O início da animação nas Bibliotecas Municipais de Lisboa – Parte II

por Ana Ramalhete

(A parte I encontra-se aqui.)

A Biblioteca Municipal de Alvalade

Em 1982, Luísa Fialho transitou da Biblioteca das Galveias para a Biblioteca Municipal de Alvalade, na Rua Teixeira de Pascoaes, para assumir o cargo de coordenadora da biblioteca. Uma das primeiras medidas que concretizou foi a de criar uma secção infantil, até aí inexistente. Aproveitou a zona onde funcionava uma cozinha e transformou-a num espaço dedicado aos mais novos. A partir desse momento, definiu um programa de promoção da leitura, destinado à comunidade envolvente, que incluía a realização de exposições, encontros com escritores, concursos de leitura e escrita, teatros, horas do conto, assim como a criação de um clube de animação da leitura para crianças e jovens.

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A Biblioteca iniciou uma colaboração estreita com a escola primária que ficava mesmo ao lado, levando as crianças a participar em todas as actividades a elas destinadas e contribuindo para o enriquecimento do seu nível cultural. Aos poucos, foi-se tornando um pólo cultural importante no bairro.

Isabel Alçada lembra-se das idas frequentes à Biblioteca de Alvalade, onde fez sessões de animação centradas nos livros escritos em parceria com Ana Maria Magalhães, sobretudo os da colecção Uma Aventura. «Os alunos liam os livros na escola com as professoras e depois a Luísa organizava encontros na biblioteca para eles poderem colocar questões». Algumas actividades nasciam na biblioteca, mas cresciam para fora do seu espaço indo até outros lugares como a Feira do Livro, onde as crianças apresentavam os trabalhos realizados nas aulas sobre os livros que liam.

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O autor Armindo Reis foi colaborador e dinamizador em inúmeras sessões que envolveram muitas crianças das escolas de Lisboa. Considera que «foi muito gratificante e o ambiente magnífico. Houve várias actividades de relevo ligadas à poesia, à literatura para crianças e à tradição oral». Por sua vez, Maria Teresa Maia Gonzalez recorda uma sessão com meninos do 1.º ciclo no Dia da árvore, que «foi muito interessante».

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Os anos noventa foram particularmente profícuos em actividades dinamizadas pela Biblioteca de Alvalade – sozinha ou em conjunto com outras bibliotecas municipais que foram surgindo – desde participações em feiras do livro, acções de sensibilização, encontros com escritores, exposições, dramatizações de contos, concursos, até à edição de publicações.

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Este dinamismo foi acompanhado de uma mudança na atitude do público que passou a reconhecer o valor desempenhado pelas bibliotecas no desenvolvimento da comunidade.

Dos vários projectos realizados, Luísa Fialho destaca o concurso Quem lê mais que tinha como base a leitura domiciliária e envolveu centenas de alunos das escolas primárias, entre os sete e os doze anos. Considera que «foi muito estimulante para a promoção da leitura domiciliária». No âmbito do trabalho com os alunos do secundário, salienta o concurso Jovens escritores, «cujo júri era composto por Jacinto Lucas Pires, Pedro Cordeiro, Sofia Ester e outros autores» assim como o projecto Eça em Lisboa, comemorativo do centenário de Eça de Queirós, que levou alunos, de mais de três dezenas de escolas, a percorrerem as ruas de Lisboa à descoberta do autor.

Armindo Reis realça o projecto Muitos mundos, uma só língua, de 1994, no âmbito das Comemorações de Lisboa Capital Europeia da Cultura, com uma semana inteira preenchida com actividades ligadas às várias comunidades da língua portuguesa. «Trabalhei nesse projecto com Vanda de Freitas e Luísa Fialho. Todas as bibliotecas municipais de Lisboa colaboraram, juntamente com turmas de várias escolas de Lisboa onde estavam incluídos vários grupos étnicos. A apresentação final realizou-se em Maio e Junho de 1994. De 20 de Maio a 12 de Junho houve apresentações no Pavilhão da Divisão das Bibliotecas da CML na Feira do Livro de Lisboa: contos e danças tradicionais das várias Comunidades de Língua Portuguesa, dramatizações de contos e recitais de poesia. Nas Bibliotecas Municipais, em Maio e Junho, foram expostos os trabalhos magníficos realizados pelas escolas nesse âmbito. No Palácio Galveias foi também lançada uma antologia (Antologia de contos e lendas da língua portuguesa) com contos e lendas das várias Comunidades de Língua Portuguesa (desde Portugal a Timor-Leste). Os textos foram seleccionados por mim e por Beatriz Weigert. Houve muita [adesão] por parte do público e as crianças deram o seu máximo. Foi, sem dúvida, um projecto de grande dinamização e com o maior sucesso.»

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Com a organização de todas estas iniciativas ligadas ao livro e à leitura, a Biblioteca Municipal das Galveias e a Biblioteca Municipal de Alvalade deram os primeiros passos na animação infantil, nas bibliotecas de Lisboa, abrindo caminho a uma prática que, hoje em dia, faz parte integrante do programa educativo de qualquer biblioteca do país. Como afirmam Maria Luísa Serrão Fialho e Manuela Matos Correia: «A introdução da animação nas bibliotecas municipais representou um passo significativo no papel que as bibliotecas desempenham na sociedade, nas transformações que têm vindo a sofrer e no desenvolvimento cultural das crianças, jovens e adultos» (Maria Luísa Serrão Fialho e Manuela Matos Correia, A animação nas bibliotecas municipais de Lisboa, uma reflexão sobre a mudança in biblioteca – revista das Bibliotecas municipais de Lisboa, 5e 6, p121).

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