Monthly Archives: Setembro 2014

Aquilo que deve saber para escrever um bom livro infantil

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No seu blogue, O Jardim Assombrado, Carla Maia de Almeida deixou uma síntese daquilo que a seu ver faz um bom livro infantil e que pode servir de guia para todos aqueles que aspiram a escrever uma história para crianças. Não é tão simples como parece e aqui fica o porquê:

«– Tem uma boa ideia e um conceito global forte;
– Tem uma linguagem verbal cuidada, estimulante e adequada ao destinatário infantil, abrindo para o literário, com possibilidades plurisignificativas, múltiplas, com um carácter aberto;
– Tem ritmo e musicalidade na leitura em voz alta;
– Tem ilustrações criativas e adequadas ao texto, acrescentando-lhe significado. Põe cuidado no design gráfico, formato e edição;
– Tem valores humanistas e intemporais. Está em sintonia com o seu tempo. É progressista, muitas vezes;
– Tem uma marca autoral forte;
– Tem emoções associadas à infância e significativas para a criança (humor, gozo, fantasia, devaneio, justiça. segurança…);
– Tem pensamento. Questiona. Permite reflectir.»

Quem estiver interessado em saber mais, poderá experimentar frequentar o curso de Livro Infantil ministrado pela jornalista na Booktailors. Inscrições aqui.

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A livraria GATAfunho, em Oeiras

É uma livraria infantil e juvenil e fica em Oeiras. Com um colorido alegre e convidativo, é um espaço que faz lembrar um quarto de criança, com as paredes «gatafunhadas», o mobiliário pintado, os livros arrumados, mas ao alcance dos pequeninos, tanto os mais jovens como os mais crescidos. Há algumas livrarias infantis que pecam por parecerem museus algo frios e que julgo que levará a que, de tão limpinho e «arrumadinho», trave o contacto das crianças com os livros com receio de estragar o bonito cenário. Esta livraria parece convidar à exploração e à descoberta que é o que uma «loja de livros» deve fazer. Organizam diversas atividades entre leituras de contos, encontros com autores, e pequenos concertos musicais. Um visita, sem sombra de dúvida, recomendável, e mesmo imperativa para quem tem crianças e viva nas redondezas ou esteja de passagem.

O sítio oficial da livraria fica aqui.

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Literatura para adolescentes entre nomeados para National Book Award

Os livros para adolescentes ou «jovens adultos» têm sido alvo de alguma controvérsia por serem cada vez mais lidos por adultos com idades acima dos vinte e trinta anos. A questão em causa terá que ver com a qualidade desses livros e a sua pertinência para uma faixa etária que os críticos consideram que deveria ler obras mais adequadas à sua idade. Polémicas à parte, a verdade é que no meio de uma grande diversidade de histórias, típicas do Young Adult, encontram-se obras de qualidade literária cujo mérito merece ser reconhecido.

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Recentemente foi divulgada a long-list dos nomeados deste ano para o National Book Award, prémios atribuídos pelo National Book Foundation, nos EUA, com o objetivo de celebrar a literatura americana, e entre os livros presentes encontram-se alguns destinados ao público adolescente, como Brown Girl Dreaming, de Jacqueline Woodson, única autora afro-americana nomeada.

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Os temas destes livros são variados, desde a relação de uma filha com o seu pai vítima de stress pós-traumático, em The Impossible Knife of Memory, de Laurie Halse Anderson, à história de um rapaz de origem chinesa adotado por pais brancos, em Greenglass House, de Kate Milford, ou a de outro rapaz que sofre de epilepsia, em 100 Sideways Miles,de Andrew Smith, ou ainda de duas jovens acabadas de se formar através de programas de educação especial e que agora se veem numa situação em que terão de aprender a cuidar de si próprias, em Girls Like Us, de Gail Giles. As personagens são diversas e complexas e as histórias refletem questões com que nos debatemos em sociedade.

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Num artigo do The Guardian, há quem louve esta atitude do júri em incluir literatura para jovens na lista, embora considere que sejam mínimas as hipóteses de qualquer uma das obras passar para a short-list. Ainda assim reconhece que independentemente do seu público-alvo são livros de qualidade e provocadores, com a diversidade que muitas vezes falta neste tipo de prémios.

Via Blogtailors.

O início da animação nas Bibliotecas Municipais de Lisboa – Parte II

por Ana Ramalhete

(A parte I encontra-se aqui.)

A Biblioteca Municipal de Alvalade

Em 1982, Luísa Fialho transitou da Biblioteca das Galveias para a Biblioteca Municipal de Alvalade, na Rua Teixeira de Pascoaes, para assumir o cargo de coordenadora da biblioteca. Uma das primeiras medidas que concretizou foi a de criar uma secção infantil, até aí inexistente. Aproveitou a zona onde funcionava uma cozinha e transformou-a num espaço dedicado aos mais novos. A partir desse momento, definiu um programa de promoção da leitura, destinado à comunidade envolvente, que incluía a realização de exposições, encontros com escritores, concursos de leitura e escrita, teatros, horas do conto, assim como a criação de um clube de animação da leitura para crianças e jovens.

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A Biblioteca iniciou uma colaboração estreita com a escola primária que ficava mesmo ao lado, levando as crianças a participar em todas as actividades a elas destinadas e contribuindo para o enriquecimento do seu nível cultural. Aos poucos, foi-se tornando um pólo cultural importante no bairro.

Isabel Alçada lembra-se das idas frequentes à Biblioteca de Alvalade, onde fez sessões de animação centradas nos livros escritos em parceria com Ana Maria Magalhães, sobretudo os da colecção Uma Aventura. «Os alunos liam os livros na escola com as professoras e depois a Luísa organizava encontros na biblioteca para eles poderem colocar questões». Algumas actividades nasciam na biblioteca, mas cresciam para fora do seu espaço indo até outros lugares como a Feira do Livro, onde as crianças apresentavam os trabalhos realizados nas aulas sobre os livros que liam.

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O autor Armindo Reis foi colaborador e dinamizador em inúmeras sessões que envolveram muitas crianças das escolas de Lisboa. Considera que «foi muito gratificante e o ambiente magnífico. Houve várias actividades de relevo ligadas à poesia, à literatura para crianças e à tradição oral». Por sua vez, Maria Teresa Maia Gonzalez recorda uma sessão com meninos do 1.º ciclo no Dia da árvore, que «foi muito interessante».

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Os anos noventa foram particularmente profícuos em actividades dinamizadas pela Biblioteca de Alvalade – sozinha ou em conjunto com outras bibliotecas municipais que foram surgindo – desde participações em feiras do livro, acções de sensibilização, encontros com escritores, exposições, dramatizações de contos, concursos, até à edição de publicações.

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Este dinamismo foi acompanhado de uma mudança na atitude do público que passou a reconhecer o valor desempenhado pelas bibliotecas no desenvolvimento da comunidade.

Dos vários projectos realizados, Luísa Fialho destaca o concurso Quem lê mais que tinha como base a leitura domiciliária e envolveu centenas de alunos das escolas primárias, entre os sete e os doze anos. Considera que «foi muito estimulante para a promoção da leitura domiciliária». No âmbito do trabalho com os alunos do secundário, salienta o concurso Jovens escritores, «cujo júri era composto por Jacinto Lucas Pires, Pedro Cordeiro, Sofia Ester e outros autores» assim como o projecto Eça em Lisboa, comemorativo do centenário de Eça de Queirós, que levou alunos, de mais de três dezenas de escolas, a percorrerem as ruas de Lisboa à descoberta do autor.

Armindo Reis realça o projecto Muitos mundos, uma só língua, de 1994, no âmbito das Comemorações de Lisboa Capital Europeia da Cultura, com uma semana inteira preenchida com actividades ligadas às várias comunidades da língua portuguesa. «Trabalhei nesse projecto com Vanda de Freitas e Luísa Fialho. Todas as bibliotecas municipais de Lisboa colaboraram, juntamente com turmas de várias escolas de Lisboa onde estavam incluídos vários grupos étnicos. A apresentação final realizou-se em Maio e Junho de 1994. De 20 de Maio a 12 de Junho houve apresentações no Pavilhão da Divisão das Bibliotecas da CML na Feira do Livro de Lisboa: contos e danças tradicionais das várias Comunidades de Língua Portuguesa, dramatizações de contos e recitais de poesia. Nas Bibliotecas Municipais, em Maio e Junho, foram expostos os trabalhos magníficos realizados pelas escolas nesse âmbito. No Palácio Galveias foi também lançada uma antologia (Antologia de contos e lendas da língua portuguesa) com contos e lendas das várias Comunidades de Língua Portuguesa (desde Portugal a Timor-Leste). Os textos foram seleccionados por mim e por Beatriz Weigert. Houve muita [adesão] por parte do público e as crianças deram o seu máximo. Foi, sem dúvida, um projecto de grande dinamização e com o maior sucesso.»

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Com a organização de todas estas iniciativas ligadas ao livro e à leitura, a Biblioteca Municipal das Galveias e a Biblioteca Municipal de Alvalade deram os primeiros passos na animação infantil, nas bibliotecas de Lisboa, abrindo caminho a uma prática que, hoje em dia, faz parte integrante do programa educativo de qualquer biblioteca do país. Como afirmam Maria Luísa Serrão Fialho e Manuela Matos Correia: «A introdução da animação nas bibliotecas municipais representou um passo significativo no papel que as bibliotecas desempenham na sociedade, nas transformações que têm vindo a sofrer e no desenvolvimento cultural das crianças, jovens e adultos» (Maria Luísa Serrão Fialho e Manuela Matos Correia, A animação nas bibliotecas municipais de Lisboa, uma reflexão sobre a mudança in biblioteca – revista das Bibliotecas municipais de Lisboa, 5e 6, p121).

Bertrand publica Prémio Cidade de Almada/Maria Rosa Colaço 2013

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Chega às livrarias Todos por Um Risquinho, de Alexandre Honrado, com ilustrações de Joana Rita. Trata-se da obra vencedora do Prémio Cidade de Almada/Maria Rosa Colaço 2013 num ano em que se assinalam os trinta anos de carreira literária de Alexandre Honrado.

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Todos por Um Risquinho «é uma história muito divertida que desafia, pelo modo como se conta, e pelo que conta, o imaginário de leitores e ouvidores de pouca idade e que, a um mesmo tempo, sugere grandes potencialidades de trabalho a educadores (escolares e familiares). Aqui um risquinho numa parede parece destinado a confundir e agitar não só uma família como a terra em que ela vive. Um desafio de linguagem. Um desafio ao imaginário.»

Nas livrarias a partir de hoje.

O início da animação nas Bibliotecas Municipais de Lisboa – Parte I

por Ana Ramalhete
A Biblioteca das Galveias

Quando, em 1979, a Biblioteca das Galveias inaugurou uma sala infantil e juvenil, não havia nas bibliotecas municipais de Lisboa qualquer programa de animação destinado às crianças e aos jovens. Existiam apenas acções isoladas e uma atitude passiva: esperava-se que o leitor aparecesse, não se chamava o leitor à biblioteca. A constatação dessa lacuna, aliada ao impulso que a literatura infantil teve, após 1974, e ao desejo de conhecimento e da procura de novos livros, levou à criação de um programa de animação, iniciado com a abertura desse espaço dedicado a um novo público. O pretexto foi o facto de, em 1979, se comemorar o ano internacional da criança e o objectivo, o de criar hábitos de leitura e de fomentar o gosto pelo livro, proporcionando a descoberta da literatura.

As escolas tornaram-se o público-alvo. Iniciaram-se encontros com escritores, sessões de teatro, de fantoches, ateliês de pintura, exposições. Começou a realizar-se a hora do conto, uma actividade que ainda não se fazia nas bibliotecas da capital, e nas restantes bibliotecas nacionais apenas se realizava na Biblioteca Machado de Castro, em Cascais e na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo. Lançaram-se as bases de um projecto de orientação e promoção da literatura infantil, visando um trabalho articulado entre a biblioteca, a escola e a comunidade. Segundo Maria Luísa Fialho e Manuela Matos Correia (as técnicas responsáveis pela introdução da animação nas Galveias): «Na Europa há muito que se fazia animação, que se sentia a necessidade de divulgar a Biblioteca à comunidade e de promover a leitura e a cultura em geral» (Maria Luísa Serrão Fialho e Manuela Matos Correia, A animação nas bibliotecas municipais de Lisboa, uma reflexão sobre a mudança in biblioteca – revista das Bibliotecas municipais de Lisboa, 5e6, p121).

Em Portugal, a ideia de animação era nova e pressupunha a necessidade de introduzir modificações e melhoramentos nas bibliotecas, a par de uma mudança de atitude, da aquisição de novas colecções de livros assim como de mobiliário e equipamentos capazes de tornar a biblioteca num lugar agradável e atraente.

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No entanto, a introdução das sessões de animação não teve logo total aderência e apoio. Houve alguma contestação por parte dos leitores da sala dos adultos e até, de alguns funcionários. As crianças faziam barulho e, nessa altura, imperava o silêncio nas bibliotecas. Por parte dos professores das escolas primárias, também houve alguma resistência inicial pois não queriam afastar-se dos locais de ensino. Não havia a tradição das escolas visitarem a biblioteca, nem de os professores saírem com os alunos. Foi necessário convencê-los de que era útil para as crianças deslocarem-se à biblioteca, contactar com os escritores e com os livros. Aos poucos essa situação foi-se alterando e as escolas passaram a aderir, a participar nas actividades e a fazer exposições dos trabalhos dos alunos na biblioteca.

Na Biblioteca das Galveias estiveram, entre outros, autores como Matilde Rosa Araújo, Sophia de Mello Breyner Andresen, Alice Vieira, Ana Maria Magalhães, Isabel Alçada, Luísa Ducla Soares. Os escritores gostavam de ir às Galveias, em Lisboa era o único local onde havia animação.

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Luísa Ducla Soares recorda-se muito bem dos muitos encontros e sessões realizados na biblioteca: «Recebia frequentemente convites para encontros com crianças das escolas próximas (que para lá se dirigiam a pé), interessadas e cheias de entusiasmo. Realizei a maioria das sessões nas salas do piso térreo, destinadas às crianças mas, com bom tempo, também fomos para o belíssimo jardim das traseiras do palacete que é um local privilegiado. Fiz igualmente sessões no 1.º andar, algumas aproveitando o enquadramento de exposições temporárias, que eram, para os meninos,outras descobertas. Fazer um encontro nas Galveias era uma festa porque parecia que estávamos dentro de um palácio de um conto de fadas e todos os que trabalhavam na secção infantil tinham uma postura encantadora, eram de uma afabilidade extrema, desempenhavam com entusiasmo o seu trabalho».

Maria Teresa Maia Gonzalez lembra-se que a primeira sessão que fez como autora foi nas Galveias e que todas as outras aí realizadas «correram sempre muito bem».

Matilde Rosa Araújo era uma autora assídua na biblioteca e, entusiasmada com o nascimento destes encontros, aconselhou Luísa Fialho a escrever tudo o que ia acontecendo pois era a primeira vez que as escolas e os escritores se juntavam para participar em sessões.

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As actividades de promoção da leitura levaram à biblioteca munícipes que não tinham o hábito de a frequentar e começaram a envolver os animadores socioculturais, os professores, as escolas e os profissionais das bibliotecas, com o objectivo de incentivar a leitura e a descoberta da literatura. Implicaram também um novo fulgor que se prolongou pelos anos seguintes.

(continua na Parte II)

«Lá Fora» é divertido lá dentro

por Catarina Araújo

À primeira vista é robusto e mete medo. Depois quando se pega nele sente-se o seu peso, mas não se resiste a passar a mão sobre a capa dura, com uma textura áspera, de um laranja hipnotizante.  Por fim cedemos à vontade de o abrir e mergulhamos no mundo «lá fora».

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É da Planeta Tangerina e foi concebido por Maria Ana Peixe Dias, Inês Teixeira do Rosário e Bernardo P. Carvalho.

Por onde começar? Os autores começam inteligentemente pelo princípio, quando o Homem vivia na Natureza, não só da Natureza. Contam uma história de como nós, humanos, fomos aprendendo os ciclos naturais, a distinguir o que era bom do que era mau para comer, a defendermo-nos dos predadores e a inventar formas de prever mudanças na Natureza até à grande invenção – a civilização.

Numa linguagem acessível, em textos muito bem estruturados, os autores contam-nos onde se pode encontrar na cidade um mundo natural que parece existir apenas no campo, mas que está bem presente muito perto das nossas casas urbanas.

E depois contam porque resolveram escrever um livro sobre a vida «lá fora». Primeiro porque pretendiam ajudar a abrir os olhos para as coisas divertidas que se podem explorar na rua, em vez de ficar em casa a descobri-las através da televisão ou da internet. Por outro lado, acharam que as crianças iam gostar de saber quão diverso é o mundo natural neste cantinho da Península Ibérica.

Para isso há que aprender primeiro o que é o campo, a cidade, os bosques, as florestas, as praias, e tudo mais. Depois há que estabelecer regras, porque isto de explorar a natureza até pode ser divertido, mas se não se tiver cuidado, pode tornar-se perigoso. Estabelecidas as regras de segurança, ficamos a conhecer algumas das coisas que devemos levar connosco, desde objetos importantes, como lanterna, bússula e um bloco de notas, a vestuário adequado, o que é sempre muito útil.

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Nada é deixado ao acaso. Tudo fica bem estabelecido antes de se passar para a fase mais interessante – a da partida para a descoberta.

Como é que se procuram os animais na rua? Que tal começar com os vestígios deixados por eles? Desde marcas de patas, a rastos, a restos de comida, até às fezes. Tudo é muito bem descrito e identificado, de modo a não deixar escapar nada. Ou quase nada. Nem sempre é possível descobrir tudo, saber tudo, e há sempre lugar para o erro. Porque também é assim que se aprende.

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Capítulo a capítulo, em páginas profusamente ilustradas e com informações apelativas e elucidativas, vamos descobrindo diversas curiosidades sobre insetos, anfíbios, árvores, aves, répteis, flores, mamíferos, rochas, mar e praias e céu de Portugal.

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Encontram-se pois vários motivos para andar dobrado nos jardins e nos parques ou nos passeios a examinar o chão, com os olhos semicerrados a ver se encontramos uma lesma ou os restos de comida deixados por um chapim-real ou então de cabeça virada para cima, perscrutando o céu, na tentativa de identificar que nuvens suspeitas são aquelas que se aproximam e que podem muito bem trazer chuva.

No final de cada secção, os autores propõem atividades para se aplicar cada novo conhecimento, como por exemplo ir às Berlengas ver sardões e lagartixas ou então fazer uma expedição ao campo algarvio ou ainda escrever histórias sobre os animais sobre os quais se esteve a ler.

Há muito por fazer e descobrir, e basta folhear o livro para nos darmos conta, mal saímos de casa e chegamos à rua, de quanta vida é possível encontrar ali tão perto. Miúdos e graúdos, todos juntos, em família, numa autêntica viagem ao microcosmos.

Um verdadeiro guia que convida à exploração, à descoberta e ao questionamento, numa edição cuidada, cheia de pormenores cativantes, com informação útil, sem ser demasiado expositiva ou maçuda. Um livro que mal fechamos, queremos voltar a abrir, mas não sem antes ir passear um bocadinho com as crianças e ver de perto todas aquelas coisas divertidas e interessantes que se descobriram «lá dentro».

Eles por elas e elas por eles

Hoje abrimos aqui parêntesis nos livros. Há uns dias decorreu um evento na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, EUA, relacionado com igualdade de direitos e oportunidades entre homens e mulheres, impulsionado por um movimento que se chama He for She (Ele por Ela).

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Nesse evento, Emma Watson, atriz (mais conhecida pelo papel que desempenhou nas adaptações ao cinema de Harry Potter, como Hermione Granger), fez um discurso enquanto embaixadora da Boa Vontade da ONU para os Direitos das Mulheres para lançar aquele movimento.

Trata-se de um discurso bastante eloquente e sentido, em que Emma chama a atenção para a igualdade de género. A atriz e embaixadora falou também da necessidade de os homens estarem ao lado das mulheres nesta caminhada, porque é um problema da sociedade e em que todos sairão beneficiados se se acabar com a descriminação no trabalho, na educação e nos mais variados aspetos da vida social, no mundo.

É importante referir esta questão, pois ela também se reflete ao nível da literatura. São valores importantes que devem ser tratados na literatura infantil e juvenil para que rapazes e raparigas aprendam a respeitar-se logo desde pequenos e cresçam conscientes dos seus papéis na sociedade, na luta pela igualdade de direitos, não de uns contra os outros, mas em conjunto, como Emma refere no seu discurso. Porque homens e rapazes também são descriminados quando são vistos como sensíveis ou quando os seus papéis como pais e educadores são desvalorizados, «aprisionados por estereótipos de género».

As histórias que as crianças leem podem ajudar a mudar isso.

Infelizmente não encontrei o discurso com legendas em português, mas aqui fica o vídeo.

Astrid das meias altas

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Astrid Anna Emilia Lindgren é o nome completo da criadora de uma das personagens mais conhecidas da literatura infantil e juvenil: Pippi Långstrump, a Pippi das Meias Altas.

A autora nasceu e cresceu numa quinta em Vimmerby, na Suécia, no princípio do século XX. As vivências nesta quinta terão inspirado muitos dos seus livros. É logo na infância que Astrid descobre o amor pelas histórias e pelos livros ao ouvir os contos de fadas que Edit, a filha de um trabalhador da quinta, contava na sua cozinha.

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Aos dezoito anos, grávida, e não querendo juntar-se ao pai do bebé, decidiu sair da sua terra, mudar-se para Estocolmo, e estudar datilografia. Pouco depois começou a trabalhar como secretária no Royal Automobile Club, onde viria a conhecer o futuro marido, Sture Lindgren. Em 1941, Astrid, o marido e os filhos foram viver para Dalagatan. Esta seria a casa onde ficariam a residir para o resto das suas vidas, passando férias em Furusund, no Arquipélago de Estocolmo, o sítio favorito de Astrid. Era neste lugar que a autora encontrava a inspiração para escrever muitas das suas histórias.

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O primeiro livro sobre Pippi das Meias Altas foi publicado em 1945 e alcançou sucesso imediato por todo o mundo. Um ano depois, Astrid começou a trabalhar como editora de livros infantis na editora Rabén & Sjögren onde permaneceu até à sua reforma em 1970. De manhã escrevia os seus livros e à tarde trabalhava como editora.

Gradualmente, Astrid começou a envolver-se em questões sociais, mostrando grande influência junto da opinião pública, e recebendo até o German Book Traders’ Peace Prize. No discurso de receção do prémio, Astrid iniciou o debate sobre castigos corporais na educação das crianças. Outras causas em que se envolveu estavam relacionadas com a energia nuclear e com os maus tratos aos animais, o que ajudou a implementar por exemplo novas leis de proteção aos animais.

Astrid Lindgren faleceu em janeiro de 2002 na sua casa em Dalagatan. O seu funeral realizou-se a 8 de março, no Dia Internacional da Mulher.

A biografia mais detalhada da autora pode ser encontrada aqui.

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Em 2002 foi criado o Prémio Memorial Astrid Lindgren concedido anualmente pelo Governo Sueco através do Conselho Nacional da Cultura. Também conhecido como prémio ALMA, é atribuído a um escritor ou ilustrador de literatura infantil ou ainda a uma organização que se distinga pelo seu trabalho a favor da divulgação da leitura e da defesa dos direitos humanos de jovens e crianças. É hoje em dia um dos mais importantes galardões destinados à literatura para a infância e juventude.

O autor António Mota e a editora Planeta Tangerina foram candidatos ao Prémio ALMA este ano. Barbro Lindgren foi a autora laureada. Maurice Sendak, Philip Pullman e Shaun Tan são alguns dos autores galardoados com este prémio. O sítio oficial do prémio encontra-se aqui.

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Em 2007 foi aberto um centro cultural dedicado a Astrid Lindgren, na terra onde nasceu, em Vimmerby. O complexo inclui a casa onde Astrid cresceu e um limoeiro como o de Pippi das Meias Altas. Contém também um cinema e uma exposição sobre a vida e a obra da autora, além de um centro de investigação e um museu. O sítio oficial do centro fica aqui.