês e cursos. Um dos seus projetos mais queridos, segundo a autora, é o histórias em 77 palavras. É atualmente um dos autores de literatura juvenil mais prolíficos do nosso país.

Recebeu o Prémio Revelação APE/IPLB, em 1996, por Uma Pedra sobre o Rio. Nesse ano ganhou também o Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca, por O Degrau de Cima. Foi galardoada ainda com o Prémio Novela Manuel Teixeira Gomes, com O N.º 11, e distinguida em 2013 com uma Menção honrosa no Prémio Orlando Gonçalves, pela obra Fragmentos.

A sua obra juvenil vai desde a fantasia, com O Reino de Petzet, às aventuras que assina com Maria João Lopo de Carvalho, em os 7 Irmãos, ou com Maria Teresa Maia Gonzalez, em As Aventuras de Colombo. Margarida não teme escrever sobre assuntos mais sensíveis como o bullying, em Uma Questão de Azul-Escuro, ou a homossexualidade, em Saber ao Certo.

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Conheci a Margarida numa Feira do Livro de Lisboa, faz muitos anos. Eu tinha acabado uma sessão de autógrafos e a Margarida era a seguir, na mesa da Editorial Presença. Ou terá sido ao contrário? Já não me lembro, foi há quase dez anos. Brincou comigo e desejou-me sorte, é tudo o que consigo recordar. Mas os anos foram passando e por motivos profissionais cruzámo-nos várias vezes e posso dizer que é a autora mais sensata, mais versátil, e dada que conheço. Não que conheça muitos autores, mas é sem dúvida um privilégio tê-la conhecido pessoalmente.

Numa iniciativa que estava a organizar, mas que infelizmente não se chegou a concretizar, fiz uma pequena entrevista à autora e que publico aqui:

«Como está, para si, a literatura juvenil em Portugal?
Penso que está a evoluir, de forma discreta, mas a ficar mais diversificada, tanto nos temas como nos autores, podendo com isso chegar a mais jovens. Há quem pense que só se deve ler determinados livros, eu não me associo a essa ideia. O importante é ganhar o hábito de leitura, o prazer infinito da leitura. Pode ser com contos, romances, de géneros diferentes, mas a prioridade é trazer os jovens para a leitura.

Parece-me que cá a literatura juvenil não goza de tanta atenção como a infantil. Concorda?
Sempre foi assim, é difícil qua não seja… Acho que a primeira razão tem mesmo que ver com a implicação dos pais na leitura. Quando as crianças são mais pequenas, as famílias investem no «contar histórias» (infelizmente não tanto como seria desejável), nos livros. Quando os jovens começam a ter outras solicitações (e são muitas!), os livros e a leitura começam a perder-se. Também é verdade que, para muitos, a perda da ilustração é desmotivadora.

Por haver tanta diversidade, às vezes os pais também têm dificuldade em saber que livros dar a ler aos filhos pequenos e jovens… O Plano Nacional de Leitura desempenha um papel importante nesse aspecto, mas será que está a consegui-lo? Ou que alguma vez atingiu esse objetivo?
Penso que o Plano Nacional de Leitura desempenha um papel importante, basta ver como se foram implementando atividades e como a leitura cresceu. Penso que isso é evidente, o que quer dizer que se atingiram objetivos. Por vezes, há livros que ficam em faixas etárias diferentes daquelas que foram pensadas pelo escritor. Talvez fosse mais interessante pedir ao escritor a sua ideia em relação a cada livro, acabando com essas dissonâncias que, a meu ver, só desprestigiam o plano. O maior objetivo a ser alcançado, e calculo que propositadamente, é essa base de dados disponível para todos, não só para as escolas, permitindo que se conheça melhor o que há disponível para determinada idade, tema, etc.

Considera que o ensino dá espaço suficiente à leitura?
Nem sei bem o que responder. Depende sobretudo dos professores. Há pessoas apaixonadas pela leitura e que, ao falar dessa paixão, contagiam os seus alunos. Para outros, o importante é uma normalização de uma interpretação que, a meu ver, retira a verdadeira potencialidade da literatura – ter tantas leituras como leitores! Por fim, penso que há outra falha que se reflete na leitura – a falta de tempo para escrever. Tem sido, para mim, uma batalha constante, pois sei que quem escreve e pensa nas palavras tem muito mais curiosidade pela leitura. É preciso gostar de escrever, não para ser um escritor, mas para ser uma pessoa mais completa.

O que acha da organização, na generalidade, das visitas dos autores às escolas?
Pergunta difícil… Na maior parte das vezes, mas não numa esmagadora maioria, a organização foi a correta: existe a leitura em sala de aula de textos do autor, organizam-se entrevistas (não estanques, abertas), fala-se do que se leu e dos porquês dos assuntos, das opções, das particularidades do livro. Quando corre mal, existem sempre pressupostos errados: que o autor tem de estar com todos os alunos (e não só com os que leram), que vamos às escolas promover os nossos livros (errado, vamos conversar com os nossos leitores), que não é preciso ler nada, pois o autor é que os deve seduzir para os seus livros. E sinto que os professores estão muito cansados, sem esperança, e que isso altera a disponibilidade para preparar visitas de escritores ou ilustradores. Infelizmente, é compreensível que se sintam assim.

Talvez isso aconteça também porque não existe da parte do Estado um programa de incentivo específico que promova a visita de autores, de ilustradores, de editores, às escolas, com linhas orientadoras… Acha que isso podia ajudar?
Essa pergunta levar-nos-ia muito longe… Aquilo que vejo, e é uma opinião pessoal, é que, assim que começaram os agrupamentos, os mega-agrupamentos, perdeu-se a individualidade de cada escola. Nesta corrida à poupança de recursos, desapareceu o espaço para se trabalhar com tranquilidade, na realidade da escola em si. O objetivo é poupar, não me parece possível existir essa ajuda.

Conte-nos uma situação que tenha vivido numa visita a uma escola e que tenha sido particularmente marcante.
Houve duas, que recordo com muita emoção.
Uma delas foi acerca do livro Encruzilhada no Tempo. Fui recebida com imenso carinho e a professora disse-me que iam começar por fazer um teatro. Achei estranho, pois o livro tem saltos de mais de cem anos e é ligado por uma metáfora, dentro de um livro, que as duas personagens principais têm em comum. Quando começou, entendi: estavam a fazer, sem texto, a representação da metáfora, um espectáculo lindíssimo! As lágrimas começaram logo a escorrer, e até houve um aluno, sentado ao meu lado na plateia, que comentou para o do lado: ela não deve estar a gostar, está farta de chorar! Quando acabaram, estava incapaz de falar. Tivemos de fazer um intervalo, depois começar pelas perguntas secas (quando começou a escrever?, quantos livros já publicou?, essas coisas) e só depois consegui falar e agradecer o que me tinham oferecido.
Numa outra escola, uma das turmas estava atrasada e a professora (uma pessoa incrível) sugeriu aos alunos que começassem já a pedir os autógrafos nos livros. O primeiro que veio agradeceu-me o livro. Comovi-me. Depois, a segunda, abriu o livro dela para me mostrar a parte de que mais gostara. E assim sucessivamente, sem ensaio prévio, foi espontâneo, uma necessidade. Tinham lido o meu livro preferido, O Aprendiz de Guerreiro. Chegaram os outros, interrompemos os autógrafos, começou a conversa. Foi tão intensa, tão recheada de perguntas direitas ao coração e à vida, que muitas vezes me comovi. Por fim, um rapaz, no topo do auditório, disse: “Posso dizer uma coisa? Acho que falo por todos. Obrigada por ter escrito este livro e por ter conversado connosco. Acho que aprendemos consigo que podemos ter esperança e seguir os nossos sonhos.” Dessa vez, não fui só eu a chorar, a professora também não aguentou…

Outra pergunta difícil: disse que o seu livro preferido era O Aprendiz de Guerreiro. Pode contar-nos porquê?
Nada difícil! Há fases na vida em que, de repente, tudo muda, nos assusta, nos faz sofrer. Como já disse antes, comecei nessa altura a escrever, mas não só. Para lidar com os meus dias e poder reconstruir uma felicidade, aprendi a meditar, a fazer treino mental, a estudar a mente. Para mim, tudo isto é fascinante. Valores como amizade, solidariedade, respeito, e por aí fora, precisavam de sair para o papel. Surgiu então a colecção O Reino de Petzet (podemos incluí-la no género fantástico) onde falo destas ferramentas, desses valores e de como se pode mudar a nossa vida. Levei muito tempo a conceber a história, a pensar onde diria o quê, enfim, foi escrita em total clandestinidade, nenhum editor sabia dela. Estruturei os três livros, comecei a escrever. O Aprendiz de Guerreiro foi o primeiro, e talvez por isso tenha ficado sempre como o preferido. Por causa desta colecção, fiquei com grandes amizades com leitores (jovens e adultos!), o que me deixa mesmo feliz. Foram agora reeditados, tem sido uma redescoberta. E a verdade é esta: quando estou a fraquejar, leio-os, faz-me bem!»

Não deixem de visitar a página oficial da Margarida Fonseca Santos, com muito mais pormenores sobre toda a sua obra e as atividades que desenvolve aqui.

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