Monthly Archives: Março 2015

Levanta-se o pano e começa o teatro!

teatro

por Sofia Pereira

No passado dia 27 de março celebrou-se o Dia Mundial do Teatro.

O teatro teve origem na Antiguidade Clássica, no século V. a.C., e era representado nos festivais anuais em honra de Dionísio, deus das festas e do vinho, e em jogos públicos, para divertimento do povo. Os textos abordavam géneros específicos – a tragédia e a comédia – e, mais do que provocar o riso, serviam para distrair os populares das desgraças e criticar os costumes da sociedade. Sófocles, Ésquilo e Eurípides, na tragédia, e Aristófanes e Plauto, na comédia, foram dos autores que mais se destacaram e influenciaram, posteriormente, os dramaturgos que se lhes seguiram.

Ao longo dos tempos, o teatro afirmou-se como um importante veículo de comunicação e transmissão de ideias sociais, culturais, políticas, económicas e educativas, evoluindo em termos de representação e géneros teatrais (farsa, auto, melodrama, tragicomédia, musical, entre outros). Não é, portanto, de questionar a sua vitalidade até aos dias de hoje.

Pese embora o objetivo primordial ser despertar sentimentos e emoções nos espetadores, o teatro procura ser também um suplemento da vida, mantendo à distância o mal e a desgraça, mas pretende ainda apresentar em cena intrigas, com intuito pedagógico e moralizante, que levem à reflexão grandes questões do Homem e da sociedade: a educação, a dignidade humana, a religião, o respeito e a política.

A leitura e a representação de textos de teatro revelam-se uma importante forma de aprendizagem e de crescimento para as crianças e os jovens, uma vez que favorece a auto-estima, a criatividade e a imaginação, estimula a relação interpessoal, a criação de histórias, personagens e jogos de imitação, e desenvolve a comunicação verbal e não-verbal.

Para assinalar o Dia Mundial do Teatro, deixamos aqui a sugestão de alguns livros de teatro, para ler, para partilhar, para representar:

POLEGARZINHO

Polegarzinho, de João Paulo Seara Cardoso, ilustração de Júlio Vanzeler, Campo das Letras

«Esta peça foi escrita especialmente para o Teatro de Marionetas do Porto e representada pela primeira vez em 25 de Maio de 2002, no Balleteatro Auditório. O texto inspira-se livremente nas versões clássicas do Polegarzinho escritas por Joseph Jacobs, Perrault, Grimm e Andersen e ainda nas versões aculturadas de que Tom Thumb (Inglaterra), Tom Poucet (França) e João Polegar (Portugal) são alguns exemplos.»

HOJE TAMBÉM HÁ PALHAÇOS

Hoje Também Há Palhaços, de Maria Alberta Menéres e António Torrado, ilustração de Nikola Raspopovic, Edições Asa

«É assim que, depois de Hoje Há Palhaços, a ASA lança agora Hoje Também Há Palhaços, segundo título de uma série assinada por António Torrado e Maria Alberta Menéres que reúne em livro vários dos sketches televisivos que ambos escreveram há já vários anos para a RTP, em torno das aventuras e desventuras dos simpáticos Anacleto e Emilinho.   Com textos muito engraçados, adequados sobretudo aos 1º e 2º ciclos de escolaridade, e ilustrações bem apelativas da autoria de Nikola Raspopovic, Hoje Também Há Palhaços vem assim pôr à disposição de professores, dinamizadores de tempos livres e educadores em geral mais um conjunto de textos dramáticos que estes poderão trabalhar com as crianças, dando-lhes a possibilidade de subirem aos palcos das escolas, associações recreativas e casas de espectáculos, em actividades teatrais infantis de manifesto interesse lúdico-didáctico.»

Espanta-Pardais - capa

Espanta-Pardais, de Maria Rosa Colaço, ilustração de Albino Moura, Vega

«Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 3.º Ano de escolaridade. Leitura com apoio do professor. Espanta-Pardais é unanimemente aclamado como a maior obra infantil da literatura portuguesa do século XX. A procura que tem tido, a multiplicidade de trabalhos escolares que tem gerado, as várias representações teatrais, quer pelos alunos das escolas quer por companhias teatrais, a quantidade de referências que tem suscitado, tudo aponta nesse sentido. A odisseia poética do Espanta-Pardais apostado em ser pessoa real, Maria Primavera e o Pássaro Verde são personagens inesquecíveis, e as suas aventuras na Estrada-Larga ficaram na memória de muitas gerações de leitores.»

OS PIRATAS

Os Piratas, de Manuel António Pina, Porto Editora

«Livro Recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 6.º Ano de Escolaridade. Leitura Orientada. E se, de repente, te visses a bordo de um navio de piratas? Não fazes ideia de como foste lá parar, só sabes que tens de salvar a tua mãe, mas o Capitão toma-te por um dos seus grumetes… No meio do desespero, acordas e pensas que tudo não passou de um terrível pesadelo. Mas logo te apercebes que ainda trazes na cabeça o lenço vermelho de pirata… Terá sido sonho ou realidade?»

OS HERDEIROS DA LUA DE JOANA

Os Herdeiros da Lua de Joana, de Maria Teresa Maia Gonzalez, Pi

«Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 8.º Ano de escolaridade. Leitura orientada na Sala de Aula. Grau de dificuldade I. A partir do livro A Lua de Joana, escreveu Maria Teresa Maia Gonzalez esta peça de teatro onde vamos encontrar as suas personagens no momento do luto pela perda irreparável que sofrera. Confrontam-se entre si, transmitindo uma advertência contra o uso de drogas que é cada vez mais importante nos tempos que correm. Se gostaste de A Lua de Joana, não vais querer deixar de ler este livro. A Lua de Joana é um dos maiores sucessos de sempre na literatura juvenil portuguesa. A sua leitura por centenas de milhares de jovens, pais e professores do país impôs a escrita pela autora desta peça, possibilitando assim que muitos deles a encenem e possam, como no livro, debater e prevenir o uso das drogas.»

HISTÓRIA BREVE DA LUA

História Breve da Lua, de António Gedeão, Porto Editora

«Livro Recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 8.º Ano de Escolaridade. Leitura Orientada. Vou contar-vos uma história que espero que vos agrade. Diz essa história que outrora a superfície da Lua não era como é agora… Descobre a história (breve) da Lua, nesta divertida peça escrita em verso, com um toque sublime de imaginação.  A Coleção Educação Literária reúne obras de referência da literatura portuguesa e universal indicadas pelas Metas Curriculares de Português e pelo Plano Nacional de Leitura.»

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In Nomine Dei, de José Saramago, Editorial Caminho

«Entre o homem, com a sua razão, e os animais, com o seu instinto, quem, afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida? “Não faz sentido?” “Se os cães tivessem inventado um Deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao nome a dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo-d’Alsácia? E no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, andariam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tufado do seu canino Deus?” Estas considerações podiam ser tomadas como ofensivas, mas José Saramago trata de se defender: “Não é culpa minha nem do meu discreto ateísmo se em Münster, no século XVI, como em tantos outros tempos e lugares, católicos e protestantes andaram a trucidar-se uns aos outros em nome de Deus – ‘In Nomine Dei’ – para virem a alcançar, na eternidade, o mesmo Paraíso.” “Os acontecimentos descritos nesta peça representam, tão só, um trágico capítulo da longa e, pelos vistos, irremediável história da intolerância humana”, explica o autor. “Que o leiam assim, e assim o entendam, crentes e não crentes, e farão, talvez, um favor a si próprios. Os animais, claro está, não precisam.” (Diário de Notícias, 9 de Outubro de 1998)»

JÚLIO CÉSAR

Júlio César, de William Shakespeare, Cotovia

«Júlio César quer o poder numa Cidade que sabe estar minada pela podridão, pela intriga, pela alienação. A Tragédia de Júlio César, título com que a peça nos aparece na sua primeira edição, é a tragédia de quem assume o poder sabendo que não pode ser justo quem governa um mundo injusto, e assim se condena à morte. Por ambição, como dizem os honestos? Não importa. Quem quiser reinar num mundo injusto terá de ser tirano. E por ser tirano será abatido. E sendo abatido dará lugar a nova tirania, mais injusta do que a sua, numa Cidade que o terá abatido menos para se purificar que para esconjurar uma culpa que é incapaz de reconhecer. Mais do que a tragédia de um homem ou a tragédia do poder, A Tragédia de Júlio César é a tragédia da própria Cidade, da própria vida política de todos os seus cidadãos. Júlio César é a tragédia de Roma. E Roma é a Cidade, é a vida em comum dos homens.»

Feliz Dia Mundial do Teatro!

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«Rosa, Minha Irmã Rosa», leitura imprescindível

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por Alexandra Martins

Mea culpa. Eu, que cresci a devorar todos os livros infantojuvenis que me apareciam à frente e que li coleções inteiras, nunca tinha lido este livro – Rosa, minha irmã Rosa, de Alice Vieira. Agora, aos 28 anos, este livro veio parar-me às mãos e eu decidi dar-lhe uma vista de olhos. E fiquei encantada com o que descobri naquelas páginas. A história em si é simples, não pretende ser mais do que o retrato de vida de uma família e do seu dia a dia, visto pelos olhos de Mariana que, aos dez anos, descobre que vai ter uma irmãzinha, o que abala toda a sua estrutura familiar e o seu mundo.

A forma como Mariana nos conta a sua história, os seus pensamentos e, mais importante, os seus sentimentos em relação a esta nova realidade é de uma franqueza e de uma inocência enternecedoras. Nas páginas do livro, não encontrei as palavras da autora, mas sim as palavras daquela menina de dez anos, a sua realidade e o seu olhar sobre as verdades da vida. Um olhar atento, mas nem sempre capaz de captar as subtilezas do mundo adulto, o que leva a reflexões interessantíssimas sobre a sociedade e a sua família. Diz Mariana: «Se não formos nós a educar os nossos pais, quem é que os educa? Se não formos nós a ensinar-lhes certas coisas, quem é que os ensina?». E, na verdade, com a chegada de Rosa à vida desta família, não vai ser só Mariana a aprender coisas novas, mas também os seus pais, a sua avó Elisa, até a Tia Magda. Mas é na Mariana que vemos a maior transformação, é o seu lento despertar para a realidade do que significa ser irmã (mais velha) e do que significa amar outro ser com todas as nossas forças, que encontramos o fio condutor desta narrativa. Rosa começou por ser uma intrusa que veio roubar as atenções de todos, até roubar também as de Mariana, e esta perceber que, afinal, também ama a sua irmãzinha, mesmo que ela seja demasiado pequena para poder brincar com ela e que ainda vá demorar muito tempo para crescer.

Eu também sou irmã mais velha. Não me lembro de ter reagido da mesma forma que a Mariana à chegada da minha irmã, mas consegui criar uma grande empatia com a menina de dez anos que, de um momento para o outro, se tornou irmã. Porque o amor nem sempre é instantâneo, mas quando nos tornamos irmãos, o amor que surge, quando surge, é mesmo para sempre.

Uma leitura imprescindível para todos, sejam miúdos, ou graúdos que, como eu, não tiveram oportunidade de ler este maravilhoso livro antes.

O VIII Festival Internacional de Contadores de Histórias

A Associação Cultural Partilha Narrativa, em parceria com a Livraria GATAfunho, em Oeiras, organiza o VIII Festival Internacional de Contadores de Histórias, entre 9 e 12 de abril. É a primeira vez que este festival passa por Portugal e contará com grandes nomes da narração oral, como Martha Escudero (México),  José Manuel Garzón (Espanha) ou Ana Sofia Paiva (Portugal).  Intitulado «De bouche à oreille et de boca à boca» este festival vem proporcionar ao público português «a recordação de histórias tão nossas, ao mesmo tempo que se descobrem contos de outras culturas», como nos contam os organizadores.

Todas as informações sobre o evento encontram-se aqui.

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Livraria infantil de Benavente vai encerrar…

A livraria Fadas, Bruxas e Dragões é uma das poucas, em Portugal, dedicadas exclusivamente a livros para crianças. Há uns meses fizemos uma pequena entrevista aos donos, para conhecer o seu valioso trabalho, e que pode ser lida aqui. A livraria atravessou a crise e resistiu com força e coragem e espírito de iniciativa, mas há poucos dias verificámos, com muita tristeza, que a livraria vai encerrar por «força dos números», como explicam os donos num post no facebook.  É uma pena, e a revista Fábulas deixa um abraço solidário a Mafalda Ganhão e a Pedro Peralta e o desejo de que um dia possam abrir um novo projeto, com uma nova energia, e assim continuar o excelente trabalho de divulgação e promoção da leitura entre as crianças. A página da livraria fica aqui. Não deixem de a visitar!

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A força da poesia

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por Sofia Pereira

«Todas as coisas têm o seu mistério, e a poesia é o mistério de todas as coisas.»
Federico Lorca

«A poesia é a arte de comunicar a emoção humana pelo verbo musical.»
René Waltz

Hoje, a 21 de março, assinala-se o Dia Mundial da Poesia.

A poesia é um género literário muito rico, que nos transporta para um mundo diferente, onde podemos sonhar, refletir e viver. Quando falamos de poemas, é inevitável lembrarmo-nos de todo um conjunto de palavras cheias de significado, de sentido, de ritmo e de musicalidade. São todas essas características, aliadas à criatividade e a uma forte dimensão estética, que tornam a poesia, de uma forma geral, fascinante para a maioria dos leitores.

Ler poesia é tentar mergulhar na verdadeira mensagem do texto poético – só conhecida pelo poeta –, mas a pluralidade de significações atribuídas pelos leitores constrói um puzzle que enriquece o poema. Mas, mais do que tentar captar o sentido e a expressão das palavras, a leitura de poesia pode contribuir para o desenvolvimento pessoal, intelectual, emocional e social dos leitores.

Conhecer o que grandes poetas deixaram escrito e que perdura no tempo, compreender melhor o mundo que nos rodeia e, dessa forma, poder participar nele, conhecer outras formas de ver e sentir o mundo, saber mais sobre poesia, refletir e adotar uma atitude crítica face à realidade que nos rodeia, e inspirar-nos para escrever, são benefícios que todos os leitores podem descobrir nesta viagem pela arte poética.

A poesia é, muitas vezes, o espelho da alma do seu autor, mas também do ser humano que se dedica ao prazer da sua leitura. A poesia é uma recriação do mundo: descreve a realidade de um modo misterioso, transformando-se num bálsamo e os momentos menos positivos, as injustiças, as violências e os sentimentos negativos enchem-se de cor e vivacidade. São palavras silenciosas que têm um poder terapêutico para quem as lê.

Neste Dia Mundial da Poesia, deixamos aqui a sugestão de alguns livros, para partilhar, para oferecer:

O MEU PRIMEIRO ÁLBUM DE POESIA

O Meu Primeiro Álbum de Poesia, de Alice Vieira, ilustrações de Danuta Wojciechowska, Dom Quixote

«O Meu Primeiro Álbum de Poesia tem a capacidade rara de tornar acessíveis, a leitores de todas as idades, poemas de grandes autores portugueses do século XVI aos nossos dias, conseguindo proporcionar-lhes um prazer genuíno e duradouro. Nesta antologia encontra-se poesia criteriosamente seleccionada por Alice Vieira de autores como Luís Vaz de Camões, Fernando Pessoa, Miguel Torga, António Gedeão, Eugénio de Andrade, Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário-Henrique Leiria, Ruy Belo, Luísa Ducla Soares, Matilde Rosa Araújo, Vasco Graça Moura, entre outros. Cada leitor será livre de decidir aquele que prefere, aquele de que menos gosta, aquele que mais o encantou (mesmo que não tenha percebido as palavras todas), aquele que lhe pareceu mais estranho, aquele que aprendeu logo de cor. As autoras Alice Vieira e Danuta Wojciechowska coleccionaram os poemas e conceberam as imagens deste álbum, que somos convidados a apreciar página a página e, no final, a completar. Trata-se de uma obra para leitura individual ou em grupo. Com ela se pode começar a amar a língua, a literatura e os livros numa aventura através da linguagem poética que envolve compreensão, imaginação e coração.»

ANOS 70 POEMAS DISPERSOS

Anos 70: Poemas Dispersos, de Alexandre O’Neill, Assírio & Alvim

«Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 8.º ano de escolaridade. Leitura orientada na Sala de Aula – Grau de dificuldade II. Os textos de Alexandre O’Neill que compõem este volume nunca foram por ele incluídos em livros seus. À excepção de dois, recuperados de uma antologia, e de três encontrados no espólio, o autor publicou-os em jornais e revistas durante a década de 70. O conjunto aqui editado resultou da pesquisa feita no âmbito da biografia do poeta (Alexandre O’Neill: Uma Biografia Literária, de Maria Antónia Oliveira, Dom Quixote). Pôde constatar-se que, embora o poeta viesse publicando regularmente desde os finais da década anterior, os anos 70 eram aqueles em que a sua produção se tornava mais assídua, e em que mais textos haveriam de ficar confinados às páginas dos periódicos. Reúnem-se também poemas escritos para os jornais Diário de Lisboa e A Luta, e para as revistas Flama e Ele. Foram encontrados no espólio do poeta os poemas “Magritte” e “Azul Ar”, bem como os poemas sem título designados por Fragmentos, inéditos. Acrescentam-se ainda dois poemas datados de 1972 que E.M. de Melo e Castro e José-Alberto Marques incluíram na Antologia da Poesia Concreta em Portugal (Lisboa, Assírio & Alvim, 1973). Em anexo, publicam-se dois textos com poemas, e uma versão em prosa da primeira parte de “Rã & Descobridor.”»

SONETOS

Sonetos, de Florbela Espanca, Porto Editora

«Escritos nas primeiras décadas do século XX, os sonetos de Florbela são a expressão poética da paixão sensual e da confissão feminina. Simultaneamente pujante e frágil, a poetisa revela, por vezes de forma egocêntrica e narcisista, uma feminilidade intranquila e insatisfeita, imersa na Dor e no Amor. Influenciada por poetas como António Nobre ou Antero de Quental, Florbela revelou-se pouco permeável aos grupos e movimentos literários da época e construiu uma estética própria, pautada por um discurso poético veemente, descomplexado e livre de constrições sociais.»

E, como este dia marca também o início da primavera, convidamos a desfrutar do poema «Quando vier a primavera», de Alberto Caeiro, declamado pelo ator Pedro Lamares.

Feliz Dia Mundial da Poesia!

Os livros infantis e a evolução dos tempos

por Cristina Dionísio

Helen Day, uma entusiasta de uma coleção de livros de clássicos da Ladybird, tem estado a colocar no Twitter imagens comparativas das ilustrações desses livros, publicados nos anos 1960. Os posts têm feito tal sucesso que a sua conta já tem mais de cinco mil seguidores.

As imagens demonstram as atualizações progressivas que essas ilustrações têm recebido em reedições mais recentes, e em que se notam muitas diferenças, como por exemplo a inclusão de personagens de raças diversas, onde antes só havia personagens de raça branca, ou na roupa das meninas, que passam a usar calças de ganga em vez de saias, ou até mesmo ao nível de segurança, em que foi pintado um colete salva-vidas num rapaz navegando num barco de borracha.

Segundo a editora, estas alterações foram feitas para refletir a evolução dos tempos e permitir que os livros continuassem a ser lidos pelas crianças modernas, sem as alienar. O estereótipo da menina que brinca com bonecas e do rapaz que brinca com carros é quebrado, bem como o do pai que se mantém à distância enquanto os filhos brincam, ou da mãe que os observa da janela enquanto cozinha. As novas ilustrações demonstram que o pai está mais envolvido na educação dos seus rebentos. São mais fiéis também no retrato das brincadeiras das crianças, que degeneram frequentemente em confusão.

Aqui ficam alguns exemplos, mas em @LBFlyawayhome poderão ver muitos mais.

Poderá também ler dois artigos muito interessantes sobre este tema aqui e aqui.

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(c) Ladybird Books Ltd.

 

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(c) Ladybird Books Ltd.

 

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(c) Ladybird Books Ltd.

 

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(c) Ladybird Books Ltd.

«E se as histórias infantis passassem a ser de leitura obrigatória para adultos?»

por Sofia Pereira

«As histórias para crianças devem ser escritas com palavras muito simples, porque as crianças, sendo pequenas, sabem poucas palavras e não gostam de usá-las complicadas. Quem me dera saber escrever essas histórias, mas nunca fui capaz de aprender, e tenho pena. Além de ser preciso escolher as palavras, faz falta um certo jeito de contar, uma maneira muito certa e muito explicada, uma paciência muito grande – e a mim falta-me pelo menos a paciência, do que peço desculpa.»
José Saramago

A MAIOR FLOR DO MUNDO

A maior flor do mundo é o único livro infantil que o Nobel nos deixou como legado. Uma história magnífica dirigida às crianças, em que se nota um jeito especial do escritor para captar a atenção dos leitores, através de um jogo simbólico de ilustrações que auxiliam na construção do sentido da narrativa, criando uma dinâmica viva na maravilhosa viagem que as crianças fazem como leitoras e personagens, como Saramago assim convida.

O autor conta-nos a história de um menino que faz nascer a maior flor do mundo. O espaço em que decorre a ação (uma aldeia), a idade do protagonista (a infância) e as suas aventuras remetem-nos para um universo pueril vivido em plena alegria, liberdade, despreocupação e em comunhão com a Natureza. O sacrifício do menino para fazer nascer a maior flor, afastando-se do conhecido e deixando os «outros» preocupados com a sua ausência, revela a astúcia e o altruísmo do herói, transformando o seu ato numa «obra-milagre».

Todas estas peripécias convidam-nos a refletir sobre a importância de todas as crianças terem uma infância alegre e despreocupada, e como é fundamental promover valores como o sentido de altruísmo, o respeito pelos outros e pela Natureza, e o valor da amizade.

Um livro de excelência recomendável para crianças e adultos!

Título: A Maior Flor do Mundo
Autor: José Saramago
Editora: Porto Editora

Sara, uma escritora rara

por Ana Ramalhete

Sara Monteiro é uma escritora com vários livros publicados na área da literatura para a infância e juventude.

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Na sua obra, as personagens têm características que as tornam únicas e inesquecíveis. Seja uma princesa peluda que quer governar o reino de seu pai (A princesa que queria ser rei), um príncipe excessivamente tímido que usa uma máscara (O príncipe perfeito), uma mãe que convive com seres estranhos (Cartas de uma mãe à sua filha) ou uma lebre preocupada com o equilíbrio ecológico (A lebre e o raminho de salsa), nenhuma nos deixa indiferente. Pelo contrário, ficamos sempre com vontade de as reencontrar e ansiamos por descobrir quem serão e como serão as próximas.

Sara respondeu a dez perguntas, uma sobre cada livro editado. As suas respostas fazem-nos sorrir, refletir e conferir que a Sara é mesmo uma escritora rara!

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Como surgiu a ideia deste título?
Estas meninas que se perdem dentro de um prédio são uma espécie de D. Quixote: veem o que não está lá, o que imaginam. Como o Cavaleiro da Triste Figura que via gigantes onde havia moinhos, elas veem florestas, praias e jardins em cada casa onde entram.

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Uma atitude diferente pode ser transformadora do eu e do outro?
Penso que sim. Uma atitude e uma postura diferentes levam a ações inesperadas e inabituais que por sua vez se repercutem até ao infinito. Por causa da postura de alguém, outros podem mudar, e mudando, algo de novo acontece. Neste caso, pelo menos foi assim que o desejei e criei: o príncipe, um ser especial, precursor de uma sociedade nova.

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As princesas já se emanciparam?
Mais ou menos. Estão mais em vias de se emanciparem. Cada dia um passo em frente, mas ainda faltam muitos passos, apesar do já longo caminho percorrido. E algumas princesas, como se sabe, ainda vivem encarceradas.

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A infância mora numa casa em cima de uma árvore?
Ah, claro! Mora perto do céu, por entre folhas e ramos, no meio dos pássaros e dos frutos. A infância mora ao pé do impossível e do sonho. Cria mundos, está sempre uns metros acima do chão para poder ver mais longe, mas também para se recolher e inventar com mais liberdade, sem os constrangimentos do dia-a-dia e sem a supervisão dos adultos. Hoje, mais do que nunca, as crianças precisam de uma casa na árvore, para se protegerem do olhar omnipresente dos adultos.

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As cartas ajudam a encurtar a distância e a suportar a separação?
As cartas de antigamente ajudavam a suportar a separação e as grandes distâncias. Hoje, as cartas foram substituídas por mails, sms, conversas via internet, telefonemas, mesmo para quem não está assim tão distante como isso. Mas é parecido: quando falta a presença física, pomos palavras que funcionam como pontes: daqui até lá, de nós até ao outro; e de lá para cá e do outro para nós.

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A vida no campo influencia a escrita?
Imenso. Quando fui morar para o campo, descobri os animais, foi uma festa! E embora na cidade haja convívio com vários deles, são de uma espécie diferente, domésticos. No campo, apesar de haver também os animais domésticos e os semidomésticos, há os outros que cruzam o mesmo espaço, mas que são livres, não pertencem a ninguém a não ser a eles mesmos e à natureza. Gostei muito de conhecer estes, encontrá-los nos meus passeios e fazê-los entrar nas histórias do bosque.

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As crianças precisam de super-heróis?
As crianças gostariam de ser elas mesmas super-heróis, ter poderes, transformar o mundo, a vida à sua volta, salvar quem precisa. Como são pequenas e fracas, mas ao mesmo tempo têm um apurado sentido de justiça, admiram quem consegue com os seus imensos poderes fazer tudo o que ela desejaria fazer mas não é capaz.

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Os animais podem ser felizes dentro de gaiolas?
Hum, pergunta difícil. Quem sabe o que os animais (coelhos, pássaros  ou outros) pensam? Lembro-me de um conto de Machado de Assis Ideias do Canário em que a ideia que o canário fazia do mundo ia mudando consoante o que ele via do sítio onde a sua gaiola ia sendo colocada (sempre mundos pequenos) até que finalmente, já fora da gaiola, define  o mundo como um espaço infinito e azul, com o sol por cima, já completamente esquecido dos mundos de antes. Ele ia sendo feliz em todos. Talvez seja assim com toda a gente e não só com os animais.

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O que há por detrás da linha da horizonte?
Um urso que quer aprender a ler? Monstros e perigos? A liberdade, a aventura? O desejo de conhecer? Amigos novos? Mistérios para descobrir e resolver? Nunca o saberemos a menos que nos aventuremos também.

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Júlia e a lebre são parentes de Alice e da Lebre de Março?
São primas, mas vamos lá definir melhor o parentesco. A lebre é prima-irmã da lebre de Março, se não mesmo a própria lebre de Março, e Júlia uma prima afastada de Alice, e prima-irmã de Delfina e Marina, duas irmãs que vivem numa outra quinta, personagens criadas pelo escritor francês Marcel Aymé.

Sara Monteiro nasceu em Lisboa, onde vive atualmente. Tem formação na área de Educação pela Arte e toda a sua atividade tem sido relacionada com a escrita. O primeiro livro publicado foi uma história para a infância intitulada As Meninas de la Mancha. Outros se seguiram, tendo o último sido publicado na Caminho: A Lebre e o Raminho de Salsa. ateliers de leitura e escrita criativa em escolas, estabelecimentos prisionais e bibliotecas. Foi coordenadora editorial na Fundação Odemira e subdiretora da revista Arte Musical. É cofundadora do grupo de teatro 3 em Pipa, para a qual escreveu textos, tendo sido levadas à cena, da sua autoria, as peças O Fantasminha e a Baleia e Um Coração Perfeito. Para além dos livros publicados, tem colaboração dispersa em revistas e antologias. Desde 2013 dedica-se também à joalharia.

Livros que ajudam a explicar a morte às crianças

Do livro «Duck, death and the tulip», de Wolf Erlbruch.
Do livro «Duck, death and the tulip», de Wolf Erlbruch.
por Sofia Pereira

Falar da morte aos mais novos não é fácil, mas isso não deverá ser motivo para os excluir das explicações, do choro e da tristeza.

Se até aos três anos a criança não consegue entender que a morte é definitiva e irreversível, certo é que, a partir dos seis, sete anos, já começa a compreender o seu significado e a sentir o quão doloroso e angustiante é perder para sempre alguém que lhe é querido (família e/ou animal de estimação).

Os adultos sabem que o confronto da criança com a morte é inevitável. Por essa mesma razão, deverão prepará-la para essa perda com verdade e honestidade, procurando abordar o assunto com respostas claras e acessíveis às suas curiosidades e dúvidas. Quando uma criança é protegida desse impacto emocional e nenhum familiar clarifica esse assunto, será natural crescer num mundo de ilusão e terá, mais tarde, dificuldades em lidar com a perda e o luto.

Os livros podem ajudar a explicar a morte às crianças. A leitura de histórias que abordem o tema pode, sem dúvida, constituir uma oportunidade para criar condições para que, num ambiente familiar, tranquilo e lúdico, crianças e adultos possam falar sobre a morte. Cria-se, assim, um espaço seguro e de partilha de afeto, em que as crianças expressam as suas dúvidas, anseios e preocupações. Os pais explicam, de forma simples e delicada, que a morte é um processo natural da vida (seres humanos, animais, plantas…), ajudando a criança no seu crescimento psicológico, nomeadamente no seu processo de perda e luto, através da clareza de ideias e do incentivo à expressão de sentimentos.

Deixamos aqui a sugestão de alguns livros que podem ajudar a explicar, num momento familiar e lúdico, a morte às crianças:

Um gato tem sete vidas

Um gato tem 7 vidas, de Luísa Ducla Soares, ilustrações de Francisco Cunha, Civilização Editora

«Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 2.º ano de escolaridade. É de um modo extremamente hábil e cheio de ternura que a autora aborda, neste livro, a questão da morte. Através da história de um gato que, à medida que cresce, vai gastando as suas sete vidas, fala-se da vida e da morte. Uma história doce, com espectaculares ilustrações de Francisco Cunha.»

Para Onde Vamos Quando Desaparecemos

Para Onde Vamos Quando Desaparecemos?, de Isabel Minhós Martins, ilustrações de Madalena Matoso, Planeta Tangerina

«Livro Recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 4.º Ano de escolaridade. Leitura Orientada na Sala de Aula. À parte algumas exceções, ninguém consegue responder com certeza absoluta à pergunta que dá título a este livro. “Para Onde Vamos Quando Desaparecemos?” aproveita a ausência de respostas “preto no branco” para lançar novas hipóteses – mais coloridas e poéticas, mais sérias ou disparatadas, conforme o caso… – e assim iluminar um tema inevitavelmente sombrio.»

Menina Nina

Menina Nina – Duas razões para não chorar, de Ziraldo, Melhoramentos

«Com uma enternecedora força poética, o autor sonda os mistérios da vida e da morte e, numa linguagem cuidada simples, consegue falar de dor de um modo delicado e cheio de esperança, é talvez o livro mais comovente de quantos Ziraldo já escreveu para crianças.»

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O Meu Avô Foi Para o Céu, de Maria Teresa Maia Gonzalez, Editorial Presença

«Da conceituada escritora Maria Teresa Maia Gonzalez, autora de “A Lua de Joana”, chega-nos uma comovente história sobre a relação avós-netos, que ajuda os pequenos leitores a perceber como se consegue, no meio da tristeza e da dor, preservar a memória de um ente querido para sempre.»

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Ponte para Terabithia, de Katherine Paterson, Dom Quixote

Livro recomendado pelo Plano Nacional de Leitura para o 5.º ano de escolaridade, destinado a leitura autónoma. «Esta é a história de uma amizade que muda as vidas da Leslie e do Jess, dois estudantes do quinto ano que acreditam que no coração do bosque existe num mundo de aventuras chamado “Terabithia”.»

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Sete Minutos Depois da Meia-Noite, de Patrick Ness, Editorial Presença

«Passava pouco da meia-noite quando o monstro apareceu. Inspirado numa ideia original da escritora Siobhan Dowd, que morreu de cancro em 2007, Patrick Ness criou uma história de uma beleza tocante, que aborda verdades dolorosas com elegância e profundidade, sem nunca perder de vista a esperança no futuro. Fala-nos dos sentimentos de perda, medo e solidão e também da coragem e da compaixão necessárias para os ultrapassar. Fantasia e realidade misturam-se num livro de exceção, com ilustrações soberbas que complementam e expandem a beleza do texto.»

A intervenção pela arte, sobretudo pela leitura, torna-se um instrumento da psicologia, que ajuda a explicar a morte às crianças, falando-lhes da dor da perda de alguém que é querido e próximo, da saudade, das recordações e do luto.