O mundo fantástico de Nicoletta Ceccoli

por Ana Ramalhete
Nicoletta e a ilustração

Nicoletta Ceccoli nasceu em 1973, em São Marino, onde vive e trabalha como ilustradora de livros. Formou-se no Instituto de Arte de Ubino e já ganhou vários prémios, como o Prémio Andersen para o melhor ilustrador, em 2001, a Medalha de Prata da Sociedade do Ilustrador de Nova Iorque e o Prémio de Excelência de Comunication Arts 2002. O seu trabalho tem sido exibido em vários países, tais como França, Canadá e Estados Unidos da América, onde faz exposições regularmente. Já esteve presente na Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha sete vezes.

Nicoletta começou a interessar-se por ilustração na escola. Iniciou os seus desenhos com formas redondas e temas fantásticos e sentiu necessidade de criar imagens a partir de uma história.

As suas ilustrações são executadas a lápis, pastel e acrílico. Mais recentemente começou a experimentar o computador e o spray. Têm, quase sempre, como figura principal, uma menina que interage com as outras figuras. Esta ligação é estabelecida através de pormenores que se complementam, como um laço na cabeça com pássaros iguais aos que saem de uma saia/ovo, ou como uma boneca animada que não tem pescoço e tem a cabeça separada do corpo para adquirir o movimento dos objectos que a rodeiam.

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Algumas lembram bonecas de porcelana, outras figuras surrealistas onde há uma mistura do humano com animal ou vegetal. Algumas têm cabelos que são árvores, corvos ou peixes, outras, corpos que são ovos, patas de aranha ou gaiolas com pássaros. Como a própria Nicoletta afirma (em entrevista dada à revista Backmagazine), são raparigas abandonadas em espaços vazios, frequentemente em situações perigosas ou assustadoras e representam-na a ela e aos seus medos.

Estas meninas são intensas, comoventes, por vezes melancólicas. Existem numa atmosfera de sonho. São encantadas, delicadas, inquietantes. Contam histórias e parecem saídas de contos de fadas.

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Nicoletta Ceccoli constrói estas ilustrações a partir de temas, sendo os mais recorrentes os brinquedos, as bonecas e os contos (de fadas ou outros). Neles encontramos elementos figurativos que se repetem: os objectos, onde se incluem botões, dados, bolas, gaiolas, bengalas, cavalos com rodas (alusões aos brinquedos antigos de lata); os animais, tais como borboletas, escaravelhos, pássaros, peixes, ratos, elefantes, coelhos; as torres (com cúpulas que recordam carrosséis ou tendas de circo) e os castelos; as árvores e os ramos; as rodelas com espirais parecidas com guloseimas, chupa-chupas ou rebuçados; as nuvens; o chão com mosaicos aos quadrados e os animais voadores.

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Há uma nítida citação do universo da infância, dada através da representação de brinquedos semelhantes aos antigos, de ferro ou de lata, a brinquedos de plástico dos anos sessenta e setenta e a bonecas. Alguns são inspirados na sua colecção de bonecas partidas e brinquedos que guarda na sala onde trabalha, em sua casa.    As torres, que pinta, são executadas com base nas torres da cidade de São Marino, nomeadamente a Torre de Gaíta que serviu de inspiração para as ilustrações das «meninas na torre». Algumas imagens são criadas com a perspectiva das três torres.

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Influências e inspirações

Em todo o trabalho desta ilustradora encontram-se influências de pintores de variadas e distintas épocas.

De Yeronimus Bosh (1450-1516), nas figuras estranhas que se compõem de partes diferentes: animais com características humanas ou humanos com características animais; nos peixes voadores; nas figuras a pairar no céu; nas serpentes ameaçadoras e nas meninas que montam animais de diferentes espécies.

De René Magritte (1898-1967), nos objectos vulgares que fora do contexto ganham novos significados; na linguagem onírica povoada da simbologia e da forma narrativa dos sonhos; nas figuras das nuvens; nas cabeças separadas do corpo; nas maçãs que surgem a flutuar; no contraste entre o tratamento realista dos objectos e a atmosfera irreal dos conjuntos.

De Mark Ryden (pintor norte-americano nascido em 1963), nas meninas semelhantes a bonecas; em alguns elementos como os animais que servem de meio de transporte e nas cores pastel que contribuem para criar uma atmosfera fantástica e surreal. Também outros artistas de cunho surrealista como Remedios Varo (1908-1963), Ray Cesar ( Londres,1958) ou Stasys Eidrigevicius (artista que nasceu na Lituânia e vive na Polónia) são fonte de inspiração e de admiração confessa de Nicoletta Ceccoli.

Encontramos também no trabalho de Ceccoli outras influências, quer de artistas plásticos como os pintores renascentistas (nas cores utilizadas como os tons pardos e acinzentados que acentuam o lado secreto e misterioso), quer de outras áreas como: o desenho animado (nomeadamente os Quay brothers); o cinema (de Fellini, Tim Burton; David Lynch, entre outros); os livros (Dickens, Lewis Carrol, Kurt Vonnegut).

Tal como Bosch e os pintores surrealistas o fizeram, Nicoletta desperta o nosso interesse pelo mundo dos sonhos, através de imagens fantásticas, aparentemente irracionais, carregadas de metáforas e simbolismo, estabelecendo um contraste entre o tratamento realista dos objectos e a atmosfera irreal dos conjuntos.

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As figuras e os livros de Nicoletta

O trabalho de Nicoletta é inovador, original, interessante e atraente. As figuras e o ambiente fantástico que o caracterizam levam-nos até ao seu mundo, onde coabitam a delicadeza e a inquietude, a ternura e o insólito, as paisagens encantadas e as paisagens fantásticas, exactamente como nos contos que fascinam as crianças. Estas são levadas a voar, a imaginar e a entrar nas histórias que as imagens lhes contam. Certamente se sentirão identificadas com toda a fantasia e reminiscências inerentes às suas vivências e gostarão de olhar para as imagens deixando-se flutuar nelas e com elas.    Esta ilustradora italiana publicou mais de trinta livros, desde 1995, em vários países, tais como: Itália, Reino Unido, Estados Unidos da América, Tailândia, Suíça e França.    Em Portugal estão publicados apenas três livros. São eles: O Atlas de Ana (2003, Livros horizonte), O desejo do lenhador (2003, Livros Horizonte) e As aventuras de Pinóquio (2003, Presença). As ilustrações destes livros não se assemelham às imagens das meninas. Têm cores mais vivas, mais fortes e as figuras humanas não têm aspecto de bonecos. É uma outra vertente do seu trabalho, que coexiste pacificamente com o outro lado mais sombrio e esfumado e também mais característico, aliciante e inovador. O mundo de Nicoletta Ceccoli tem algo de secreto, misterioso e fantástico.

Bibliografia

Bazin, Germain, História da Arte, Bertrand, Lisboa, 1976
Eco, Umberto, História do feio, Difel, Lisboa, 2007
Janson, H. W., História da Arte, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1977
www.nicolettaceccoli.comwww.markryden.comwww.arrestedmotion.comwww.raycaesar.comhttp://eidrigevicius.comwww.bakmagazine.com.

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