Leituras do Baú: «A Casa da Árvore Oca»

por Alexandra Martins

Herdei dois livros do meu pai. Da minha mãe, herdei muitos, de aventuras e histórias de piratas à coleção completa de Os Cinco, mas do meu pai herdei apenas dois. De capa dura e páginas amareladas – afinal de contas, foram editados no início dos anos 1970. Agora, mais de quarenta anos depois, voltei a pegar num deles: A Casa da Árvore Oca.

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A Casa da Árvore Oca, da autoria de Enid Blyton, conta-nos a história de Pedro e Susana, dois irmãos que ficaram órfãos e foram viver com os tios, um casal pobre em dinheiro e em afetos, principalmente a Tia Margarida, amarga, má e maldizente, que nunca quis os sobrinhos e os trata como se fossem um empecilho. Os dois irmãos tudo fazem para lhe cair nas boas graças – são educados, trabalhadores e honestos – mas vivem permanentemente com receio das represálias e dos castigos da tia.

Quando têm tempo livre, Pedro e Susana encontram-se com a melhor amiga, Ângela, e o seu cãozinho e vão brincar para a floresta. É lá que descobrem um carvalho muito grande e muito velho, tão velho que é totalmente oco por dentro. Decidem, naquele instante, transformar aquela velha árvore num esconderijo, mobilando-a com os seus parcos pertences, como se fosse a sua casa. A árvore torna-se o seu refúgio predileto e é para lá que Pedro e Susana fogem quando a tia os tenta enviar para um orfanato. Ângela, cuja família é carinhosa e abastada, sabe do segredo dos dois irmãos e ajuda-os, levando-lhes comida e outros bens necessários. Mas esta é uma vida que não pode durar para sempre e, numa surpreendente reviravolta de eventos, o que parecia uma tragédia pode ser o final feliz que os dois jovens há tanto procuravam.

Este livro marcou-me muito quando era mais pequena. Soava-me um pouco a conto de fadas, mas sem príncipes nem princesas, apenas crianças que tiveram de se salvar a elas próprias. No calor da minha casa, vivi as aventuras daqueles irmãos, partilhei os seus desgostos e a sua coragem, aprendi o valor da retidão, da honestidade e, acima de tudo, da solidariedade e da amizade pura entre pessoas de mundos tão diferentes (retratados nas figuras de Ângela, vinda de uma família rica e feliz, e de Pedro e Susana, pobres e sem afetos familiares). Agora, relendo-o com os olhos menos crédulos de uma adulta, reencontrei todos esses valores, toda a moral que o livro pretende transmitir. E ainda pormenores deliciosos de um livro tão antigo: por exemplo, é sempre utilizada a segunda pessoa do plural em todos os verbos (“vós ides”, “vós fazeis”, “trazei”, “começai”, etc.), uma coisa que hoje até pode causar alguma estranheza à leitura, mas que a mim me deliciou pelo significado que acarreta. Afinal, trata-se de um livro com 43 anos!

P.S.: Atualmente encontra-se editado pela editora Oficina do Livro.

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