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Desassossegos, curiosidades e inquietações na literatura: entrevista ao escritor Paulo Kellerman

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(c) Ricardo Graça

por Sofia Pereira

Paulo Kellerman nasceu em Leiria, em 1974. Editou, em edições artesanais e limitadas de autor, Livro de Estórias (1999), Dicionário (2000), Sete (2000), Uma Pequena Nuvem Solitária perdida no Imenso Azul do Céu (2001), Fascículo (2002 a 2005, 75 edições), Da Vida e da Morte (2005). Foi um dos responsáveis pela conceção e edição da revista literária Cadernos do Alinhavar e é autor do blogue A Gaveta do Paulo. Participa na organização de diferentes eventos e iniciativas culturais.

A Fábulas entrevistou o escritor. Paulo Kellerman fala-nos do seu percurso e gostos literários, do universo dos seus livros e da importância da literatura na vida de todos nós.

Como surgiu o gosto pela escrita?
Na escola, quando percebi o alcance da palavra escrita. Os professores liam textos meus à turma e havia sempre grandes reações, geralmente de riso porque eram textos com algo de humorístico. E eu, num canto, assistia ao poder que essas palavras tinham, as reações que causavam. Não era eu que desencadeava as reações, eram as minhas palavras. Essa descoberta foi determinante.

Lembra-se do primeiro livro que leu na infância?
Não lembro. As recordações mais fortes e antigas referem-se aos Cinco, mas certamente que terei lido muitos livros antes; contudo, não tenho memória dessas leituras.

Qual a importância de A Gaveta do Paulo?
O blogue foi criado em sequência da publicação do livro Gastar Palavras, em 2005. Alguns dos contos que tinha pré-selecionado para esse livro acabaram por ficar de fora e criei o blogue para os divulgar. A partir daí, a Gaveta ganhou uma enorme importância; os livros que fui publicando foram sendo alinhavados e pré-publicados no blogue, conto a conto, permitindo-me um contacto imediato com os leitores, uma interatividade muito estimulante e enriquecedora. Foi tornando-se um sítio de experimentação e partilha, de crescimento, de liberdade. Mais tarde, com a explosão das redes sociais, os blogues tornaram-se menos apetecíveis para muita gente, mas a Gaveta continua a ser um local especial para mim.

Miniaturas, como o título sugere, é um livro de pequenas histórias, num total de cinquenta e seis, recheadas de humor. Considera que o humor pode ser uma forma de nos aliviar das vicissitudes da vida?
O humor pode ser uma distração poderosa. Mas também pode ser uma forma muito incisiva de nos fazer pensar, de nos confrontar, de nos agitar.

A morte, a solidão ou o confronto interior são alguns dos temas presentes no livro Gastar Palavras. É seu objetivo levar os leitores a identificarem-se e a refletirem sobre as emoções e os pensamentos inerentes a todo o ser humano?
O objetivo é confrontar o leitor consigo próprio e desassossegá-lo. Já percebi que muitos leitores procuram na literatura uma possibilidade de fuga ou de sonho, ou até respostas para as suas inquietações. Mas os escritores que julgam ter respostas ou soluções assustam-me um bocado. Prefiro causar alguma inquietação, algum desconforto; porque é o desconforto que nos impele a avançar, arriscar, tentar. Quando estamos confortáveis, tendemos a ficar quietinhos.

Os Mundos Separados Que Partilhamos narra, num tom intimista, situações e momentos contaminados por solidões, cumplicidades, melancolias e obsessões. Podemos ver nele um retrato da sociedade dos dias de hoje?
Para quem escreve, a observação é fundamental. E um texto inclui, consciente ou inconscientemente, muito do que é observado. Um texto será uma mistura de observação, reflexão, imaginação e vivência; nesse sentido, será sempre um retrato da contemporaneidade do autor. Mesmo que se escreva ficção científica ou romance histórico.

Mente-me e seremos mais felizes é o título de um dos seus e-books. Nele, podemos encontrar a estória «Toda a gente sabe que o facebook é uma treta». Considera que as redes sociais podem ser prejudiciais para os relacionamentos?
As redes sociais têm potencialidades extraordinárias mas também assustadoras. Por esta altura, é impossível pensar em redes sociais e não lembrar o que o Trump faz neste âmbito, a forma como manipula a realidade usando o Twitter.

Silêncios entre Nós é um livro que, à semelhança dos anteriores, aborda as relações humanas no mundo contemporâneo. O silêncio pode ser audível?
O silêncio pode ser tão ruidoso que é capaz de nos ensurdecer. Devia haver nas escolas, juntamente com o português, a matemática e a educação física, uma disciplina que ensinasse como lidar com o silêncio, como aprender a geri-lo e até a saboreá-lo.

Chega de Fado é um ato revolucionário?
Neste país de consensos meio podres e quase sempre aparentes, dizer que não se gosta de fado é quase um ato de rebeldia. E, por acaso, não gosto mesmo nada de fado. Mas o fado a que se refere o título não é o género musical, é antes aquele espírito de ladainha e lamentação, de conformismo, de lamuria e queixa, que caracteriza tantos discursos e posturas. E nesse sentido, sim: chega de fado.

O Céu das Mães é o seu primeiro livro infantojuvenil, com ilustrações de Rute Reimão. Trata um tema difícil e pouco abordado na literatura para crianças: a perda. Conta a história de um menino que perdeu a mãe e que é confrontado com uma afirmação muitas vezes escutada: «a tua mãe está no céu». Considera que os livros podem ajudar a explicar a morte às crianças?
Mais do que explicar, talvez os livros possam ajudar a lidar com emoções. E não gosto muito da literatura que tenta dar respostas ou explicações, da literatura com lições ou moralismos. Parece-me bem mais enriquecedor quando suscita questões, desassossegos, curiosidades, inquietações. Quando tira o sono, em vez de adormecer.

Com o livro Serviços Mínimos de Felicidade deu o salto da escrita de contos para o romance. Somos comodamente felizes ou ambicionamos uma felicidade esplêndida e impossível de alcançar?
O desejo de uma felicidade esplêndida pode ter muitas formas e materializações, pode ser simplesmente aquilo a que chamamos sonhos; e se deixamos de sonhar, passamos a viver em função do que somos ou temos, não mudamos; não crescemos. Vivemos em serviços mínimos. Essa é uma das ideias presentes no livro: como reagir quando percebemos que deixámos de sonhar?

Muito recentemente, publicou mais um livro dirigido ao público mais novo: A tristeza dá fome, com ilustrações de Lisa Teles. Fale-nos um pouco desta história.
No final dos anos 90, tinha uma espécie de editora caseira, através da qual editava os meus próprios livros; eram edições artesanais, em que eu construía cada um dos exemplares dos livros; depois, oferecia-os. Fiz, deste modo, milhares de livrinhos. A Lisa é a responsável pela Escaravelho, uma editora que também tem uma componente muito importante de trabalho manual na conceção dos seus livros. E isso fascinou-me. Além disso, é uma ilustradora fantástica. Portanto, foi uma enorme honra colaborar com ela neste projeto, foi das aventuras mais fantásticas em que participei. Quanto à estória, nasceu da sugestão de uma aluna, numa visita a uma escola.

Foi autor e concebeu algumas exposições literárias como Foto estórias (2000), As Palavras do Olhar (2002), Pedaços de Literatura (2005) e Insignificâncias (2006). Quer partilhar connosco como foram essas experiências?
Todos esses projetos estiveram relacionados com a exploração do potencial entre texto e imagem, tendo criado contos originais a partir de fotos ou pinturas de diversas pessoas. A relação texto / imagem é algo que continua ainda hoje a apaixonar-me, assim como a possibilidade de colaboração e criação conjunta com autores das mais diversas áreas. A aventura mais recente neste domínio é um blogue chamado Fotografar Palavras, criado há alguns meses. Mas desses projetos de início do século, o que melhor recordo foi uma exposição que criei (e que depois deu origem a um e-book) chamada Sincronismos (2002); marcou-me particularmente porque foi o único trabalho onde, além do conceito e do texto, também concebi as imagens.

sincronismoExposição Sincronismo

Quando lemos os seus livros, percebemos que a escrita é sempre muito fluida e de leitura fácil, mas não deixa de ser inquietante. Tem a ver com as temáticas abordadas ou é um estilo próprio?
Tem a ver com um estilo próprio, com opções técnicas. Sempre fiz experiências do ponto de vista técnico, sempre me testei e me desafiei, sempre refleti sobre a dimensão mais técnica da minha escrita. Existe uma dimensão instintiva e incontrolável na escrita, mas também é fundamental o trabalho puramente técnico de depuração, de análise e corte, de adequação; e este trabalho está em evolução constante, é sempre melhorável.

Ao longo da sua carreira, já foi distinguido com alguns prémios literários. Como encara todo esse reconhecimento?
Encaro como um incentivo, sinto-me agradecido e responsabilizado. Depois, esqueço e continuo a fazer o que tenho a fazer.

É notória a relação de proximidade que mantém com os seus leitores. Como o faz? Provoca isso mesmo ou é a própria ambiência da escrita que a suscita?
Talvez tenha a ver com o facto de encarar a literatura como algo natural e não uma espécie de dádiva divina apenas ao alcance de meia dúzia de privilegiados, como por vezes acontece com alguns escritores. Gosto quando escritor e leitor estão ao mesmo nível, e ambos podem partilhar algo. É possível que a relação de proximidade nasça daí.

Conte-nos uma situação vivida num encontro com os seus leitores e tenha sido particularmente especial.
As idas a escolas são sempre momentos intensos. Houve, por exemplo, situações tremendas em idas a escolas de 1º ciclo para falar sobre o primeiro livro infantil, que conta a estória de um menino que não tem mãe, e onde convivi com meninos que não têm mãe. Uma das experiências mais tremendas que tive foi numa ida a uma prisão, onde estive duas ou três horas com presos que não me conheciam de lado nenhum, nem tinham tido qualquer contacto com o meu trabalho. Mas nos encontros mais convencionais com leitores também acontece todo o tipo de coisa, desde pedidos concretos de conselhos a ameaças de ser processado por ter uma escrita indecente e perturbadora.

Como tem sido a receção dos leitores à sua escrita?
Importante é existir reação, o que custa é a indiferença. As reações vão sendo boas ou más mas geralmente fortes, e isso é que importa. Se fosse como naqueles inquéritos que fazem aos serviços de comunicações, preferia ser avaliado com 1 ou 10, e não 5.

Onde e quando é que gosta mais de escrever?
Não tenho rituais de escrita nem grandes exigências. Preciso apenas de ter um desejo genuíno de escrever, um desejo que por vezes é uma necessidade. E mesmo que as mãos não estejam a teclar ou a rabiscar, a mente está muitas vezes a escrever. Durante a condução, por exemplo.

Qual foi o último livro que leu?
O meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout.

Se fosse uma personagem literária, qual seria? E porquê?
Tom Sawyer. Foi uma personagem que marcou muito a minha infância, através da série que passava na televisão nos anos oitenta. Na altura não fazia ideia que tinha origem num livro. Nunca quis ser bombeiro ou piloto ou super-herói. Queria ser o Tom Sawyer.

Os livros podem ser amores de perdição, ora porque nos cativam e relemos vezes sem conta, ora porque nos desapontam e nunca mais os voltamos a ler. Fale-nos de um livro que o tenha marcado e daquele que, de alguma forma, o desiludiu.
Os livros não desiludem, eu é que me desiludo porque tenho entusiasmos e expectativas irrealistas. Acontece com frequência. A última vez foi com o último livro que li: O meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout. Quanto a livros marcantes, prefiro aqueles que deixam marcas subtis, por vezes inconscientes, ou apenas percetíveis com o tempo. O Albert Cossery dizia: «Se um determinado livro não tiver sobre o leitor um tal impacto que no dia seguinte ele deixe de ir ao emprego, esse livro nada vale.» Não concordo muito com isto, se uma pessoa precisa de um livro para mudar de vida, algo me parece errado. Acredito mais que dezenas de livros ao longo de anos possam fazer alguém mudar a perspetiva, mudar o foco; na verdade, a literatura serve para isso mesmo, é essa uma das suas riquezas: proporcionar novos focos, novos ângulos.

Qual o/a escritor/a que convidaria para jantar? Porquê?
Elena Ferrante. Porque gosto bastante dos seus livros e porque a própria autora em si é uma espécie de personagem literária. Seria muito interessante tentar perceber onde começa a realidade e termina a ficção.

Que conselhos daria a um jovem que quisesse gastar as palavras na publicação de um livro?
Surpreende-me quando encontro pessoas que desejam escrever mas não leem. É fundamental, é o primeiro passo: ler. Descobrir, perceber, saborear, aprender através do que se lê. A leitura é o oxigénio de quem escreve, ou pelo menos um dos oxigénios. Também importa ser curioso, fazer questões e ter inquietações, imaginar, ter vontade de observar o mundo com um olhar diferente do que se usa habitualmente. Não ter medo de arriscar.

Podemos esperar a publicação de novos livros para breve?
Publiquei dois livros no espaço de três meses. Agora, é tempo de acalmar um pouco.

Afonso Cruz, o escritor que pergunta, compreende e sente

afonso-cruz_copyright_paulo-sousa-coelho(c) Paulo Sousa Coelho

Escritor, ilustrador, cineasta, ilustrador e ainda músico na banda The Soaked Lamb, Afonso Cruz é um dos mais interessantes autores portugueses da atualidade. Nasceu em julho de 1971, na Figueira da Foz e frequentou a Escola António Arroio, a Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira. Apaixonado por viagens, publicou o seu primeiro romance em 2008 e, desde então, a escrita tem sido o combustível da sua vida, com livros muito inspiradores. Ao longo da sua carreira, foi já distinguido com diversos prémios e galardões literários e viu a sua obra chegar além-fronteiras, a países como Brasil, Bulgária, Canadá, Colômbia, Croácia, Eslováquia, Espanha, França, Hungria, Itália, Macedónia, Polónia, Sérvia, República Checa e Turquia.

A Fábulas entrevistou o escritor. Afonso Cruz, muito atento à realidade que o rodeia, fala-nos do seu percurso como autor de livros para todos os leitores – crianças,  jovens e adultos – e da sua paixão pelo mundo das artes.

Considera que tem sido dado espaço suficiente à literatura em Portugal?
Creio que os escritores esperam sempre mais. O suficiente é uma palavra terrível, que implica a sensação de que nos acomodamos ao mundo tal como ele nos é dado. Há sempre muito mais a fazer, muitas milhas a percorrer.

Sabemos que todos os escritores têm autores de referência. Quais são os seus?
Vários, evidentemente. Sem ser fastidioso e exibir uma lista, refiro três: Saint-Exupéry, Kazantzakis e Dostoievsky.

É escritor, ilustrador, músico e cineasta. Em que mundo vive melhor?
Depende das alturas, mas passo mais tempo a escrever. Todas essas áreas me preenchem de maneira diferente, e não abdicaria de nenhuma, mas a escrita faz-me viver de um modo mais completo, uma vez que passo mais tempo com ela.

Quando lemos os seus livros, ficámos com a ideia de que é um leitor nato e compulsivo. Lê desde muito cedo? E como começou a ter acesso aos livros?
Leio muito, sim, e não escreveria se não lesse. Não sei ao certo quando comecei a ler nem quando me tornei leitor, mas os livros que li na adolescência marcaram-me muito, em especial os livros que eram do meu pai. Ao pegar em livros que não eram dirigidos especificamente para crianças, entrei noutro mundo. Costumo dizer que a a grande viragem da minha adolescência não aconteceu por causa das hormonas, mas da literatura.

Qual foi o livro que mais o marcou em criança? Porquê?
Em criança, não sei. Mais tarde, aos doze anos, li um livro de Dostoievsky que marcou muito a minha vida enquanto leitor. Era um conto chamado O sonho de um homem ridículo. Também, ao mesmo tempo, com a bd, comecei a ler outras coisas, como os livros de Hugo Pratt. O desenho, que fugia a normas convencionais, foi uma revelação. Com Dostoievsky identifiquei-me com a responsabilidade de cada um e com a importância do julgamento interior para as nossas vidas.

Como surgiu a paixão pela escrita?
Muito mais tarde, nunca pensei em ser escritor, mas acho que, a certa altura, tudo o que tinha lido começou a derramar-se, a tornar-se visível. Foi mais ou menos natural, sem que o que tivesse planeado, assim como uma criança começa a falar.

Lembra-se do primeiro texto que escreveu?
Quando viajava, porque não levava máquina fotográfica, escrevia muito daquilo que vivenciava em pequenos blocos que guardava no bolso das calças e que me ajudavam a reter experiências, permitiam-me gravar, não com imagens, mas com palavras, o que via e sentia.

Tem livros dirigidos a diferentes públicos. Prefere escrever livros para adultos ou para os leitores mais novos? Porquê?
Não penso nisso. Escrevo livros que depois encontram o seu público, os seus leitores. Tenho uma ideia, tento concretizá-la o melhor que sei, da maneira que considero mais eficiente. Por vezes, inclui crianças, outras não.

As recordações que tem da infância passada em Buarcos, Figueira da Foz, influenciaram a escrita de Mar?
Algumas, sim. O mar é uma presença constante na Figueira. Em casa dos meus avós, de manhã, era a primeira coisa que via quando olhava pela janela. Há pouco tempo escrevi uma frase, num livro: «Como é que um mar tão grande cabe numa janela tão pequena?» Eram as minhas manhãs, a olhar para aquele gigante que entrava pela casa, pela janela mais pequena e enchia tudo. Outras coisas foram também importantes, temas omnipresentes, que fazem parte do imaginário da Figueira da Foz. A pesca do bacalhau, por exemplo, é matéria romanesca pura. A meio da escrita do volume Mar, pedi a uma jornalista figueirense, a Andreia, para me enviar uma entrevista que ela tinha feito a um velho capitão da pesca do bacalhau e ponderei pedir-lhe permissão para a publicar na íntegra nesse volume da Enciclopédia da Estória Universal. Só desisti, por não ser o espírito do livro, que é acima de tudo ficcional.

O amor, o passado e a morte são temas nucleares das suas histórias. A escolha destes assuntos deve-se ao facto de fazerem, inevitavelmente, parte integrante da nossa existência?
Claro, são grandes temas. Na verdade, acho que são os temas de toda a literatura. Ao falar da humanidade, inevitavelmente tocamos, abordamos, aprofundamos esses assuntos, que, na prática estão interligados e em certas situações chegam a confundir-se.

Na sua obra, é percetível um enorme fascínio pela religião. A que se deve esse interesse?
Falo de religião, mas não creio falar mais de religião do que de ciência, filosofia ou arte. São maneiras de compreender o universo. Não faz sentido alhearmo-nos de algumas delas. A religião é mais uma ferramenta, ainda que esteja cada vez mais em desuso e desacreditada como forma de entender a vida. No entanto, não perdeu pertinência.

«Quando Deus fecha uma porta, abre-nos um livro». Esta é uma das frases que podemos ler em Jesus Cristo Bebia Cerveja. Considera que a literatura permite-nos viajar, descobrir novos mundos e viver experiências interessantes sem sairmos do mesmo lugar?
A leitura não substitui a viagem física, assim como a viagem não substitui a leitura, apesar de terem alguns pontos comuns. Em ambas podemos experimentar novos mundos e perspetivas, por vezes importantes, outras vezes banais, mas também belos, incómodos, gratificantes, dolorosos, prazerosos. Mas, sobretudo, permitem vários ângulos de visão, novas maneiras de compreender, de aceitar, de execrar.

Para onde vão os guarda-chuvas é um livro que coloca questões, procura explicar o que nos rodeia e estimula a pensar. Como surgiu também o seu interesse pelo mundo da filosofia?
Gosto, como tanta gente, de tentar perceber o mundo que me rodeia. Como uma criança fascinada por um brinquedo, tento abri-lo para ver como funciona, e nesse processo, leio o que posso sobre o que outros têm ou tiveram a dizer sobre isso. A filosofia, assim como a arte e a literatura, são formas de chegar mais longe, de abrir o mundo e tentar perceber as engrenagens que se escondem por debaixo da superfície. Olhar para a vida sem que nos interroguemos, ou a pensemos, é renunciar a uma boa parte da nossa humanidade.

Flores conta a história de um homem que perde a sua memória afetiva e, perante a impossibilidade de a resgatar, procura reinventá-la. Dependemos dos outros para conservar as nossas memórias?
Dependemos dos outros para tudo. A nossa tragédia e felicidade está nos outros. Ninguém existe sem ser percebido, sem ser tocado.

E o escritor, como tem a capacidade de chegar a um maior número de pessoas, tem a responsabilidade de preservar a memória?
O escritor não tem responsabilidade nenhuma, para além da de um cidadão comum. Qualquer coisa imputada a um escritor limita, evidentemente, a sua liberdade e eventualmente a sua criatividade. A preservação da memória é mais um trabalho de um historiador ou de um arqueólogo, mais de um cientista do que de um escritor, cuja matéria-prima é acima de tudo a ficção. Não quer dizer, que, em muitos livros, isso não seja feito de forma admirável. Mas não é um dever.

No livro A Cruzada das Crianças, convida-nos a viajar para o mundo das crianças e lembra-nos que também elas têm sonhos – por vezes, os de tantos adultos – e que há momentos na vida em que é necessário um manifesto, para conseguir alcançar aquilo que desejamos. Deixou algum sonho de criança por realizar? E, hoje, é um sonhador?
Sou otimista. Não gosto nada dos discursos, sejam de direita ou de esquerda, sobre o anúncio do fim dos tempos, da derrocada, do abismo: o estertor do comunismo, o fim do capitalismo, o romance esgotado, a geração vazia e sem propósito (como se tivesse existido uma geração qualquer que não tivesse considerado isso em relação à geração seguinte). Mário de Sá Carneiro, quando tinha dezassete anos, escreveu um conto em que não havia nada mais para descobrir exceto a morte. Basta olhar para o século XX, para perceber tudo o que foi descoberto desde então. Há pouco tempo descobriram uma nova espécie de baleia. Não foi um inseto na Amazônia, foi um mamífero gigante. Há muito para sonhar e para descobrir. Mário de Sá Carneiro, não era um velho desistente quando escreveu esse conto, tinha dezassete anos, mas este é um discurso presente em todas as gerações, no seio do modernismo ou na China de há dois mil e quinhentos anos.

Nem todas as baleias voam é o título do seu último livro, inspirado no projeto «Jazz Ambassadors», e apresenta-se como uma reflexão sobre a vida, a morte e a arte. Considera que a arte, neste caso a música, pode ter um papel importante para transformar o mundo?
Sim. A música, de uma maneira mais imediata, pode fazer mudar muita coisa, basta ver como nos move, como faz encher estádios, como arrasta multidões e põe pessoas a dançar e a gritar em uníssono. Há um poder catártico e avassalador na música, um fenómeno mais difícil ou impossível de conseguir com outras artes, que não deixam de ser igualmente eficientes e marcantes, mas cujo impacto nos fruidores é feito de maneira diferente. Em todo o caso, independentemente do meio de expressão, a cultura é essencial para a sociedade, para a sustentar, mas principalmente para a mudar e melhorar.

Ao longo da sua carreira, recebeu já várias distinções e prémios literários. Enciclopédia da Estória Universal é distinguida com o Grande Prémio de Conto Castelo Branco, em 2009. O livro A Boneca de Kokoschka vence o Prémio da União Europeia de Literatura, em 2012. Recebeu, ainda, o Prémio Autores da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), em 2011 e 2014, e o Prémio Nacional de Ilustração, em 2014. A obra Os livros que devoraram o meu pai é distinguida com o Prémio Literário Maria Rosa Colaço e A contradição humana vence o Prémio Autores SPA/RTP. O romance Jesus Cristo Bebia Cerveja, editado em 2012, é distinguido com o Prémio Time Out – Livro do Ano e Para onde vão os guarda-chuvas, publicado em 2013, com o Prémio Autores SPA na categoria Melhor Livro de Ficção. Muito recentemente, o romance Flores vence o Prémio Literário Fernando Namora, em 2016. Como encara todo este reconhecimento?
Com alegria. É sempre gratificante saber que alguém acha que o nosso trabalho é meritório, independentemente da subjetividade inerente. Os prémios, para quem vem de fora do meio, são especialmente importantes. Apontam para os nossos livros e fazem com que não sejam tão facilmente ignorados, quer pelos media, quer pelos leitores.

Muitas vezes, notamos que há uma certa dificuldade em escolher um livro para oferecer às crianças. O Plano Nacional de Leitura, em parceria com a Rede de Bibliotecas Escolares e as Bibliotecas Municipais, desempenha um papel fundamental na promoção da leitura. Acha que o objetivo está a ser cumprido?
Sim. Acho que é muito importante. Tenho conhecido pessoas incríveis, que têm atos superrogatórios e promovem a leitura com uma dedicação admirável. Quando apoiados por um plano ou instituição que os ajude, podemos efetivamente chegar mais longe em muito menos tempo.

Conte-nos uma situação que tenha vivido numa visita a uma Escola ou a uma Biblioteca e tenha sido particularmente especial.
Numa escola em Medellín, na Colômbia, um rapaz rapou o cabelo, pôs uma barba postiça e uma argola na orelha, para ficar parecido comigo. Havia centenas de crianças à minha espera, mas este sósia, que dizia ser o meu maior fã, deixou-me verdadeiramente surpreendido.

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Escreve todos os dias? Por prazer ou por necessidade?
Escrevo quando tenho algo para escrever. Espero que seja todos os dias, mas por vezes não acontece. De qualquer modo, prazer e necessidade confundem-se.

Tem algum ritual de escrita?
Escrevo em qualquer lugar e a qualquer hora. Mas prefiro escrever à noite, quando tenho mais silêncio e menos interrupções. Ninguém me liga, me envia e-mails. A noite é, também, pelo meu ritmo biológico, o momento em que me sinto mais confortável. Escrevo sempre no computador ou no iPad.

Lembra-se do momento em que viu pela primeira vez um livro seu nas montras das livrarias? Descreva-nos como foi a sensação.
Não me lembro, o que deve querer dizer que não dei muita importância.

Podemos esperar a publicação de novos livros para breve?
Claro. Estou sempre a escrever.

Mais informações sobre o autor aqui.

 

 

Feira do Livro de Lisboa está quase a abrir… e com novidades!

por Sofia Pereira

A 86ª Feira do Livro de Lisboa decorre entre 26 de maio e 13 de junho, no Parque Eduardo VII, uma organização da APEL – Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, que tem como objetivos promover o livro, e fomentar os hábitos de leitura e o incremento do nível de literacia.

Durante mais de duas semanas, os leitores têm oportunidade de participar nesta festa do livro, o maior evento literário do país, que tem na sua programação um vasto leque de atividades: apresentação de livros, sessões de autógrafos, concertos, doação de livros, cinema,  showcookings, debates, concertos, workshops, transmissão de programas de rádio e mostras gastronómicas.

Uma das grandes novidades da edição deste ano é a App, uma aplicação disponível em Android ou iOS, com o mapa dos pavilhões, a programação das iniciativas e os livros do dia.

Mais informação sobre a Feira do Livro de Lisboa 2016 aqui.

Feira Cultural de Coimbra

por Sofia Pereira

O Município de Coimbra promove, entre os dias 3 e 12 de junho, mais uma edição da Feira Cultural.

Promover a criatividade e as atividades culturais da e na cidade, projetar o trabalho de diferentes agentes de desenvolvimento criativo e cultural, e contribuir para o enriquecimento da criação artística são objetivos deste certame.

A iniciativa, que decorre no Parque Dr. Manuel Braga, é já considerada uma das maiores e melhores festas da Cultura do país, que abrange variadas áreas: a Literatura, o Artesanato, as Artes Performativas, a Música, as Artes Plásticas e a Gastronomia, atraindo milhares de visitantes pelo local aprazível em que se realiza, pela diversidade da oferta cultural, pela qualidade do programa de animação e pelo ambiente acolhedor.

Apresentações de livros, sessões de autógrafos, peças de teatro, sessões de poesia concertos, exposições e «24 horas culturais» são alguns dos atrativos da edição deste ano.

Uma Feira para valorizar a Cultura, a cidade do Mondego e o País!

«O dom da palavra», de Catarina Nunes de Almeida, na Feira do Livro de Lisboa

por Sofia Pereira

No próximo dia 28 de maio, será apresentado o livro infantojuvenil O dom da palavra, de Catarina Nunes de Almeida, com ilustrações de João Concha.

Catarina Nunes de Almeida é uma autora natural da cidade de Lisboa que tem dedicado a sua atividade literária à escrita de poesia. Com O dom da palavra, uma publicação da Não Edições, estreia-se na literatura para crianças e jovens, criando «uma espécie de poema contínuo, escrito sob a forma de diálogos», como refere.

A iniciativa, inserida no programa cultural da Feira do Livro de Lisboa, que decorre no Parque Eduardo VII, terá lugar no Stand BLX, pelas 18 horas, e a apresentação estará a cargo de  Ana Tecedeiro, com momentos de leitura por Cátia Sá.

Um momento que promete ser agradável e divertido! Mais uma sugestão de um livro para oferecer e/ou para ler com os mais novos.

Dia Mundial do Livro: escritores e ilustradora sugerem a leitura de livros

por Sofia Pereira

Hoje é o Dia Mundial do Livro!

A data, assinalada desde 1996 e por decisão da UNESCO, foi escolhida com base na lenda de S. Jorge e o Dragão, adaptada para honrar uma velha tradição catalã segundo a qual, neste dia, os cavaleiros oferecem às suas damas uma rosa vermelha de S. Jorge e, em troca, recebem um livro. Simultaneamente, presta-se homenagem à obra de grandes escritores, como Cervantes e Shakespeare, falecidos exatamente em abril de 1616.

Para assinalar a data, a Fábulas convidou escritores e ilustradores a sugerirem a leitura de um livro, apenas um, e a justificar o motivo da sua escolha:

Catarina Gomes, Ilustradora

O dariz, Olivier Douzou, Editora Cosacnaify

«Inspirado num conto satírico do escritor russo Nikolai Gógol, O dariz de Olivier Douzou é um livro que conta, de uma forma genial, a história de um nariz que procura um lenço para se assoar. Escolhi-o porque foi dos poucos livros que me convenceu pela lombada/título. Depois de pegar nele, a ilustração da capa convenceu-me ainda mais e quando o abri para ler a primeira página, não lhe tirei mais as mãos de cima, porque soube que ele tinha de vir comigo para casa. Talvez o facto de eu ter a voz um pouco anasalada, tenha ajudado. Começa assim (ler em voz alta): “Guando agordei esta banhã / esdava gombletamente endupido. / Zaí bra domar ar.” Recomendo-o para qualquer faixa etária.»

(c) Miguel Alves
Catarina Nunes de Almeida, Escritora

Cândido ou O Optimismo, Voltaire, tradução de Rui Tavares, ilustração de Vera Tavares, Tinta-da-China

«A minha escolha vai para um dos livros que marcou, pela sua intemporal frescura, imprevisibilidade e lucidez, a fase final da minha adolescência. E são vários os aspectos que sublinho desse primeiro contacto com o romance de Voltaire – o mais evidente de todos foi, sem dúvida, a dimensão caricatural da obra. Voltaire expõe-nos, com um humor e uma imaginação brilhantes, uma série de tipos humanos que, servindo de espelho da sua época, não deixam de se fazer presentes nos nossos dias. A adolescência é o tempo de procurar respostas para uma série de contradições da vida humana que esta narrativa expõe com profunda inteligência. É o tempo de afirmação da liberdade individual, mas também de descoberta dos valores fundamentais da sociedade, temas escavados até ao osso nas alegorias iluministas. Há perguntas fundamentais sobre injustiça, ignorância, fanatismo a que alguma literatura nos permite aceder e que nunca mais se devem calar dentro de nós. Confesso que o facto de saber que se tratava de uma obra que, à época, não pôde circular senão clandestinamente, aguçou ainda mais o desejo de leitura. Herói de impensáveis façanhas, Cândido leva-nos aos extremos do compadecimento e do riso, da revolta e da aceitação, do repúdio e do espanto. Como esquecer a sua bem-amada Cunegundes, os filósofos Pangloss e Martin, a passagem por uma Lisboa que se ergue a todo o custo do terramoto, o encontro do mítico Eldorado e todo o novelo de infortúnios e desventuras “no melhor dos mundos possíveis”? Esta obra é puro deleite – e a edição ilustrada da Tinta-da-China veio refinar ainda mais o prazer que é revivê-la.»

 Maria Francisca Almeida Gama, Escritora

«O livro que hoje vos recomendo chama-se Madalena e foi escrito por mim, há cerca de seis meses, após o falecimento do meu pai. Fala sobre a saudade, a dor, sobre o facto de termos que aprender a lidar com a perda. Também fala sobre os sonhos, sobre a alegria, sobre o amor. É um livro que demonstra o quanto anseio por chegar mais longe e em como, apesar da dor que sinto, me esforço para ser cada vez melhor, orgulhando sempre o meu querido pai. »

Patrícia Ervilha, Escritora

O Principezinho – O Grande Livro Pop-Up, Antoine de Saint-Exupéry, Editorial Presença

«Tendo que escolher um livro infantil, não hesitaria na edição O Principezinho – O Grande Livro Pop-Up por Antoine de Saint-Exupéry, da Editorial Presença. O Principezinho é um livro essencial e um livro que atravessa a nossa própria existência. Faz sentido aos 2 anos, como faz aos 92. Esta edição é extraordinariamente bonita e apelativa. Tem o embondeiro mais inesquecível da literatura. Neste caso, a minha escolha vale pelo conteúdo eterno e também muito pela forma.»

(c) Ricardo Graça
Paulo Kellerman, Escritor

Contos de cães e maus lobos, Valter Hugo Mãe, Porto Editora

«O livro que sugiro é Contos de cães e maus lobos, de Valter Hugo Mãe. Trata-se de um belo e cuidado livro que reúne diversos contos que podem ter vários níveis de leitura, de acordo com a idade dos leitores; apesar de em princípio ser destinado a jovens, será igualmente um livro fascinante para leitores adultos. É composto por onze contos que nos convidam simultaneamente a sairmos de nós e mergulharmos em nós, ora ternos ora duros, sempre enigmáticos e mágicos, por vezes arrebatadores. Cada um dos contos é acompanhado por ilustrações originais de diferentes artistas, o que confere a cada estória um imaginário e uma densidade muito concreta. Um livro que corresponde à definição que o próprio autor atribui ao que será um bom livro: aquele que tem “a capacidade de expressar algo que até ali estaria numa espécie de escuridão. A capacidade de colocar em discurso algo que podemos reconhecer, com que nos podemos identificar e que parece de alguma forma solucionar um problema nosso, mas que até ali ninguém tinha expressado daquela forma.”»

Boas leituras e Feliz Dia Mundial do Livro!

«Geronimo Stilton» e os valores extrarráticos

por Sofia Pereira

Geronimo Stilton é uma coleção de livros de literatura infantil e juvenil, publicada pela Editorial Presença, em Portugal. Em 2001, foi distinguida com o Prémio Andersen e, um ano depois, conquistou o eBook Award como melhor livro eletrónico infantojuvenil.

Muitos são os leitores – crianças e jovens – que têm um enorme fascínio pelas fantásticas aventuras da personagem Geronimo Stilton, um ratinho que vive na Ratázia, uma ilha em forma de queijo, situada no Oceano Rático Meridional. Formado em Ratologia da Literatura Rática e em Filosofia Arqueorrática Comparada, é diretor há já vinte anos do jornal Diário dos Roedores, fundado pelo seu avô Torcato Viravolta. Aventureiro nato, cativa a simpatia de quem lê as suas histórias, pela sua extraordinária capacidade de transformar as adversidades e fraquezas em grandes êxitos. Nos tempos livres, Stilton gosta de colecionar cascas antigas de Parmesão do século XVIII, jogar xadrez e, sobretudo, adora contar histórias a Benjamim, o seu sobrinho preferido.

As aventuras vividas por este famoso rato, acompanhado por Benjamim, são incríveis e estão recheadas de muitas surpresas, que transmitem importantes valores para o desenvolvimento pessoal, social e intelectual das crianças e dos jovens:

Importância da família e dos amigos
A família é o porto de abrigo de Stilton, é a força que dá sentido à sua vida e é a luz que o ilumina nos momentos de maior consternação. Não há problema que abale as relações familiares, o seu alicerce emocional. Os amigos, igualmente fundamentais para Geronimo, são seus protegidos e festejam todas as suas vitórias, no final de cada aventura difícil e perigosa. Estar rodeado da família e dos amigos fá-lo sentir-se bem consigo próprio e feliz.

Altruísmo e resiliência
Geronimo mostra estar sempre disponível para ajudar os outros e tem uma capacidade extrema para aceitar e superar os obstáculos com que se depara, mantendo uma atitude otimista e não se deprimindo nas situações mais tristes.

Multiculturalismo, solidariedade e respeito pelos outros
Stilton vive numa sociedade multicultural, demonstrando curiosidade e espírito de descoberta pelas tradições de outras culturas. Tem consciência da importância do respeito, da paciência e da aceitação dos defeitos dos outros, e sabe que a igualdade entre todos/as é uma ferramenta crucial para a harmonia social.

Coragem e espírito de iniciativa
Os livros da coleção de Geronimo Stilton ensinam as crianças e os jovens que só as lutas que requerem sacrifícios poderão levar a finais felizes. Neste sentido, é necessário enfrentar as adversidades da vida e os medos, com força e ânimo, pois só assim se conseguirá obter o sucesso desejado. É transmitida uma mensagem de esperança e fé, para que os leitores mais novos nunca percam a coragem nos tempos mais difíceis.

«Em vez de seres contra a guerra, defende a paz!»
A paz é bastante valorizada nas aventuras de Geronimo Stilton. As suas histórias não apelam a comportamentos agressivos e desviantes, nem recorrem ao uso de palavras impróprias; pelo contrário, a ideia de que nos espera um futuro belo e feliz é a mensagem transmitida.

Histórias repletas de aventura e animação para oferecer e/ou ler aos/com os mais novos!

Título da coleção: Geronimo Stilton
Autor: Geronimo Stilton
Editora: Presença

«A Ilha dos Diabretes» ensina a ter uma vida mais saudável

 
por Sofia Pereira

Hoje é o Dia Mundial da Saúde, promovido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que este ano dedica especial atenção ao tema da diabetes, considerada já uma das doenças do século XXI.

A diabetes afeta, cada vez mais cedo, crianças, jovens e adultos e, desta forma, torna-se fundamental uma sensibilização ativa, prevenindo para os riscos desta epidemia, as causas e os possíveis tratamentos.

Todos conhecemos algum familiar e/ou amigo que, diariamente, lida com esta doença tão comum. Os livros, pelo seu caráter lúdico, pedagógico e mobilizador, são meios essenciais para consciencializar, desde tenra idade, os pequenos leitores para a importância de uma alimentação saudável, que previne algumas doenças e contribui para a adoção de um estilo de vida mais saudável.

Por isso, hoje, apresentamos aqui a sugestão de leitura da história A Ilha dos Diabretes que, através das aventuras de duas personagens – o João e a Maria – ensina os leitores mais novos a terem uma alimentação saudável, associada à prática do exercício físico, trazendo mais energia às suas vidas e tornando-se mais dinâmicos, fortes e saudáveis.

Título: A Ilha dos Diabretes
Autores: Carla Maia de Almeida, Cristina Cunha Cardoso e Pedro Borrego
Ilustrações: João Fazenda
Edição: Pato Lógico e Ordem dos Farmacêuticos

«O título A Ilha dos Diabretes integra a colectânea de livros da Geração Saudável, com várias temáticas de reconhecida importância para a Saúde Pública e com um público-alvo diferenciado entre as várias faixas etárias dos jovens. Este livro é uma co-edição da Ordem dos Farmacêuticos e do Pato Lógico, com o apoio da Novo Nordisk (no âmbito da iniciativa Changing Diabetes), do Programa Nacional para a Diabetes da Direcção-Geral da Saúde e da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM).»

A literatura de tradição oral

por Sofia Pereira

«A literatura da tradição oral portuguesa deve ser devidamente valorizada, dando-lhe uma dimensão nacional.»
Graça Capinha

A literatura tradicional de transmissão oral faz parte do nosso património imaterial. É inegável o seu valor literário, cultural e social, por isso torna-se importante incentivar as crianças e os jovens dos dias de hoje a lerem e conhecerem estes textos.

Pese embora o facto de a literatura de tradição oral já não cumprir o seu objetivo primordial – preservar os costumes, a cultura e a tradição de uma determinada comunidade -, certo é que integra a nossa memória coletiva como recriação simbólica de um espaço-tempo, que deve ser objeto de leitura e conhecimento, valorizando-se social e culturalmente.

Estes textos, perpetuados ao longo dos séculos de geração em geração, assumem uma função socializadora, pedagógica e lúdica pois, através de jogos de palavras e de uma coesão social, é apreendido o conhecimento cultural e social de outrora.

A literatura de tradição oral inclui um diversificado repertório:

Lendas e contos

Contos e Lendas de Portugal, adaptação de Isabel Ramalhete e João Pedro Mésseder, Porto Editora

«Eis uma mão-cheia de contos e lendas de Portugal e de outras regiões do Mundo: de Angola, Moçambique, Timor, Espanha, França, Alemanha, do povo cigano e até do mundo árabe. Histórias para ler, reler e contar. Um nunca acabar de modos de encantar, de ter graça, de emocionar e de transmitir ensinamentos.»

Contos Tradicionais do Povo Português,  seleção de Teófilo Braga, Porto Editora

«Histórias de reis, príncipes, condes, cavaleiros, sargentos, mágicos, meninas feias, meninas bonitas, sapateiros, ermitões, velhinhas, ladrões, fadas, anões, bois, galinhas, lobos, baratas… Histórias ricas em ensinamentos seculares e, como árvores, com raízes tão profundas que ajudam a conhecer e compreender a identidade da cultura portuguesa.»

Fábulas

As Mais Belas Fábulas de La Fontaine, Jean de La Fontaine, ilustrações de Gauthier Dosimont, Civilização Editora

«35 fábulas que vão deliciar as crianças mais pequenas. O Leão e o Mosquito, O Lobo e o Cordeiro, A Lebre e a Tartaruga e A Cigarra e a Formiga são alguns dos títulos que este livro apresenta, de uma forma mais sucinta e acompanhado por ilustrações de Gauthier Dosimont.»

A Raposa Azul – Oito Histórias Tradicionais com Mensagens Universais, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, ilustrações de Ana Afonso, Editorial Caminho

«Quem ler histórias inventadas há séculos, e que foram passando de boca em boca, de pais para filhos, de avós para netos, descobre rapidamente que, por trás de personagens e lugares diferentes, se encontram mensagens comuns. A razão é simples. A humanidade é só uma e os seres humanos, quer vivam no campo ou na cidade, na montanha ou na planície, numa região desértica ou na selva, têm preocupações, sonhos, desejos e alegrias muito semelhantes.»

Rimas Infantis e Poesia Popular

Rimas Perfeitas, Imperfeitas e Mais-Que-Perfeitas, de Alice Vieira, ilustrações de Afonso Cruz, Texto Editora

«Lê este álbum e verás que não há dois poemas iguais. Uns têm mais humor e ironia, outros melancolia, e para cada poema foi escolhido um determinado tempo verbal. Consegues identificá-los? Presente, Futuro, Gerúndio, Imperativo, Pretérito Perfeito, Imperfeito e Mais-Que-Perfeito.»

Travalengas, de José Dias Pires, ilustrações de Catarina Correia Marques, Booksmile

«Se já conheces de cor consoantes e vogais, ditongos, acentos, sinais, para o que preciso for: não temas os trava-línguas, desafia as lengalengas, para que em qualquer altura não te atrapalhem a leitura, e verás que, sem favor, quem ganha sempre é o leitor.»

Adivinhas

Adivinha, adivinha, recolha e seleção de Luísa Ducla Soares, ilustrações Sofia Lucas, Livros Horizonte

«Há milhares da anos que existem adivinhas, que têm feito rir e pensar muitas gerações de adultos e crianças. Já se perdeu a memória de quem as inventou, e são hoje um tesouro da nossa cultura, que não pára de crescer porque há sempre gente imaginativa que o vai acrescentando. Escolhemos para vocês estas 150 adivinhas, que se referem a coisas que todos conhecem, para que descubram a solução sem o auxílio dos mais crescidos. Leiam com atenção, puxem pela cabeça, vejam se acertam. Os desenhos ilustram as soluções de muitas adivinhas mas, para ser mais divertido, não estão na mesma página.»

Adivinhas com Bicho, de Maria Teresa Maia Gonzalez, Pi

«Aqui encontrarás muitas adivinhas engraçadas sobre os mais variados animais.Um livro divertido onde podes testar os teus conhecimentos sobre o mundo animal e brincar às palavras com os teus familiares e amigos da escola.»

Provérbios

Provérbios de Sempre, de Zero a Oito, Zero a Oito

«Um livro com histórias divertidas que ajudam a perceber alguns dos provérbios mais ouvidos da nossa tradição. A não perder! Quem o avisa, seu amigo é!»

9789727312085

Provérbios e Adágios Populares, de Cláudia Vieira, Planeta Editora

«Se o sol quando nasce é para todos, acautele-se que ao minguar da lua não comece coisa alguma, acredite que, quem semeia ventos, colhe tempestades e, em terra de cegos quem tem olho é Rei pois, viver não custa, o que custa é saber viver. Em nome do património literário popular, Provérbios e Adágios Populares concede-nos uma viagem a tempos antigos, à morada da humanização de hábitos, conselhos e práticas esquecidas para bem governar a vida. O livro justifica-se pela virtude de recuperar a consciência tradicional no espaço lusófono, no sentido de combater a marginalização da linguagem criativa do povo que está enraizada numa sabedoria que se traduz pela perspicácia, simplicidade, bom-senso, experiência e humor. Reunimos neste livro milhares de provérbios ordenados por letras, por temas e actividades, santos e religião e por estações do ano ou meses do ano, facilitando a consulta por todos e, sobretudo, pelos alunos do primeiro e segundo ciclos.»

A leitura e o estudo dos textos da tradição oral contribuem não só para o desenvolvimento das competências literárias e para a socialização das crianças e dos jovens, como também para uma maior dignidade deste tipo de literatura.

Sete estratégias de incentivo à leitura das crianças e dos jovens

por Sofia Pereira

«Hoje, uma das tristes realidades é que pouquíssimas pessoas, em especial jovens, lêem livros. A menos que encontremos formas imaginativas de resolver esse problema, as futuras gerações arriscam-se a perder a sua história.»
Nelson Mandela

1. Facilitar o acesso aos livros
Ir a bibliotecas, livrarias, encontro com escritores e sessões de apresentação de livros poderá ser uma excelente opção.

2. Ler em companhia
A leitura com outras pessoas – familiares, amigos ou colegas – poderá transformar-se num bom e agradável momento de interação e de partilha de ideias. Além disso, o exemplo dos mais velhos e a paixão que estes manifestam pelo universo dos livros será, sem dúvida, uma motivação para que as crianças e os jovens desfrutem, igualmente, dessa atividade.

3. Nem todos os livros são literatura
Se o objetivo é incentivar a criação de hábitos de leitura, torna-se crucial ter em atenção que nem todos os livros têm a mesma finalidade: há livros para colorir, sopas de letras e crucigramas, entre outros. É importante saber escolher o(s) livro(s) adequado(s) e próprio(s) para cada leitor.

4. Saber o que ler
Sugerir a leitura de um simples texto ou de uma obra, com algumas breves recomendações, poderá ser um bom guião que ajudará a compreender o texto pois, dessa forma, as crianças e os jovens já estão familiarizados com a história, apreciando-a melhor e sentindo o ato de ler como uma necessidade da sua vida.

5. Ler sem obrigação
Criar espaço e tempo de leitura, mas através da motivação e nunca impondo a leitura de um livro é a melhor forma de incentivo.

6. Direito a não ler
É necessário nunca esquecer que todos temos o direito a não terminar a leitura de um livro, quando não gostamos da história ou simplesmente não nos prende a atenção.

7. Estimular a capacidade cognitiva
Livros ilustrados ou de banda desenhada despertam a criatividade e a imaginação.