Uma super-heroína chamada Pippi das Meias Altas

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Edição da Booksmile, 2013

Pippi das Meias Altas é mentirosa, não obedece a ninguém, está sempre a fazer pouco dos adultos e das suas regras, tem atitudes incompreensíveis e rejeita tudo o que é norma social. Seria pois o pesadelo de qualquer pai cujos filhos a tivessem como amiga. Que é o que acontece com Tomás e Anita Santiago, os irmãos e vizinhos com quem Pippi brinca.

Mas Pippi também é uma super-heroína, muito forte, invencível, capaz de pegar num homem pela cintura, de derrubar toiros e de dar a volta a ladrões fazendo-os implorar por perdão e dar uns passos de dança escocesa, e de salvar crianças de edifícios em chamas.

«Uma criança fora de série.» É assim que Pippi é descrita no princípio da história e com razão: ela tem nove anos, perdeu a mãe quando ainda era bebé e o pai afogou-se no mar, pelo que vive sozinha na Vila do Arco-íris, sem nenhum adulto para cuidar dela, porque aparentemente é muito bem capaz de cuidar de si própria. Usa os cabelos cor de cenoura presos em duas tranças espetadas, veste um vestido azul com flores costurado por si e calça meias altas de pares diferentes. Tem como companheiros um macaco, o Senhor Nelson, e um cavalo. Os adultos não a toleram, porém as crianças, apesar de ao princípio ficarem muito espantadas por Pippi viver sozinha e não ir à escola, acabam por achá-la muito divertida.

Na falta de uma educação coerente, Pippi tem dificuldade em ler e escrever, bem como fazer contas e não sabe «comportar-se». Os amigos Tomás e Anita arranjam maneira de a convencer a experimentar ir à escola, mas Pippi contesta a professora logo que ela tenta ensinar alguma coisa e acaba por desistir.

Pippi não é uma personagem tradicionalmente identificável, dado ser tão forte, irreverente, ter muito dinheiro e viver uma vida independente, sem ligar às normas. O Tomás e a Anita serão as crianças com que os pequenos leitores se identificam e que ficarão a desejar conhecer alguém como Pippi, uma rapariga confiante, criativa, cheia de personalidade. Por outro lado, como está sempre a mentir e a inventar histórias, torna-se difícil confiar nela.

A um nível mais profundo, é notável como Pippi é uma rapariga solitária, que procura o contacto humano, apesar de acabar por se «mal comportar» sempre, consciente de que não é capaz de conviver normalmente com as outras pessoas, por não ter adultos que cuidem dela, a orientem e a ensinem a viver em sociedade. Isso fá-la sentir-se triste e incapaz, embora seja um sentimento temporário, porque logo depois arranja outras maneiras diferentes de se distrair e divertir.

Este livro é definitivamente escrito para crianças. Um adulto, especialmente se for pai ou mãe, sentir-se-á consumido por uma vontade de fechar o livro cada vez que lê mais uma das tropelias de Pippi. Contudo, lendo nas entrelinhas, compreendemos como é importante para uma criança ter por perto um adulto que a ame, que cuide, que oriente, que ensine e que lhe dê estrutura, sem perder de vista claro as peculiaridades de uma personalidade própria, com as suas ideias e as suas diferentes capacidades.

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