A bailarina da terra e do mar

A dança nos contos para a infância de Sophia de Mello Breyner
por Ana Ramalhete

«Quando eu era nova, dançava sozinha em casa os versos que escrevia…»
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia dançava enquanto escrevia e escrevia enquanto dançava. Bailava com as personagens, deslizava com as palavras, rodopiava com as histórias. Dançava de noite quando a casa respirava silêncio, dançava de dia ao som da ventania.

Enquanto criança, inventava danças sozinha, enquanto adulta imaginava passos de dança e argumentos para bailados.

Sophia transmitiu a sua paixão pela dança nos contos que escreveu para o público infantil. Está presente em quase todos e surge associada à vida e à alegria. As personagens dançam quando estão felizes: «o rapazinho sentia-se tão feliz que às vezes punha-se a dançar em cima dos rochedos» (A menina do mar) e quando respiram liberdade: «vivia livre, alegre e feliz dançando nos campos, nos montes, nos bosques, nos jardins e nas praias» (A fada Oriana). O medo e a tristeza impedem a concretização do movimento. Quando se instalam fazem-no parar, bloqueiam quem o executa: «mas eu estava muito triste e por isso dancei muito mal» (A menina do mar).

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Nas histórias da autora de Os reis do oriente, a dança tem o poder de distrair: «O poeta sentou-se na beira da janela a vê-la e do fundo da floresta vieram os veados, os coelhos, as aves e as borboletas, para verem a dança da fada» (A fada Oriana); de encantar: «As danças das flores eram extraordinárias, leves e lentas»; de desabrochar «(…) ao som dos tambores/ o seu bailar faz abrir/mais depressa as flores» (A árvore); de perfumar: «A Flor do Muguet, branca e pequenina, leve como a brisa, dançava todas as danças. E as suas campânulas baloiçavam perfumando a noite» (O rapaz de bronze); de surpreender: «Todas as flores se espantaram de ver a túlipa a dançar» (O rapaz de bronze), de despertar: «Respirou fundo os perfumes da madrugada e fez uns passos de dança (…) e foi pela floresta fora dançando e dizendo bom dia às coisas» (A fada Oriana).

E, se a dança for de noite, tem um efeito mágico: «E de noite as flores dançam e passeiam» (O rapaz de bronze); inovador: «então Oriana começou a dançar no ar, em pontas dos pés, a “Dança da Noite de Luar da Primavera” – dançava como as flores dançam no vento e os seus braços eram iguais ao correr dos rios» (A fada Oriana) e apaziguador «antes de adormecer olho para a tília e vejo as folhas da tília a dançar» (O rapaz de bronze).

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A dança aparece também como uma forma de estabelecer a comunicação entre povos ou pessoas desconhecidas, funcionando como um elemento preconizador de paz: «Então bailando e cantando, os negros vinham ao encontro dos navegadores que, para corresponderem ao bom acolhimento, bailavam e dançavam também à moda da sua terra» (O cavaleiro da Dinamarca); e de confiança «o português, para voltar a estabelecer a confiança, começou a cantar e a dançar» (O cavaleiro da Dinamarca).

Tudo e todos dançam: as crianças, da terra ou do mar: «Então a menina saiu da água, subiu para uma rocha e principiou a dançar» (A menina do mar), «E dançavam e cantavam nas relvas finas» (O cavaleiro da Dinamarca); as flores «As rosas da trepadeira estremeceram e dançaram quando ela chegou» (A fada Oriana); «As flores despediram-se do Rapaz de Bronze e afastaram-se rindo e dançando» (O rapaz de Bronze); as fadas «Oriana ia para os prados dançar com as outras fadas» (A fada Oriana); os animais «Já dança o leão/debaixo da cerejeira/ao som dos tambores» (A árvore); as estátuas «durante a noite ele falava, mexia, caminhava, dançava» (O rapaz de bronze); as ervas «a brisa fazia dançar as ervas» (A fada Oriana); «ervas trémulas dançavam à menor brisa» (A floresta); a água «viu dançar na água um reflexo branco que vinha ao encontro do seu reflexo de oiro» (O rapaz de bronze); «E a água junto dos seus pés ia e vinha e bailava também» (A menina do mar); a fita do cabelo «punha uma fita a dançar no meu vestido» (A fada Oriana); a brisa «A brisa dançava com as ervas dos campos» (A fada Oriana); a chama «o reflexo da chama dançava na sua cara» (A fada Oriana).

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Dançam em todo o lado: no fundo do mar «sentam-se todos no fundo do mar e eu danço em frente deles» (A menina do mar); na floresta «Oriana foi pela floresta fora, correndo, dançando e voando, até chegar ao pé do rio» (A fada Oriana); nos jardins «As danças das flores eram extraordinárias, leves e lentas» (O rapaz de bronze); nos prados «Oriana ia para os prados dançar com as outras fadas» (A fada Oriana); no ar «Oriana começou a dançar no ar» (A fada Oriana) ou na cidade «a cidade encheu-se de cantos e danças (…) nas praças dançava-se o vira» (A floresta).

Nos livros de Sophia, as palavras dançam pelas histórias e pelas páginas num pas de deux permanente com a sua autora, a bailarina da terra e do mar.

«E, radiante com a sua ideia, Oriana faz um passo de dança» (A fada Oriana).

 

Referências bibliográficas:

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, A árvore, ilustrações de Teresa Olazabal Cabral, Figueirinhas, Porto, 2010
_______________, A menina do mar, ilustrações de Pedro Avelar, Figueirinhas, Porto, 2011
_______________, A fada Oriana, ilustrações de Natividade Corrêa, Figueirinhas, Porto, 2010
_______________, A floresta, ilustrações de teresa Olazabal Cabral, Figueirinhas, Porto,2010
_______________,O cavaleiro da Dinamarca, grafismo de Armando Alves, Figueirinhas, Porto, 1999
_______________, O rapaz de bronze, ilustrações de Fedra Santos, Figueirinhas, Porto, 2010
_______________, Os três reis do oriente, ilustrações de Fedra Santos, Figueirinhas, Porto, 2010
PASSOS, Maria Armanda, “Sophia de Mello Breyner Andresen: “escrevemos poesia para não nos afogarmos no cais” in Jornal de Letras nº26,16 de Fevereiro de 1982, pp.2,3,4,5
SOUSA, Carlos Mendes de, “Sophia e a dança do ser”, in Sophia de Mello Breyner Andresen, Actas do Colóquio Internacional (organização de Maria Andresen Sousa Tavares e Centro Nacional de Cultura), Porto Editora, 2013, pp. 130-138

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