All posts by Sofia Pereira

Afonso Cruz, o escritor que pergunta, compreende e sente

afonso-cruz_copyright_paulo-sousa-coelho(c) Paulo Sousa Coelho

Escritor, ilustrador, cineasta, ilustrador e ainda músico na banda The Soaked Lamb, Afonso Cruz é um dos mais interessantes autores portugueses da atualidade. Nasceu em julho de 1971, na Figueira da Foz e frequentou a Escola António Arroio, a Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira. Apaixonado por viagens, publicou o seu primeiro romance em 2008 e, desde então, a escrita tem sido o combustível da sua vida, com livros muito inspiradores. Ao longo da sua carreira, foi já distinguido com diversos prémios e galardões literários e viu a sua obra chegar além-fronteiras, a países como Brasil, Bulgária, Canadá, Colômbia, Croácia, Eslováquia, Espanha, França, Hungria, Itália, Macedónia, Polónia, Sérvia, República Checa e Turquia.

A Fábulas entrevistou o escritor. Afonso Cruz, muito atento à realidade que o rodeia, fala-nos do seu percurso como autor de livros para todos os leitores – crianças,  jovens e adultos – e da sua paixão pelo mundo das artes.

Considera que tem sido dado espaço suficiente à literatura em Portugal?
Creio que os escritores esperam sempre mais. O suficiente é uma palavra terrível, que implica a sensação de que nos acomodamos ao mundo tal como ele nos é dado. Há sempre muito mais a fazer, muitas milhas a percorrer.

Sabemos que todos os escritores têm autores de referência. Quais são os seus?
Vários, evidentemente. Sem ser fastidioso e exibir uma lista, refiro três: Saint-Exupéry, Kazantzakis e Dostoievsky.

É escritor, ilustrador, músico e cineasta. Em que mundo vive melhor?
Depende das alturas, mas passo mais tempo a escrever. Todas essas áreas me preenchem de maneira diferente, e não abdicaria de nenhuma, mas a escrita faz-me viver de um modo mais completo, uma vez que passo mais tempo com ela.

Quando lemos os seus livros, ficámos com a ideia de que é um leitor nato e compulsivo. Lê desde muito cedo? E como começou a ter acesso aos livros?
Leio muito, sim, e não escreveria se não lesse. Não sei ao certo quando comecei a ler nem quando me tornei leitor, mas os livros que li na adolescência marcaram-me muito, em especial os livros que eram do meu pai. Ao pegar em livros que não eram dirigidos especificamente para crianças, entrei noutro mundo. Costumo dizer que a a grande viragem da minha adolescência não aconteceu por causa das hormonas, mas da literatura.

Qual foi o livro que mais o marcou em criança? Porquê?
Em criança, não sei. Mais tarde, aos doze anos, li um livro de Dostoievsky que marcou muito a minha vida enquanto leitor. Era um conto chamado O sonho de um homem ridículo. Também, ao mesmo tempo, com a bd, comecei a ler outras coisas, como os livros de Hugo Pratt. O desenho, que fugia a normas convencionais, foi uma revelação. Com Dostoievsky identifiquei-me com a responsabilidade de cada um e com a importância do julgamento interior para as nossas vidas.

Como surgiu a paixão pela escrita?
Muito mais tarde, nunca pensei em ser escritor, mas acho que, a certa altura, tudo o que tinha lido começou a derramar-se, a tornar-se visível. Foi mais ou menos natural, sem que o que tivesse planeado, assim como uma criança começa a falar.

Lembra-se do primeiro texto que escreveu?
Quando viajava, porque não levava máquina fotográfica, escrevia muito daquilo que vivenciava em pequenos blocos que guardava no bolso das calças e que me ajudavam a reter experiências, permitiam-me gravar, não com imagens, mas com palavras, o que via e sentia.

Tem livros dirigidos a diferentes públicos. Prefere escrever livros para adultos ou para os leitores mais novos? Porquê?
Não penso nisso. Escrevo livros que depois encontram o seu público, os seus leitores. Tenho uma ideia, tento concretizá-la o melhor que sei, da maneira que considero mais eficiente. Por vezes, inclui crianças, outras não.

As recordações que tem da infância passada em Buarcos, Figueira da Foz, influenciaram a escrita de Mar?
Algumas, sim. O mar é uma presença constante na Figueira. Em casa dos meus avós, de manhã, era a primeira coisa que via quando olhava pela janela. Há pouco tempo escrevi uma frase, num livro: «Como é que um mar tão grande cabe numa janela tão pequena?» Eram as minhas manhãs, a olhar para aquele gigante que entrava pela casa, pela janela mais pequena e enchia tudo. Outras coisas foram também importantes, temas omnipresentes, que fazem parte do imaginário da Figueira da Foz. A pesca do bacalhau, por exemplo, é matéria romanesca pura. A meio da escrita do volume Mar, pedi a uma jornalista figueirense, a Andreia, para me enviar uma entrevista que ela tinha feito a um velho capitão da pesca do bacalhau e ponderei pedir-lhe permissão para a publicar na íntegra nesse volume da Enciclopédia da Estória Universal. Só desisti, por não ser o espírito do livro, que é acima de tudo ficcional.

O amor, o passado e a morte são temas nucleares das suas histórias. A escolha destes assuntos deve-se ao facto de fazerem, inevitavelmente, parte integrante da nossa existência?
Claro, são grandes temas. Na verdade, acho que são os temas de toda a literatura. Ao falar da humanidade, inevitavelmente tocamos, abordamos, aprofundamos esses assuntos, que, na prática estão interligados e em certas situações chegam a confundir-se.

Na sua obra, é percetível um enorme fascínio pela religião. A que se deve esse interesse?
Falo de religião, mas não creio falar mais de religião do que de ciência, filosofia ou arte. São maneiras de compreender o universo. Não faz sentido alhearmo-nos de algumas delas. A religião é mais uma ferramenta, ainda que esteja cada vez mais em desuso e desacreditada como forma de entender a vida. No entanto, não perdeu pertinência.

«Quando Deus fecha uma porta, abre-nos um livro». Esta é uma das frases que podemos ler em Jesus Cristo Bebia Cerveja. Considera que a literatura permite-nos viajar, descobrir novos mundos e viver experiências interessantes sem sairmos do mesmo lugar?
A leitura não substitui a viagem física, assim como a viagem não substitui a leitura, apesar de terem alguns pontos comuns. Em ambas podemos experimentar novos mundos e perspetivas, por vezes importantes, outras vezes banais, mas também belos, incómodos, gratificantes, dolorosos, prazerosos. Mas, sobretudo, permitem vários ângulos de visão, novas maneiras de compreender, de aceitar, de execrar.

Para onde vão os guarda-chuvas é um livro que coloca questões, procura explicar o que nos rodeia e estimula a pensar. Como surgiu também o seu interesse pelo mundo da filosofia?
Gosto, como tanta gente, de tentar perceber o mundo que me rodeia. Como uma criança fascinada por um brinquedo, tento abri-lo para ver como funciona, e nesse processo, leio o que posso sobre o que outros têm ou tiveram a dizer sobre isso. A filosofia, assim como a arte e a literatura, são formas de chegar mais longe, de abrir o mundo e tentar perceber as engrenagens que se escondem por debaixo da superfície. Olhar para a vida sem que nos interroguemos, ou a pensemos, é renunciar a uma boa parte da nossa humanidade.

Flores conta a história de um homem que perde a sua memória afetiva e, perante a impossibilidade de a resgatar, procura reinventá-la. Dependemos dos outros para conservar as nossas memórias?
Dependemos dos outros para tudo. A nossa tragédia e felicidade está nos outros. Ninguém existe sem ser percebido, sem ser tocado.

E o escritor, como tem a capacidade de chegar a um maior número de pessoas, tem a responsabilidade de preservar a memória?
O escritor não tem responsabilidade nenhuma, para além da de um cidadão comum. Qualquer coisa imputada a um escritor limita, evidentemente, a sua liberdade e eventualmente a sua criatividade. A preservação da memória é mais um trabalho de um historiador ou de um arqueólogo, mais de um cientista do que de um escritor, cuja matéria-prima é acima de tudo a ficção. Não quer dizer, que, em muitos livros, isso não seja feito de forma admirável. Mas não é um dever.

No livro A Cruzada das Crianças, convida-nos a viajar para o mundo das crianças e lembra-nos que também elas têm sonhos – por vezes, os de tantos adultos – e que há momentos na vida em que é necessário um manifesto, para conseguir alcançar aquilo que desejamos. Deixou algum sonho de criança por realizar? E, hoje, é um sonhador?
Sou otimista. Não gosto nada dos discursos, sejam de direita ou de esquerda, sobre o anúncio do fim dos tempos, da derrocada, do abismo: o estertor do comunismo, o fim do capitalismo, o romance esgotado, a geração vazia e sem propósito (como se tivesse existido uma geração qualquer que não tivesse considerado isso em relação à geração seguinte). Mário de Sá Carneiro, quando tinha dezassete anos, escreveu um conto em que não havia nada mais para descobrir exceto a morte. Basta olhar para o século XX, para perceber tudo o que foi descoberto desde então. Há pouco tempo descobriram uma nova espécie de baleia. Não foi um inseto na Amazônia, foi um mamífero gigante. Há muito para sonhar e para descobrir. Mário de Sá Carneiro, não era um velho desistente quando escreveu esse conto, tinha dezassete anos, mas este é um discurso presente em todas as gerações, no seio do modernismo ou na China de há dois mil e quinhentos anos.

Nem todas as baleias voam é o título do seu último livro, inspirado no projeto «Jazz Ambassadors», e apresenta-se como uma reflexão sobre a vida, a morte e a arte. Considera que a arte, neste caso a música, pode ter um papel importante para transformar o mundo?
Sim. A música, de uma maneira mais imediata, pode fazer mudar muita coisa, basta ver como nos move, como faz encher estádios, como arrasta multidões e põe pessoas a dançar e a gritar em uníssono. Há um poder catártico e avassalador na música, um fenómeno mais difícil ou impossível de conseguir com outras artes, que não deixam de ser igualmente eficientes e marcantes, mas cujo impacto nos fruidores é feito de maneira diferente. Em todo o caso, independentemente do meio de expressão, a cultura é essencial para a sociedade, para a sustentar, mas principalmente para a mudar e melhorar.

Ao longo da sua carreira, recebeu já várias distinções e prémios literários. Enciclopédia da Estória Universal é distinguida com o Grande Prémio de Conto Castelo Branco, em 2009. O livro A Boneca de Kokoschka vence o Prémio da União Europeia de Literatura, em 2012. Recebeu, ainda, o Prémio Autores da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), em 2011 e 2014, e o Prémio Nacional de Ilustração, em 2014. A obra Os livros que devoraram o meu pai é distinguida com o Prémio Literário Maria Rosa Colaço e A contradição humana vence o Prémio Autores SPA/RTP. O romance Jesus Cristo Bebia Cerveja, editado em 2012, é distinguido com o Prémio Time Out – Livro do Ano e Para onde vão os guarda-chuvas, publicado em 2013, com o Prémio Autores SPA na categoria Melhor Livro de Ficção. Muito recentemente, o romance Flores vence o Prémio Literário Fernando Namora, em 2016. Como encara todo este reconhecimento?
Com alegria. É sempre gratificante saber que alguém acha que o nosso trabalho é meritório, independentemente da subjetividade inerente. Os prémios, para quem vem de fora do meio, são especialmente importantes. Apontam para os nossos livros e fazem com que não sejam tão facilmente ignorados, quer pelos media, quer pelos leitores.

Muitas vezes, notamos que há uma certa dificuldade em escolher um livro para oferecer às crianças. O Plano Nacional de Leitura, em parceria com a Rede de Bibliotecas Escolares e as Bibliotecas Municipais, desempenha um papel fundamental na promoção da leitura. Acha que o objetivo está a ser cumprido?
Sim. Acho que é muito importante. Tenho conhecido pessoas incríveis, que têm atos superrogatórios e promovem a leitura com uma dedicação admirável. Quando apoiados por um plano ou instituição que os ajude, podemos efetivamente chegar mais longe em muito menos tempo.

Conte-nos uma situação que tenha vivido numa visita a uma Escola ou a uma Biblioteca e tenha sido particularmente especial.
Numa escola em Medellín, na Colômbia, um rapaz rapou o cabelo, pôs uma barba postiça e uma argola na orelha, para ficar parecido comigo. Havia centenas de crianças à minha espera, mas este sósia, que dizia ser o meu maior fã, deixou-me verdadeiramente surpreendido.

 img_1500

Escreve todos os dias? Por prazer ou por necessidade?
Escrevo quando tenho algo para escrever. Espero que seja todos os dias, mas por vezes não acontece. De qualquer modo, prazer e necessidade confundem-se.

Tem algum ritual de escrita?
Escrevo em qualquer lugar e a qualquer hora. Mas prefiro escrever à noite, quando tenho mais silêncio e menos interrupções. Ninguém me liga, me envia e-mails. A noite é, também, pelo meu ritmo biológico, o momento em que me sinto mais confortável. Escrevo sempre no computador ou no iPad.

Lembra-se do momento em que viu pela primeira vez um livro seu nas montras das livrarias? Descreva-nos como foi a sensação.
Não me lembro, o que deve querer dizer que não dei muita importância.

Podemos esperar a publicação de novos livros para breve?
Claro. Estou sempre a escrever.

Mais informações sobre o autor aqui.

 

 

Feira do Livro de Lisboa está quase a abrir… e com novidades!

por Sofia Pereira

A 86ª Feira do Livro de Lisboa decorre entre 26 de maio e 13 de junho, no Parque Eduardo VII, uma organização da APEL – Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, que tem como objetivos promover o livro, e fomentar os hábitos de leitura e o incremento do nível de literacia.

Durante mais de duas semanas, os leitores têm oportunidade de participar nesta festa do livro, o maior evento literário do país, que tem na sua programação um vasto leque de atividades: apresentação de livros, sessões de autógrafos, concertos, doação de livros, cinema,  showcookings, debates, concertos, workshops, transmissão de programas de rádio e mostras gastronómicas.

Uma das grandes novidades da edição deste ano é a App, uma aplicação disponível em Android ou iOS, com o mapa dos pavilhões, a programação das iniciativas e os livros do dia.

Mais informação sobre a Feira do Livro de Lisboa 2016 aqui.

Feira Cultural de Coimbra

por Sofia Pereira

O Município de Coimbra promove, entre os dias 3 e 12 de junho, mais uma edição da Feira Cultural.

Promover a criatividade e as atividades culturais da e na cidade, projetar o trabalho de diferentes agentes de desenvolvimento criativo e cultural, e contribuir para o enriquecimento da criação artística são objetivos deste certame.

A iniciativa, que decorre no Parque Dr. Manuel Braga, é já considerada uma das maiores e melhores festas da Cultura do país, que abrange variadas áreas: a Literatura, o Artesanato, as Artes Performativas, a Música, as Artes Plásticas e a Gastronomia, atraindo milhares de visitantes pelo local aprazível em que se realiza, pela diversidade da oferta cultural, pela qualidade do programa de animação e pelo ambiente acolhedor.

Apresentações de livros, sessões de autógrafos, peças de teatro, sessões de poesia concertos, exposições e «24 horas culturais» são alguns dos atrativos da edição deste ano.

Uma Feira para valorizar a Cultura, a cidade do Mondego e o País!

«O dom da palavra», de Catarina Nunes de Almeida, na Feira do Livro de Lisboa

por Sofia Pereira

No próximo dia 28 de maio, será apresentado o livro infantojuvenil O dom da palavra, de Catarina Nunes de Almeida, com ilustrações de João Concha.

Catarina Nunes de Almeida é uma autora natural da cidade de Lisboa que tem dedicado a sua atividade literária à escrita de poesia. Com O dom da palavra, uma publicação da Não Edições, estreia-se na literatura para crianças e jovens, criando «uma espécie de poema contínuo, escrito sob a forma de diálogos», como refere.

A iniciativa, inserida no programa cultural da Feira do Livro de Lisboa, que decorre no Parque Eduardo VII, terá lugar no Stand BLX, pelas 18 horas, e a apresentação estará a cargo de  Ana Tecedeiro, com momentos de leitura por Cátia Sá.

Um momento que promete ser agradável e divertido! Mais uma sugestão de um livro para oferecer e/ou para ler com os mais novos.

Dia Mundial do Livro: escritores e ilustradora sugerem a leitura de livros

por Sofia Pereira

Hoje é o Dia Mundial do Livro!

A data, assinalada desde 1996 e por decisão da UNESCO, foi escolhida com base na lenda de S. Jorge e o Dragão, adaptada para honrar uma velha tradição catalã segundo a qual, neste dia, os cavaleiros oferecem às suas damas uma rosa vermelha de S. Jorge e, em troca, recebem um livro. Simultaneamente, presta-se homenagem à obra de grandes escritores, como Cervantes e Shakespeare, falecidos exatamente em abril de 1616.

Para assinalar a data, a Fábulas convidou escritores e ilustradores a sugerirem a leitura de um livro, apenas um, e a justificar o motivo da sua escolha:

Catarina Gomes, Ilustradora

O dariz, Olivier Douzou, Editora Cosacnaify

«Inspirado num conto satírico do escritor russo Nikolai Gógol, O dariz de Olivier Douzou é um livro que conta, de uma forma genial, a história de um nariz que procura um lenço para se assoar. Escolhi-o porque foi dos poucos livros que me convenceu pela lombada/título. Depois de pegar nele, a ilustração da capa convenceu-me ainda mais e quando o abri para ler a primeira página, não lhe tirei mais as mãos de cima, porque soube que ele tinha de vir comigo para casa. Talvez o facto de eu ter a voz um pouco anasalada, tenha ajudado. Começa assim (ler em voz alta): “Guando agordei esta banhã / esdava gombletamente endupido. / Zaí bra domar ar.” Recomendo-o para qualquer faixa etária.»

(c) Miguel Alves
Catarina Nunes de Almeida, Escritora

Cândido ou O Optimismo, Voltaire, tradução de Rui Tavares, ilustração de Vera Tavares, Tinta-da-China

«A minha escolha vai para um dos livros que marcou, pela sua intemporal frescura, imprevisibilidade e lucidez, a fase final da minha adolescência. E são vários os aspectos que sublinho desse primeiro contacto com o romance de Voltaire – o mais evidente de todos foi, sem dúvida, a dimensão caricatural da obra. Voltaire expõe-nos, com um humor e uma imaginação brilhantes, uma série de tipos humanos que, servindo de espelho da sua época, não deixam de se fazer presentes nos nossos dias. A adolescência é o tempo de procurar respostas para uma série de contradições da vida humana que esta narrativa expõe com profunda inteligência. É o tempo de afirmação da liberdade individual, mas também de descoberta dos valores fundamentais da sociedade, temas escavados até ao osso nas alegorias iluministas. Há perguntas fundamentais sobre injustiça, ignorância, fanatismo a que alguma literatura nos permite aceder e que nunca mais se devem calar dentro de nós. Confesso que o facto de saber que se tratava de uma obra que, à época, não pôde circular senão clandestinamente, aguçou ainda mais o desejo de leitura. Herói de impensáveis façanhas, Cândido leva-nos aos extremos do compadecimento e do riso, da revolta e da aceitação, do repúdio e do espanto. Como esquecer a sua bem-amada Cunegundes, os filósofos Pangloss e Martin, a passagem por uma Lisboa que se ergue a todo o custo do terramoto, o encontro do mítico Eldorado e todo o novelo de infortúnios e desventuras “no melhor dos mundos possíveis”? Esta obra é puro deleite – e a edição ilustrada da Tinta-da-China veio refinar ainda mais o prazer que é revivê-la.»

 Maria Francisca Almeida Gama, Escritora

«O livro que hoje vos recomendo chama-se Madalena e foi escrito por mim, há cerca de seis meses, após o falecimento do meu pai. Fala sobre a saudade, a dor, sobre o facto de termos que aprender a lidar com a perda. Também fala sobre os sonhos, sobre a alegria, sobre o amor. É um livro que demonstra o quanto anseio por chegar mais longe e em como, apesar da dor que sinto, me esforço para ser cada vez melhor, orgulhando sempre o meu querido pai. »

Patrícia Ervilha, Escritora

O Principezinho – O Grande Livro Pop-Up, Antoine de Saint-Exupéry, Editorial Presença

«Tendo que escolher um livro infantil, não hesitaria na edição O Principezinho – O Grande Livro Pop-Up por Antoine de Saint-Exupéry, da Editorial Presença. O Principezinho é um livro essencial e um livro que atravessa a nossa própria existência. Faz sentido aos 2 anos, como faz aos 92. Esta edição é extraordinariamente bonita e apelativa. Tem o embondeiro mais inesquecível da literatura. Neste caso, a minha escolha vale pelo conteúdo eterno e também muito pela forma.»

(c) Ricardo Graça
Paulo Kellerman, Escritor

Contos de cães e maus lobos, Valter Hugo Mãe, Porto Editora

«O livro que sugiro é Contos de cães e maus lobos, de Valter Hugo Mãe. Trata-se de um belo e cuidado livro que reúne diversos contos que podem ter vários níveis de leitura, de acordo com a idade dos leitores; apesar de em princípio ser destinado a jovens, será igualmente um livro fascinante para leitores adultos. É composto por onze contos que nos convidam simultaneamente a sairmos de nós e mergulharmos em nós, ora ternos ora duros, sempre enigmáticos e mágicos, por vezes arrebatadores. Cada um dos contos é acompanhado por ilustrações originais de diferentes artistas, o que confere a cada estória um imaginário e uma densidade muito concreta. Um livro que corresponde à definição que o próprio autor atribui ao que será um bom livro: aquele que tem “a capacidade de expressar algo que até ali estaria numa espécie de escuridão. A capacidade de colocar em discurso algo que podemos reconhecer, com que nos podemos identificar e que parece de alguma forma solucionar um problema nosso, mas que até ali ninguém tinha expressado daquela forma.”»

Boas leituras e Feliz Dia Mundial do Livro!

«Geronimo Stilton» e os valores extrarráticos

por Sofia Pereira

Geronimo Stilton é uma coleção de livros de literatura infantil e juvenil, publicada pela Editorial Presença, em Portugal. Em 2001, foi distinguida com o Prémio Andersen e, um ano depois, conquistou o eBook Award como melhor livro eletrónico infantojuvenil.

Muitos são os leitores – crianças e jovens – que têm um enorme fascínio pelas fantásticas aventuras da personagem Geronimo Stilton, um ratinho que vive na Ratázia, uma ilha em forma de queijo, situada no Oceano Rático Meridional. Formado em Ratologia da Literatura Rática e em Filosofia Arqueorrática Comparada, é diretor há já vinte anos do jornal Diário dos Roedores, fundado pelo seu avô Torcato Viravolta. Aventureiro nato, cativa a simpatia de quem lê as suas histórias, pela sua extraordinária capacidade de transformar as adversidades e fraquezas em grandes êxitos. Nos tempos livres, Stilton gosta de colecionar cascas antigas de Parmesão do século XVIII, jogar xadrez e, sobretudo, adora contar histórias a Benjamim, o seu sobrinho preferido.

As aventuras vividas por este famoso rato, acompanhado por Benjamim, são incríveis e estão recheadas de muitas surpresas, que transmitem importantes valores para o desenvolvimento pessoal, social e intelectual das crianças e dos jovens:

Importância da família e dos amigos
A família é o porto de abrigo de Stilton, é a força que dá sentido à sua vida e é a luz que o ilumina nos momentos de maior consternação. Não há problema que abale as relações familiares, o seu alicerce emocional. Os amigos, igualmente fundamentais para Geronimo, são seus protegidos e festejam todas as suas vitórias, no final de cada aventura difícil e perigosa. Estar rodeado da família e dos amigos fá-lo sentir-se bem consigo próprio e feliz.

Altruísmo e resiliência
Geronimo mostra estar sempre disponível para ajudar os outros e tem uma capacidade extrema para aceitar e superar os obstáculos com que se depara, mantendo uma atitude otimista e não se deprimindo nas situações mais tristes.

Multiculturalismo, solidariedade e respeito pelos outros
Stilton vive numa sociedade multicultural, demonstrando curiosidade e espírito de descoberta pelas tradições de outras culturas. Tem consciência da importância do respeito, da paciência e da aceitação dos defeitos dos outros, e sabe que a igualdade entre todos/as é uma ferramenta crucial para a harmonia social.

Coragem e espírito de iniciativa
Os livros da coleção de Geronimo Stilton ensinam as crianças e os jovens que só as lutas que requerem sacrifícios poderão levar a finais felizes. Neste sentido, é necessário enfrentar as adversidades da vida e os medos, com força e ânimo, pois só assim se conseguirá obter o sucesso desejado. É transmitida uma mensagem de esperança e fé, para que os leitores mais novos nunca percam a coragem nos tempos mais difíceis.

«Em vez de seres contra a guerra, defende a paz!»
A paz é bastante valorizada nas aventuras de Geronimo Stilton. As suas histórias não apelam a comportamentos agressivos e desviantes, nem recorrem ao uso de palavras impróprias; pelo contrário, a ideia de que nos espera um futuro belo e feliz é a mensagem transmitida.

Histórias repletas de aventura e animação para oferecer e/ou ler aos/com os mais novos!

Título da coleção: Geronimo Stilton
Autor: Geronimo Stilton
Editora: Presença

«A Ilha dos Diabretes» ensina a ter uma vida mais saudável

 
por Sofia Pereira

Hoje é o Dia Mundial da Saúde, promovido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que este ano dedica especial atenção ao tema da diabetes, considerada já uma das doenças do século XXI.

A diabetes afeta, cada vez mais cedo, crianças, jovens e adultos e, desta forma, torna-se fundamental uma sensibilização ativa, prevenindo para os riscos desta epidemia, as causas e os possíveis tratamentos.

Todos conhecemos algum familiar e/ou amigo que, diariamente, lida com esta doença tão comum. Os livros, pelo seu caráter lúdico, pedagógico e mobilizador, são meios essenciais para consciencializar, desde tenra idade, os pequenos leitores para a importância de uma alimentação saudável, que previne algumas doenças e contribui para a adoção de um estilo de vida mais saudável.

Por isso, hoje, apresentamos aqui a sugestão de leitura da história A Ilha dos Diabretes que, através das aventuras de duas personagens – o João e a Maria – ensina os leitores mais novos a terem uma alimentação saudável, associada à prática do exercício físico, trazendo mais energia às suas vidas e tornando-se mais dinâmicos, fortes e saudáveis.

Título: A Ilha dos Diabretes
Autores: Carla Maia de Almeida, Cristina Cunha Cardoso e Pedro Borrego
Ilustrações: João Fazenda
Edição: Pato Lógico e Ordem dos Farmacêuticos

«O título A Ilha dos Diabretes integra a colectânea de livros da Geração Saudável, com várias temáticas de reconhecida importância para a Saúde Pública e com um público-alvo diferenciado entre as várias faixas etárias dos jovens. Este livro é uma co-edição da Ordem dos Farmacêuticos e do Pato Lógico, com o apoio da Novo Nordisk (no âmbito da iniciativa Changing Diabetes), do Programa Nacional para a Diabetes da Direcção-Geral da Saúde e da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM).»

A literatura de tradição oral

por Sofia Pereira

«A literatura da tradição oral portuguesa deve ser devidamente valorizada, dando-lhe uma dimensão nacional.»
Graça Capinha

A literatura tradicional de transmissão oral faz parte do nosso património imaterial. É inegável o seu valor literário, cultural e social, por isso torna-se importante incentivar as crianças e os jovens dos dias de hoje a lerem e conhecerem estes textos.

Pese embora o facto de a literatura de tradição oral já não cumprir o seu objetivo primordial – preservar os costumes, a cultura e a tradição de uma determinada comunidade -, certo é que integra a nossa memória coletiva como recriação simbólica de um espaço-tempo, que deve ser objeto de leitura e conhecimento, valorizando-se social e culturalmente.

Estes textos, perpetuados ao longo dos séculos de geração em geração, assumem uma função socializadora, pedagógica e lúdica pois, através de jogos de palavras e de uma coesão social, é apreendido o conhecimento cultural e social de outrora.

A literatura de tradição oral inclui um diversificado repertório:

Lendas e contos

Contos e Lendas de Portugal, adaptação de Isabel Ramalhete e João Pedro Mésseder, Porto Editora

«Eis uma mão-cheia de contos e lendas de Portugal e de outras regiões do Mundo: de Angola, Moçambique, Timor, Espanha, França, Alemanha, do povo cigano e até do mundo árabe. Histórias para ler, reler e contar. Um nunca acabar de modos de encantar, de ter graça, de emocionar e de transmitir ensinamentos.»

Contos Tradicionais do Povo Português,  seleção de Teófilo Braga, Porto Editora

«Histórias de reis, príncipes, condes, cavaleiros, sargentos, mágicos, meninas feias, meninas bonitas, sapateiros, ermitões, velhinhas, ladrões, fadas, anões, bois, galinhas, lobos, baratas… Histórias ricas em ensinamentos seculares e, como árvores, com raízes tão profundas que ajudam a conhecer e compreender a identidade da cultura portuguesa.»

Fábulas

As Mais Belas Fábulas de La Fontaine, Jean de La Fontaine, ilustrações de Gauthier Dosimont, Civilização Editora

«35 fábulas que vão deliciar as crianças mais pequenas. O Leão e o Mosquito, O Lobo e o Cordeiro, A Lebre e a Tartaruga e A Cigarra e a Formiga são alguns dos títulos que este livro apresenta, de uma forma mais sucinta e acompanhado por ilustrações de Gauthier Dosimont.»

A Raposa Azul – Oito Histórias Tradicionais com Mensagens Universais, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, ilustrações de Ana Afonso, Editorial Caminho

«Quem ler histórias inventadas há séculos, e que foram passando de boca em boca, de pais para filhos, de avós para netos, descobre rapidamente que, por trás de personagens e lugares diferentes, se encontram mensagens comuns. A razão é simples. A humanidade é só uma e os seres humanos, quer vivam no campo ou na cidade, na montanha ou na planície, numa região desértica ou na selva, têm preocupações, sonhos, desejos e alegrias muito semelhantes.»

Rimas Infantis e Poesia Popular

Rimas Perfeitas, Imperfeitas e Mais-Que-Perfeitas, de Alice Vieira, ilustrações de Afonso Cruz, Texto Editora

«Lê este álbum e verás que não há dois poemas iguais. Uns têm mais humor e ironia, outros melancolia, e para cada poema foi escolhido um determinado tempo verbal. Consegues identificá-los? Presente, Futuro, Gerúndio, Imperativo, Pretérito Perfeito, Imperfeito e Mais-Que-Perfeito.»

Travalengas, de José Dias Pires, ilustrações de Catarina Correia Marques, Booksmile

«Se já conheces de cor consoantes e vogais, ditongos, acentos, sinais, para o que preciso for: não temas os trava-línguas, desafia as lengalengas, para que em qualquer altura não te atrapalhem a leitura, e verás que, sem favor, quem ganha sempre é o leitor.»

Adivinhas

Adivinha, adivinha, recolha e seleção de Luísa Ducla Soares, ilustrações Sofia Lucas, Livros Horizonte

«Há milhares da anos que existem adivinhas, que têm feito rir e pensar muitas gerações de adultos e crianças. Já se perdeu a memória de quem as inventou, e são hoje um tesouro da nossa cultura, que não pára de crescer porque há sempre gente imaginativa que o vai acrescentando. Escolhemos para vocês estas 150 adivinhas, que se referem a coisas que todos conhecem, para que descubram a solução sem o auxílio dos mais crescidos. Leiam com atenção, puxem pela cabeça, vejam se acertam. Os desenhos ilustram as soluções de muitas adivinhas mas, para ser mais divertido, não estão na mesma página.»

Adivinhas com Bicho, de Maria Teresa Maia Gonzalez, Pi

«Aqui encontrarás muitas adivinhas engraçadas sobre os mais variados animais.Um livro divertido onde podes testar os teus conhecimentos sobre o mundo animal e brincar às palavras com os teus familiares e amigos da escola.»

Provérbios

Provérbios de Sempre, de Zero a Oito, Zero a Oito

«Um livro com histórias divertidas que ajudam a perceber alguns dos provérbios mais ouvidos da nossa tradição. A não perder! Quem o avisa, seu amigo é!»

9789727312085

Provérbios e Adágios Populares, de Cláudia Vieira, Planeta Editora

«Se o sol quando nasce é para todos, acautele-se que ao minguar da lua não comece coisa alguma, acredite que, quem semeia ventos, colhe tempestades e, em terra de cegos quem tem olho é Rei pois, viver não custa, o que custa é saber viver. Em nome do património literário popular, Provérbios e Adágios Populares concede-nos uma viagem a tempos antigos, à morada da humanização de hábitos, conselhos e práticas esquecidas para bem governar a vida. O livro justifica-se pela virtude de recuperar a consciência tradicional no espaço lusófono, no sentido de combater a marginalização da linguagem criativa do povo que está enraizada numa sabedoria que se traduz pela perspicácia, simplicidade, bom-senso, experiência e humor. Reunimos neste livro milhares de provérbios ordenados por letras, por temas e actividades, santos e religião e por estações do ano ou meses do ano, facilitando a consulta por todos e, sobretudo, pelos alunos do primeiro e segundo ciclos.»

A leitura e o estudo dos textos da tradição oral contribuem não só para o desenvolvimento das competências literárias e para a socialização das crianças e dos jovens, como também para uma maior dignidade deste tipo de literatura.

Sete estratégias de incentivo à leitura das crianças e dos jovens

por Sofia Pereira

«Hoje, uma das tristes realidades é que pouquíssimas pessoas, em especial jovens, lêem livros. A menos que encontremos formas imaginativas de resolver esse problema, as futuras gerações arriscam-se a perder a sua história.»
Nelson Mandela

1. Facilitar o acesso aos livros
Ir a bibliotecas, livrarias, encontro com escritores e sessões de apresentação de livros poderá ser uma excelente opção.

2. Ler em companhia
A leitura com outras pessoas – familiares, amigos ou colegas – poderá transformar-se num bom e agradável momento de interação e de partilha de ideias. Além disso, o exemplo dos mais velhos e a paixão que estes manifestam pelo universo dos livros será, sem dúvida, uma motivação para que as crianças e os jovens desfrutem, igualmente, dessa atividade.

3. Nem todos os livros são literatura
Se o objetivo é incentivar a criação de hábitos de leitura, torna-se crucial ter em atenção que nem todos os livros têm a mesma finalidade: há livros para colorir, sopas de letras e crucigramas, entre outros. É importante saber escolher o(s) livro(s) adequado(s) e próprio(s) para cada leitor.

4. Saber o que ler
Sugerir a leitura de um simples texto ou de uma obra, com algumas breves recomendações, poderá ser um bom guião que ajudará a compreender o texto pois, dessa forma, as crianças e os jovens já estão familiarizados com a história, apreciando-a melhor e sentindo o ato de ler como uma necessidade da sua vida.

5. Ler sem obrigação
Criar espaço e tempo de leitura, mas através da motivação e nunca impondo a leitura de um livro é a melhor forma de incentivo.

6. Direito a não ler
É necessário nunca esquecer que todos temos o direito a não terminar a leitura de um livro, quando não gostamos da história ou simplesmente não nos prende a atenção.

7. Estimular a capacidade cognitiva
Livros ilustrados ou de banda desenhada despertam a criatividade e a imaginação.

Maria Inês Almeida, de jornalista a autora de livros infantojuvenis

Maria Inês de Almeida

por Sofia Pereira

Maria Inês Almeida nasceu a 25 de fevereiro de 1978, em Lisboa. Jornalista de formação, pela Universidade Católica Portuguesa, iniciou a sua carreira literária com a publicação de Contos pouco políticos, uma coletânea de histórias escritas por políticos, passando depois a publicar livros infantojuvenis da sua autoria.

A Fábulas entrevistou a escritora. Maria Inês Almeida, muito atenta às manifestações da infância  – desde a educação à ocupação dos tempos livres dos mais novos – e aos valores sociais, fala-nos do seu percurso como autora de livros para a infância e juventude, do mundo das crianças e da sua paixão pelo universo das letras e da escrita.

Todos conhecemos a Maria Inês como jornalista, mãe e blogger. Apresente-se como escritora.
Não me considero muito capaz de um autorretrato. É melhor pedirem a alguém que leia os meus livros!

Como foi trocar uma carreira dedicada à área do jornalismo pela literatura?
A vida vai-nos colocando caminhos pela frente e vamos fazendo opções. Mas não sinto que tenha sido uma troca absoluta, de virar costas totalmente ao jornalismo. Fui muito feliz no meu trabalho enquanto jornalista e sou igualmente feliz no meu trabalho como autora de livros infantojuvenis. Sinto-me bem a escrever para os mais novos. As crianças não se esquecem de sonhar, e isso é encantador. Gosto de criar projetos que possam marcar de alguma forma.

Coração de mãe nunca se engana é um livro de amor, é «a história da vida que todos os dias liga uma mãe a um filho». O José é a maior inspiração da sua vida?
Vamos sempre buscar inspiração a muitos lados. Procurando estar atenta às coisas e aos sinais que a realidade transmite, as ideias surgem naturalmente. Mas, sim, é verdade que encontro no meu filho uma grande fonte de inspiração. Por exemplo, o Quando Eu For… Grande partiu de uma ideia que o José, sem saber, me deu, por andar sempre a perguntar: «Quando eu for grande posso comer todas as pastilhas? Quando eu for grande vou saber onde está a porta da praia?». Para mim, neste projeto que são os livros, tudo se resume mais ao sentir e à intuição.

É inegável a sua paixão pela escrita de livros para crianças. Considera que a maternidade teve influência na escolha do seu registo?
Despertou-me ainda mais para isso, sim.

A Maria Inês escreveu três livros cujo protagonista da história tem o nome do seu filho: José. Podemos ver neles um retrato das suas traquinices e birras próprias da idade?
Não necessariamente. Na história José, come a sopa, este José não gosta de sopa… mas passa a gostar. O meu filho, por exemplo, sempre gostou de sopa (tenho sorte nesse aspeto).

«Um político é um pássaro com muitas cores». Foram estas as palavras genuínas de uma criança que a motivaram a abraçar o projeto Contos pouco políticos. Na sua opinião, é fácil falar sobre política às nossas crianças? Qual considera ser a melhor explicação para leitores tão pequenos?
Quando iniciei esse projeto ainda não era mãe, mas já era atenta às manifestações da infância. Claro que na cabeça  desta criança aquele político existiria tal como ela o descrevia. A minha preocupação com esse livro não foi tanto falar de política a crianças, mas sim aproximá-las dos políticos, para lhes mostrar uma faceta diferente, para lá da pose circunspeta, do discurso grave e das roupas cinzentas que estão habituadas a ver pela televisão. Queria que as crianças soubessem que nos políticos, à parte a sua função, pode permanecer uma dimensão de sonho e imaginação.

A aventura admirável de Malala é um livro que relembra, acima de tudo, os direitos das crianças, independentemente da raça, da religião, do sexo ou da origem social. Malala, pela sua coragem e resiliência, é um exemplo que deve estar presente na vida de todos, de modo a evitar que as crianças sejam desrespeitadas e/ou esquecidas?
Sim, e que todos os jovens se sensibilizem para a causa de Malala. Que todas as mulheres usufruam de liberdade e que todas as meninas possam ir à escola. Falar de Malala nos meios de comunicação é normal e importante, mas são coisas que às vezes se esquecem depressa. Haver um livro que também pode chegar a escolas, às famílias, pode ser igualmente determinante. O exemplo de Malala é encorajador para as crianças de todo o mundo.

Sabes que também podes ralhar com os teus pais? é uma história de afeto que ensina as crianças a não serem submissas. Defende a ideia de que, na relação diária com os pais, os filhos devem ter uma atitude assertiva, sem quebrar os laços de amor que os unem. Considera que é no ambiente familiar que se inicia o desenvolvimento das crianças enquanto cidadãos responsáveis, sociais, proativos e altruístas, sendo os pais os alicerces dessa educação, preparando-as para uma melhor vida adulta que as ajude a superar as adversidades e frustrações?
Nos livros Sabes que também podes ralhar com os teus pais? e Sabes onde é que os teus pais se conheceram?, o objetivo era promover o diálogo entre Pais e Filhos. Foi promover a pergunta. E a resposta. Acho que o futuro depende da maneira como formamos e educamos os nossos filhos, e por isso faço votos para que todos os que temos essa responsabilidade não nos esqueçamos disso. O primeiro livro corresponde a uma tentativa de levar as crianças a perceberem que têm direito a dizer do que gostam e do que não gostam. É até uma forma de crescer na responsabilidade. Mas é evidente que há modos de dizer as coisas.

9789897070181

Sabes onde é que os teus pais se conheceram? e Quando eu for… Grande são dois títulos que figuraram na lista «100 livros para o futuro», apresentada por Portugal como convidado de honra na Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha, em 2012. Como encarou esse reconhecimento?

Sabe sempre bem. Mas o trabalho continua.

   9789726508694    9789726509134

Amália Rodrigues, Almeida Garrett, Michael Jackson, Amélia Rey Colaço e Almada Negreiros fazem parte da coleção juvenil de biografias «Chamo-me…». Por que razão escolheu estas figuras da História? Há alguma biografia que ainda queira escrever?
São figuras interessantíssimas, cada uma à sua maneira. Merecem que, acerca delas, se transmita às crianças informação e conhecimento. Há sempre muitas figuras interessantes.

Em criança, sonhava ser alguma personagem literária?
Que me lembre, não.
9789720725264

Em parceria com Joaquim Vieira, é autora da coleção juvenil «Duarte e Maria», que já conta com seis volumes. Como surgiu este projeto?
O ponto de partida foi a nossa amizade. Depois de descobrirmos que, por coincidência, ambos tínhamos escrito biografias sobre as mesmas figuras (Almada Negreiros, Amália Rodrigues, por exemplo), o Joaquim para gente crescida, eu para jovens, achámos que valia a pena tentarmos um projeto comum de escrita. E assim nasceu a coleção «Duarte e Marta», proposta que a Porto Editora aceitou publicar. No ano passado, durante cinco semanas, um resumo do primeiro número da coleção foi oferecido com o Happy Meal da Mc Donald’s, o que nos deixou muito satisfeitos.

Conte-nos uma situação vivida num encontro com os pequenos leitores e tenha sido particularmente especial.
Todas as idas às escolas são especiais. Desde as histórias que eles também contam às perguntas que colocam ou até aos maravilhosos trabalhos que fazem e oferecem sobre os livros que leram.

Por que razão as crianças devem ler os seus livros?
As crianças só devem ler os meus livros se lhes apetecer. Mas a minha esperança é que com eles sintam que viajam e que sonham.

Onde e quando é que gosta mais de escrever?
Em casa, sossegada. De manhã.

Sabemos que todos os escritores têm os seus autores de referência. Têm também livros que, num momento da vida, voltam a reler ou permanecem na mesinha de cabeceira. Quais são os seus?
Uma pilha deles.

Podemos esperar a publicação de um novo livro para breve?
Sim. Mas não gosto de falar de novas edições antes do tempo.

Mais informações sobre a escritora aqui e aqui.