O início da animação nas Bibliotecas Municipais de Lisboa – Parte I

por Ana Ramalhete
A Biblioteca das Galveias

Quando, em 1979, a Biblioteca das Galveias inaugurou uma sala infantil e juvenil, não havia nas bibliotecas municipais de Lisboa qualquer programa de animação destinado às crianças e aos jovens. Existiam apenas acções isoladas e uma atitude passiva: esperava-se que o leitor aparecesse, não se chamava o leitor à biblioteca. A constatação dessa lacuna, aliada ao impulso que a literatura infantil teve, após 1974, e ao desejo de conhecimento e da procura de novos livros, levou à criação de um programa de animação, iniciado com a abertura desse espaço dedicado a um novo público. O pretexto foi o facto de, em 1979, se comemorar o ano internacional da criança e o objectivo, o de criar hábitos de leitura e de fomentar o gosto pelo livro, proporcionando a descoberta da literatura.

As escolas tornaram-se o público-alvo. Iniciaram-se encontros com escritores, sessões de teatro, de fantoches, ateliês de pintura, exposições. Começou a realizar-se a hora do conto, uma actividade que ainda não se fazia nas bibliotecas da capital, e nas restantes bibliotecas nacionais apenas se realizava na Biblioteca Machado de Castro, em Cascais e na Biblioteca Municipal de Viana do Castelo. Lançaram-se as bases de um projecto de orientação e promoção da literatura infantil, visando um trabalho articulado entre a biblioteca, a escola e a comunidade. Segundo Maria Luísa Fialho e Manuela Matos Correia (as técnicas responsáveis pela introdução da animação nas Galveias): «Na Europa há muito que se fazia animação, que se sentia a necessidade de divulgar a Biblioteca à comunidade e de promover a leitura e a cultura em geral» (Maria Luísa Serrão Fialho e Manuela Matos Correia, A animação nas bibliotecas municipais de Lisboa, uma reflexão sobre a mudança in biblioteca – revista das Bibliotecas municipais de Lisboa, 5e6, p121).

Em Portugal, a ideia de animação era nova e pressupunha a necessidade de introduzir modificações e melhoramentos nas bibliotecas, a par de uma mudança de atitude, da aquisição de novas colecções de livros assim como de mobiliário e equipamentos capazes de tornar a biblioteca num lugar agradável e atraente.

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No entanto, a introdução das sessões de animação não teve logo total aderência e apoio. Houve alguma contestação por parte dos leitores da sala dos adultos e até, de alguns funcionários. As crianças faziam barulho e, nessa altura, imperava o silêncio nas bibliotecas. Por parte dos professores das escolas primárias, também houve alguma resistência inicial pois não queriam afastar-se dos locais de ensino. Não havia a tradição das escolas visitarem a biblioteca, nem de os professores saírem com os alunos. Foi necessário convencê-los de que era útil para as crianças deslocarem-se à biblioteca, contactar com os escritores e com os livros. Aos poucos essa situação foi-se alterando e as escolas passaram a aderir, a participar nas actividades e a fazer exposições dos trabalhos dos alunos na biblioteca.

Na Biblioteca das Galveias estiveram, entre outros, autores como Matilde Rosa Araújo, Sophia de Mello Breyner Andresen, Alice Vieira, Ana Maria Magalhães, Isabel Alçada, Luísa Ducla Soares. Os escritores gostavam de ir às Galveias, em Lisboa era o único local onde havia animação.

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Luísa Ducla Soares recorda-se muito bem dos muitos encontros e sessões realizados na biblioteca: «Recebia frequentemente convites para encontros com crianças das escolas próximas (que para lá se dirigiam a pé), interessadas e cheias de entusiasmo. Realizei a maioria das sessões nas salas do piso térreo, destinadas às crianças mas, com bom tempo, também fomos para o belíssimo jardim das traseiras do palacete que é um local privilegiado. Fiz igualmente sessões no 1.º andar, algumas aproveitando o enquadramento de exposições temporárias, que eram, para os meninos,outras descobertas. Fazer um encontro nas Galveias era uma festa porque parecia que estávamos dentro de um palácio de um conto de fadas e todos os que trabalhavam na secção infantil tinham uma postura encantadora, eram de uma afabilidade extrema, desempenhavam com entusiasmo o seu trabalho».

Maria Teresa Maia Gonzalez lembra-se que a primeira sessão que fez como autora foi nas Galveias e que todas as outras aí realizadas «correram sempre muito bem».

Matilde Rosa Araújo era uma autora assídua na biblioteca e, entusiasmada com o nascimento destes encontros, aconselhou Luísa Fialho a escrever tudo o que ia acontecendo pois era a primeira vez que as escolas e os escritores se juntavam para participar em sessões.

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As actividades de promoção da leitura levaram à biblioteca munícipes que não tinham o hábito de a frequentar e começaram a envolver os animadores socioculturais, os professores, as escolas e os profissionais das bibliotecas, com o objectivo de incentivar a leitura e a descoberta da literatura. Implicaram também um novo fulgor que se prolongou pelos anos seguintes.

(continua na Parte II)

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