Category Archives: ANA RAMALHETE

Leituras para as Férias Grandes de… Ana Ramalhete

Cinco livros para as férias. Cinco livros para levar para a praia, para o campo, para a montanha ou para folhear em casa. Cinco livros para ler depressa ou devagar. Cinco livros para saborear!

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Quero um abraço, de Simona Ciarolo, tradução de Rui Lopes

Filipe é um cacto pequenino que se sente sozinho e a precisar de um abraço, mas a sua família é indiferente e insensível aos seus sentimentos. Decide, então, procurar quem também esteja a precisar de um bom abraço e vai  mesmo encontrar!

Porque todos precisamos de afecto e de abraços (até os seres que picam); porque nas férias há (ainda) mais tempo para abraçar; porque quando terminamos a leitura deste livro, cada vez que olhamos para um cacto, não vemos só os picos, também nos lembramos do Filipe e pensamos em abraços.

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Inventário ilustrado das árvores, texto de Virginie Aladjidi, ilustração de Emmanuelle Tchoukriel e tradução de Ana M. Noronha

Este livro é um compêndio interdisciplinar recheado de aspectos científicos, ecológicos e simbólicos. Apresenta cinquenta e sete espécies de árvores de todo o mundo, divididas em três: folhosas, coníferas e palmeiras. Cada árvore apresenta uma ficha técnica com o seu nome comum, o nome científico, a altura, longevidade, origem da espécie, bem como outras curiosidades.

Um livro profusamente ilustrado, com imagens naturalistas e minuciosas das árvores, e das flores, dos frutos e dos animais que nelas se podem encontrar. Um livro para levarmos para a floresta ou para nos acompanhar na descoberta da variedade de árvores que vive à nossa volta e da qual pouco conhecemos.

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A cozinheira do rei, de Soledad Felloza, ilustrações de Sandra de la Prada, tradução de Elisabete Ramos

A letargia do rei impedia-o de pensar na resolução dos problemas que atingiam o seu reino. Preocupados, os sábios aconselham-no a mudar de hábitos e a iniciar uma dieta alimentar. Como tal, abrem uma vaga para o lugar de cozinheiro real, à qual se candidatam inúmeros cozinheiros entre os quais uma jovem cozinheira, Alvarinha, que, ignora o facto de o edital pedir um cozinheiro masculino e prepara uma refeição que vai despertar o rei da sua tristeza. Qual será o seu segredo?

Esta é uma história de amor e de sabor. Uma história que nos faz pensar na importância de fazermos tudo com dedicação e empenho, até a comida. É também um bom pretexto para levarmos as crianças para a cozinha e ensiná-las a preparar receitas apetitosas que fazem parte das nossas memórias, de sabores e de emoções.

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O Soldado João, de Luísa Ducla Soares, ilustrações de Dina Sachse

O soldado João foi parar à guerra mas não queria, nem sabia, fazer a guerra “Vinha de sachar milho, de regar cravos, de semear couves e manjericos” e tornou-se ” a vergonha dos batalhões. Trazia uma flor ao peito, punha as mãos nas algibeiras, coçava o nariz, não acertava o passo. E, para cúmulo, assobiava modinhas da sua aldeia.”

Luísa Ducla Soares escreveu este conto, sobre a guerra colonial, em 1971, para ser publicado no suplemento do Diário Popular, “Sábado Popular”, mas foi cortado pela censura e não chegou a sair com o jornal. Foi editado, no ano seguinte, pela editora Estúdios Cor, orientada por José Saramago.

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Este chapéu não é meu, de Jon Klassen, tradução de Rui Lopes

Um peixe pequeno decide roubar um chapéu a um peixe enorme, que está a dormir, acreditando que este não vai dar pela falta do chapéu nem vai descobrir quem lho tirou. Pelo sim, pelo não, decide fugir para um lugar secreto, com plantas altas e pouca visibilidade, onde tem a certeza de não ser encontrado. Será?

Uma história plena de humor, de ternura, de subtilezas e de enigmas. Ao mesmo tempo que o narrador, o peixe, vai descrevendo a sua aventura, o leitor vai assistindo ao desenrolar de acontecimentos paralelos, contados pelas imagens,  criando-se assim, duas histórias opostas. Ao longo do livro, ficamos imediatamente cativados pelo pequeno peixe e quando a leitura terminar e olharmos para o mar de certeza que vamos procurá-lo nos cardumes que passam à frente dos nossos olhos. Estará com o chapéu?

Na biblioteca de Laura e Maria

por Ana Ramalhete

Porque em Abril se comemora o Dia Internacional do Livro Infantil, e porque gostamos de saber o que pensam as crianças e o que têm nas suas bibliotecas, entrevistámos duas meninas: a Laura, de dez anos, e a Maria, de nove. Conversámos sobre livros, histórias e imagens. Obrigada, Laura e Maria!

Fábulas – Têm algum livro preferido? Porquê?
Laura – Tenho, O livro que explica tudo sobre os pais. Porque fiquei a saber coisas que ainda não sabia.
Maria – Tenho, o Diário de um Banana. Porque acho uma história muito engraçada.

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Fábulas – Qual foi o último livro que leram?
Laura – O meu preferido.
Maria – Também foi o meu preferido.

Fábulas – Num livro, o que preferem? O texto ou as ilustrações?
Laura – As ilustrações, porque nos permitem ler o livro por imagens, ou seja mostra-nos uma composição de arte.
Maria – O conjunto dos dois, texto e ilustração.

Fábulas – Há algum livro em que gostam do texto, mas não gostam das ilustrações?
Laura – Há, Uma flor chamada Maria, de Alves Redol.
Maria –  Há, O Principezinho.

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Fábulas – E há algum livro em que gostam das ilustrações, mas não gostam do texto?
Laura – Sim, Novas histórias de princesas e fadas.
Maria – Sim, Princesas esquecidas ou desconhecidas.

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Fábulas – Apreciam imagens a preto e branco?
Laura – Não, porque não nos permite ver as coisas como elas são realmente.
Maria – Sim, porque mostra uma imagem como era antigamente.

Fábulas – Antes de adormecer, gostam mais de ouvir ou de ler uma história?
Laura – Gosto mais de ser eu a ler.
Maria – Também gosto mais de ser eu a ler.

Fábulas – As histórias para adormecer têm de ser especiais?
Laura – Têm, pois tenho medo de certas histórias.
Maria – Não.

Fábulas – Ultimamente, qual foi o livro que leram mais vezes?
Laura – Quem mexeu no meu queijo.
MariaO meu diário top secret – Em digressão pela América.

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Fábulas – Qual é o livro que não têm, mas gostavam de ter?
LauraRomeu e Julieta e Os Maias.
MariaVerão e Romeu e Julieta.

Fábulas – Chegámos ao fim da entrevista. Obrigada pelas respostas!
Laura – Nunca tinha sido entrevistada.
Maria – Eu também não.

Paixão pelo livro

Ilustração de Jimmy Liao in «El sonido de los colores»
Ilustração de Jimmy Liao in «El sonido de los colores»
por Ana Ramalhete

Podemos escolher um livro por questões emocionais: sensibilidade, atracção, identificação, conhecimento, afeição; por questões gráficas: ilustração, textura, composição, padrão, forma, coerência; por questões literárias: texto, língua, conteúdo, estilo, originalidade; por questões práticas: preço, disponibilidade, oportunidade, acessibilidade; ou por questões inadiáveis, como a urgência do amor ou o apelo irresistível da paixão.

Ilustração de Jimmy Liao in «La noche estrellada»
Ilustração de Jimmy Liao in «La noche estrellada»

Quando as capas chamam por nós
Quando as guardas nos contam histórias
Quando o título nos acerta no coração
Quando sustemos a respiração ao olhá-lo
Quando queremos deslizar a mão pela capa
Quando não sabemos o porquê de tanta exaltação
Isso é paixão
Paixão pelo livro!

Ilustração de Jimmy Liao in «El sonido de los colores»
Ilustração de Jimmy Liao in «El sonido de los colores»

Sara, uma escritora rara

por Ana Ramalhete

Sara Monteiro é uma escritora com vários livros publicados na área da literatura para a infância e juventude.

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Na sua obra, as personagens têm características que as tornam únicas e inesquecíveis. Seja uma princesa peluda que quer governar o reino de seu pai (A princesa que queria ser rei), um príncipe excessivamente tímido que usa uma máscara (O príncipe perfeito), uma mãe que convive com seres estranhos (Cartas de uma mãe à sua filha) ou uma lebre preocupada com o equilíbrio ecológico (A lebre e o raminho de salsa), nenhuma nos deixa indiferente. Pelo contrário, ficamos sempre com vontade de as reencontrar e ansiamos por descobrir quem serão e como serão as próximas.

Sara respondeu a dez perguntas, uma sobre cada livro editado. As suas respostas fazem-nos sorrir, refletir e conferir que a Sara é mesmo uma escritora rara!

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Como surgiu a ideia deste título?
Estas meninas que se perdem dentro de um prédio são uma espécie de D. Quixote: veem o que não está lá, o que imaginam. Como o Cavaleiro da Triste Figura que via gigantes onde havia moinhos, elas veem florestas, praias e jardins em cada casa onde entram.

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Uma atitude diferente pode ser transformadora do eu e do outro?
Penso que sim. Uma atitude e uma postura diferentes levam a ações inesperadas e inabituais que por sua vez se repercutem até ao infinito. Por causa da postura de alguém, outros podem mudar, e mudando, algo de novo acontece. Neste caso, pelo menos foi assim que o desejei e criei: o príncipe, um ser especial, precursor de uma sociedade nova.

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As princesas já se emanciparam?
Mais ou menos. Estão mais em vias de se emanciparem. Cada dia um passo em frente, mas ainda faltam muitos passos, apesar do já longo caminho percorrido. E algumas princesas, como se sabe, ainda vivem encarceradas.

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A infância mora numa casa em cima de uma árvore?
Ah, claro! Mora perto do céu, por entre folhas e ramos, no meio dos pássaros e dos frutos. A infância mora ao pé do impossível e do sonho. Cria mundos, está sempre uns metros acima do chão para poder ver mais longe, mas também para se recolher e inventar com mais liberdade, sem os constrangimentos do dia-a-dia e sem a supervisão dos adultos. Hoje, mais do que nunca, as crianças precisam de uma casa na árvore, para se protegerem do olhar omnipresente dos adultos.

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As cartas ajudam a encurtar a distância e a suportar a separação?
As cartas de antigamente ajudavam a suportar a separação e as grandes distâncias. Hoje, as cartas foram substituídas por mails, sms, conversas via internet, telefonemas, mesmo para quem não está assim tão distante como isso. Mas é parecido: quando falta a presença física, pomos palavras que funcionam como pontes: daqui até lá, de nós até ao outro; e de lá para cá e do outro para nós.

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A vida no campo influencia a escrita?
Imenso. Quando fui morar para o campo, descobri os animais, foi uma festa! E embora na cidade haja convívio com vários deles, são de uma espécie diferente, domésticos. No campo, apesar de haver também os animais domésticos e os semidomésticos, há os outros que cruzam o mesmo espaço, mas que são livres, não pertencem a ninguém a não ser a eles mesmos e à natureza. Gostei muito de conhecer estes, encontrá-los nos meus passeios e fazê-los entrar nas histórias do bosque.

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As crianças precisam de super-heróis?
As crianças gostariam de ser elas mesmas super-heróis, ter poderes, transformar o mundo, a vida à sua volta, salvar quem precisa. Como são pequenas e fracas, mas ao mesmo tempo têm um apurado sentido de justiça, admiram quem consegue com os seus imensos poderes fazer tudo o que ela desejaria fazer mas não é capaz.

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Os animais podem ser felizes dentro de gaiolas?
Hum, pergunta difícil. Quem sabe o que os animais (coelhos, pássaros  ou outros) pensam? Lembro-me de um conto de Machado de Assis Ideias do Canário em que a ideia que o canário fazia do mundo ia mudando consoante o que ele via do sítio onde a sua gaiola ia sendo colocada (sempre mundos pequenos) até que finalmente, já fora da gaiola, define  o mundo como um espaço infinito e azul, com o sol por cima, já completamente esquecido dos mundos de antes. Ele ia sendo feliz em todos. Talvez seja assim com toda a gente e não só com os animais.

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O que há por detrás da linha da horizonte?
Um urso que quer aprender a ler? Monstros e perigos? A liberdade, a aventura? O desejo de conhecer? Amigos novos? Mistérios para descobrir e resolver? Nunca o saberemos a menos que nos aventuremos também.

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Júlia e a lebre são parentes de Alice e da Lebre de Março?
São primas, mas vamos lá definir melhor o parentesco. A lebre é prima-irmã da lebre de Março, se não mesmo a própria lebre de Março, e Júlia uma prima afastada de Alice, e prima-irmã de Delfina e Marina, duas irmãs que vivem numa outra quinta, personagens criadas pelo escritor francês Marcel Aymé.

Sara Monteiro nasceu em Lisboa, onde vive atualmente. Tem formação na área de Educação pela Arte e toda a sua atividade tem sido relacionada com a escrita. O primeiro livro publicado foi uma história para a infância intitulada As Meninas de la Mancha. Outros se seguiram, tendo o último sido publicado na Caminho: A Lebre e o Raminho de Salsa. ateliers de leitura e escrita criativa em escolas, estabelecimentos prisionais e bibliotecas. Foi coordenadora editorial na Fundação Odemira e subdiretora da revista Arte Musical. É cofundadora do grupo de teatro 3 em Pipa, para a qual escreveu textos, tendo sido levadas à cena, da sua autoria, as peças O Fantasminha e a Baleia e Um Coração Perfeito. Para além dos livros publicados, tem colaboração dispersa em revistas e antologias. Desde 2013 dedica-se também à joalharia.

Vamos todos ao museu!

«A arte, de facto, expressa sempre sentimentos da infância.»
Leo Lionni

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por Ana Ramalhete

No livro O Museu, de Susan Verde, uma menina descreve as diferentes sensações e emoções que a contemplação de cada obra de arte lhe provoca, enquanto se movimenta, inquieta e divertida, ao longo de um passeio pelos vários espaços de um museu. Esta menina e este museu não têm nome, suscitando uma imediata identificação do leitor com a protagonista e com o espaço.

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O texto é simples, descomplicado e nasceu de um poema que a autora começou a criar para um dos seus filhos, durante a visita a uma exposição, em Nova Iorque. É um texto em aberto que permite desencadear outras narrativas ou qualquer outra continuação. É uma porta escancarada para conversas, pesquisas, leituras, desenhos (ou danças), sobre emoções, cores, artistas, obras de arte … tal como o quadro branco que a menina encontra no final da sua visita lhe suscita a visualização de objectos, situações, sentimentos e a criação de uma obra de arte, sua.

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As ilustrações de Peter H. Reynolds, executadas em aguarela, acrescentam alegria, expressividade e movimento, contrariando a ideia de que o museu é um local parado, sem vida e recriam obras de arte importantes, como, por exemplo:

Noite estrelada, de Van Gogh

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A primeira bailarina, de Degas

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O grito, de Munch

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Este livro é também um apelo e um convite para uma ida a um museu, e há tantos para visitar! Vamos todos ao museu!

Sobre os autores:
Susan Verde ensina yoga a crianças e vive em Nova Iorque. O sítio online da autora é aqui: www.susanverde.com. Peter Reynolds é ilustrador e vive no Massachusetts. O seu sítio oficial fica em www.peterhreynolds.com

Título: O Museu
Autor: Susan Verde
Ilustração: Peter H. Reynolds
Editora: Editorial Presença

O velho e o mar – do livro aos filmes

por Ana Ramalhete

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O velho e o mar, último livro publicado em vida por Ernest Hemingway, é uma narrativa literária de complexa classificação. Para uns, um conto, para outros, uma novela, para Jorge de Sena, um «breve poema em prosa, uma epopeia de simples trama, singelamente narrada» (Cf. Prefácio De Jorge de Sena in O velho e o mar, Edição Livros do Brasil, Lisboa, 1956 ).

O livro narra a história de um velho pescador, Santiago, que está a atravessar uma fase de pouca sorte na pesca, pois não apanhou nenhum peixe durante oitenta e quatro dias seguidos. Santiago tem um grande amigo, Manolin, um rapaz a quem ensinou a pescar, que foi seu companheiro de barco até os pais o proibirem de voltar para o mar com o velho. Este regressa à faina, sozinho, e enceta uma luta de vida e de morte para capturar um peixe enorme. Passa quatro dias em alto mar até conseguir capturar «o seu irmão peixe». Quando se sente triunfante, é atacado por tubarões que comem o peixe deixando apenas a carcaça. Santiago regressa derrotado e exausto, deita-se e dorme (ou estará moribundo?).

Da novela, publicada em 1952, fizeram-se duas adaptações para cinema e uma para televisão. O primeiro filme, realizado em 1958, dirigido por John Sturges e com interpretação de Spencer Tracy, durava oitenta e seis minutos. O telefilme foi realizado em 1990 por Jud Taylor, com a duração de noventa e dois minutos e o filme curto de animação foi produzido em 1999 por Alexander Petrov e tem vinte minutos. O primeiro não se encontra à venda e na internet está disponível, apenas, um vídeo de quatro minutos. Os outros dois podem ser visualizados, na totalidade, na internet.

O telefilme e o filme de animação  

O velho e o mar – filme para televisão, e O velho e o mar – filme de animação, são dois textos fílmicos criados a partir de um texto verbal: uma obra literária. Trata-se de dois exemplos de transcodificação intersemiótica em que é notória a interpretação de cada um, traduzida na apropriação distinta dos códigos dos diferentes sistemas semióticos.

Existe, no entanto, uma grande distinção entre os dois. No primeiro há a transposição de um texto literário para um texto audiovisual, concretamente um filme para televisão. No segundo essa transposição é feita em dois momentos distintos: do texto literário para o texto pictórico e em seguida, do texto pictórico para o texto audiovisual.

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Alexander Petrov executou pinturas em placas de vidro, feitas com os dedos e com pincéis e transpô-las para vinte e nove mil fotogramas. A transformação da situação inicial deu-se, assim, em dois suportes diferentes, cada um com os seus códigos próprios. Os signos verbais do livro foram transformados em signos materiais das pinturas que por sua vez foram transformados num texto hibrido, com imagem, som e música: do texto literário para o texto pictórico e em seguida, do texto pictórico para o texto audiovisual.

As imagens do filme de animação possuem uma grande qualidade estética e uma forte sensibilidade inerente. Poderiam não existir diálogos que o sentido da história seria apreendido da mesma forma. A própria utilização das cores transmite a mensagem desejada. A sucessão dos dias e das noites é dada pela paleta de tons escolhidos para o nascer e o pôr-do-sol. Os azuis do mar e do céu, não só se referem ao espaço físico, ou às condições meteorológicas, como também nos deixam perceber o estado psicológico das personagens. As cores vivas do final transmitem uma sensação de esperança no futuro, protagonizada na juventude do rapaz que corre.

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O resultado desta junção de signos diferentes materializou-se numa obra de arte onde «o signo mágico seduz e encanta» (Umberto Eco in A definição da arte). A intertextualidade é sempre intrínseca ao texto audiovisual, neste caso, é-o duplamente, pois o resultado final é um texto criado a partir de outro texto que por sua vez já foi criado a partir de outro texto.

As imagens do filme para televisão têm um cunho mais realista, onde a intensidade dramática é fortalecida através das aproximações da câmara e dos grandes planos.

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Apesar de ter apenas vinte minutos, o filme curto funciona como uma síntese da obra de Ernest Hemingway. Há um reconhecimento imediato desta por parte do espectador. No telefilme esse reconhecimento não é tão imediato e é interrompido pelas cenas e personagens introduzidas e não existentes no livro. Estas cenas pretendem, provavelmente, criar uma atenção acrescida e oferecer uma pluralidade de enunciados narrativos, com o objectivo de prender o telespectador ao aparelho.

No telefilme, a música funciona como um acompanhamento da imagem e da palavra escrita. É viva e dinâmica quando as cenas o são, é dramática e sentimental quando a situação o requere. É, toda ela, executada por uma orquestra. No filme de Petrov, a música é produzida com instrumentos, vozes, sons de animais: gaivotas, elefantes, leões, pássaros e sons do mar, dos remos a rasgar a água. Toda esta sonoridade contribui para criar um ambiente lírico e poético.

Os dois filmes representam uma recriação da obra inicial, distinta desta, que reflecte um outro olhar, uma outra leitura, mas que perpetua a sua dimensão existencial, filosófica e humana.

O filme de animação encontra-se aqui. O telefilme (The old man and the sea, de Jud Taylor) aqui.

Título: O Velho e o Mar
Autor: Ernest Hemingway
Tradução e Prefácio: Jorge de Sena
Editora: Livros do Brasil

 

A bailarina da terra e do mar

A dança nos contos para a infância de Sophia de Mello Breyner
por Ana Ramalhete

«Quando eu era nova, dançava sozinha em casa os versos que escrevia…»
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia dançava enquanto escrevia e escrevia enquanto dançava. Bailava com as personagens, deslizava com as palavras, rodopiava com as histórias. Dançava de noite quando a casa respirava silêncio, dançava de dia ao som da ventania.

Enquanto criança, inventava danças sozinha, enquanto adulta imaginava passos de dança e argumentos para bailados.

Sophia transmitiu a sua paixão pela dança nos contos que escreveu para o público infantil. Está presente em quase todos e surge associada à vida e à alegria. As personagens dançam quando estão felizes: «o rapazinho sentia-se tão feliz que às vezes punha-se a dançar em cima dos rochedos» (A menina do mar) e quando respiram liberdade: «vivia livre, alegre e feliz dançando nos campos, nos montes, nos bosques, nos jardins e nas praias» (A fada Oriana). O medo e a tristeza impedem a concretização do movimento. Quando se instalam fazem-no parar, bloqueiam quem o executa: «mas eu estava muito triste e por isso dancei muito mal» (A menina do mar).

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Nas histórias da autora de Os reis do oriente, a dança tem o poder de distrair: «O poeta sentou-se na beira da janela a vê-la e do fundo da floresta vieram os veados, os coelhos, as aves e as borboletas, para verem a dança da fada» (A fada Oriana); de encantar: «As danças das flores eram extraordinárias, leves e lentas»; de desabrochar «(…) ao som dos tambores/ o seu bailar faz abrir/mais depressa as flores» (A árvore); de perfumar: «A Flor do Muguet, branca e pequenina, leve como a brisa, dançava todas as danças. E as suas campânulas baloiçavam perfumando a noite» (O rapaz de bronze); de surpreender: «Todas as flores se espantaram de ver a túlipa a dançar» (O rapaz de bronze), de despertar: «Respirou fundo os perfumes da madrugada e fez uns passos de dança (…) e foi pela floresta fora dançando e dizendo bom dia às coisas» (A fada Oriana).

E, se a dança for de noite, tem um efeito mágico: «E de noite as flores dançam e passeiam» (O rapaz de bronze); inovador: «então Oriana começou a dançar no ar, em pontas dos pés, a “Dança da Noite de Luar da Primavera” – dançava como as flores dançam no vento e os seus braços eram iguais ao correr dos rios» (A fada Oriana) e apaziguador «antes de adormecer olho para a tília e vejo as folhas da tília a dançar» (O rapaz de bronze).

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A dança aparece também como uma forma de estabelecer a comunicação entre povos ou pessoas desconhecidas, funcionando como um elemento preconizador de paz: «Então bailando e cantando, os negros vinham ao encontro dos navegadores que, para corresponderem ao bom acolhimento, bailavam e dançavam também à moda da sua terra» (O cavaleiro da Dinamarca); e de confiança «o português, para voltar a estabelecer a confiança, começou a cantar e a dançar» (O cavaleiro da Dinamarca).

Tudo e todos dançam: as crianças, da terra ou do mar: «Então a menina saiu da água, subiu para uma rocha e principiou a dançar» (A menina do mar), «E dançavam e cantavam nas relvas finas» (O cavaleiro da Dinamarca); as flores «As rosas da trepadeira estremeceram e dançaram quando ela chegou» (A fada Oriana); «As flores despediram-se do Rapaz de Bronze e afastaram-se rindo e dançando» (O rapaz de Bronze); as fadas «Oriana ia para os prados dançar com as outras fadas» (A fada Oriana); os animais «Já dança o leão/debaixo da cerejeira/ao som dos tambores» (A árvore); as estátuas «durante a noite ele falava, mexia, caminhava, dançava» (O rapaz de bronze); as ervas «a brisa fazia dançar as ervas» (A fada Oriana); «ervas trémulas dançavam à menor brisa» (A floresta); a água «viu dançar na água um reflexo branco que vinha ao encontro do seu reflexo de oiro» (O rapaz de bronze); «E a água junto dos seus pés ia e vinha e bailava também» (A menina do mar); a fita do cabelo «punha uma fita a dançar no meu vestido» (A fada Oriana); a brisa «A brisa dançava com as ervas dos campos» (A fada Oriana); a chama «o reflexo da chama dançava na sua cara» (A fada Oriana).

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Dançam em todo o lado: no fundo do mar «sentam-se todos no fundo do mar e eu danço em frente deles» (A menina do mar); na floresta «Oriana foi pela floresta fora, correndo, dançando e voando, até chegar ao pé do rio» (A fada Oriana); nos jardins «As danças das flores eram extraordinárias, leves e lentas» (O rapaz de bronze); nos prados «Oriana ia para os prados dançar com as outras fadas» (A fada Oriana); no ar «Oriana começou a dançar no ar» (A fada Oriana) ou na cidade «a cidade encheu-se de cantos e danças (…) nas praças dançava-se o vira» (A floresta).

Nos livros de Sophia, as palavras dançam pelas histórias e pelas páginas num pas de deux permanente com a sua autora, a bailarina da terra e do mar.

«E, radiante com a sua ideia, Oriana faz um passo de dança» (A fada Oriana).

 

Referências bibliográficas:

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner, A árvore, ilustrações de Teresa Olazabal Cabral, Figueirinhas, Porto, 2010
_______________, A menina do mar, ilustrações de Pedro Avelar, Figueirinhas, Porto, 2011
_______________, A fada Oriana, ilustrações de Natividade Corrêa, Figueirinhas, Porto, 2010
_______________, A floresta, ilustrações de teresa Olazabal Cabral, Figueirinhas, Porto,2010
_______________,O cavaleiro da Dinamarca, grafismo de Armando Alves, Figueirinhas, Porto, 1999
_______________, O rapaz de bronze, ilustrações de Fedra Santos, Figueirinhas, Porto, 2010
_______________, Os três reis do oriente, ilustrações de Fedra Santos, Figueirinhas, Porto, 2010
PASSOS, Maria Armanda, “Sophia de Mello Breyner Andresen: “escrevemos poesia para não nos afogarmos no cais” in Jornal de Letras nº26,16 de Fevereiro de 1982, pp.2,3,4,5
SOUSA, Carlos Mendes de, “Sophia e a dança do ser”, in Sophia de Mello Breyner Andresen, Actas do Colóquio Internacional (organização de Maria Andresen Sousa Tavares e Centro Nacional de Cultura), Porto Editora, 2013, pp. 130-138

Histórias de vida – Leo Lionni, o criador de Frederico

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por Ana Ramalhete

Leo Lionni nasceu em Amesterdão no dia 5 de Maio de 1910. Filho de uma cantora de ópera e de um polidor de diamantes, cedo se interessou pelas artes. O tio Piet, o seu herói durante a infância, introduziu-o no mundo da arte contemporânea ao armazenar em casa de Leo obras de pintura e ao fazer desenhos, para os quais o sobrinho posava como modelo. Aos poucos, a arte tornou-se a sua grande paixão. Interessava-se por pintura, escultura, canto, piano e arquitectura. Frequentava assiduamente os museus da cidade onde nascera, tendo conseguido autorização para os percorrer e desenhar à vontade no seu caderno de esboços. Enquanto desenhava, imaginava que um dia seria artista.

A natureza também o fascinava. Gostava de coleccionar animais pequenos, sobretudo répteis e construir terrários onde os guardava. Juntava areia, pedras, musgo e fetos para criar um ambiente semelhante aos seus habitats naturais. O sótão da casa tornou-se um zoo em miniatura povoado de aquários, gaiolas, terrários e reptilários e o seu quarto era o local privilegiado de experiências e aconchego para alguns dos seus companheiros. Brincava com a natureza para se sentir parte dela.

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Apesar dos seus grandes interesses residirem na arte e na natureza, Leo doutorou-se em Economia, na Universidade de Génova. Em 1931 casou-se e foi viver para Milão, onde começou por escrever sobre arquitectura europeia numa revista local. Em seguida, dedicou-se ao design gráfico.

Em 1939 foi para os Estados Unidos da América trabalhar numa agência de publicidade como director de arte. Mais tarde tornou-se director de design da Olivetti e director de arte da revista Fortune. Paralelamente ia desenvolvendo a sua actividade de pintor, escultor e ilustrador fazendo exposições em inúmeras galerias de diversos países.

Em 1959, já avô, durante uma viagem de comboio teve a ideia de entreter os netos, Pippo e Annie, criando uma história construída com bocados de papel de uma revista. Nascia assim o conto que daria origem a Pequeno azul e pequeno amarelo, a obra que iniciou a produção artística de Leo Lionni destinada ao público infantil e que o tornou num dos pioneiros do álbum ilustrado. As suas técnicas de colagem, aliadas à simplicidade e colorido das imagens abriram novos caminhos na experimentação e concepção da ilustração de livros infantis.

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Ao escrever para crianças regressou ao mundo da infância, ao sótão e ao seu quarto, onde foi buscar memórias, sonhos, ambientes mágicos e animais que inspiraram as personagens principais das suas histórias.

Desde então publicou cerca de quarenta livros entre os quais se encontra Frederico, o rato poeta que recolhia raios de sol, cores e palavras, para aquecer os seus companheiros durante o Inverno ou Mateus, o rato que deambula pelo museu e ambiciona ser artista, tal como Lionni o fazia enquanto criança.

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Cada livro resultou de um trabalho disciplinado e rigoroso que levava Leo a afirmar que as suas ideias nasciam de um duro labor criativo. Tudo começava com um momento em que algo surgia: podia ser uma forma, um ambiente, uma figura com uma irresistível carga poética, ou apenas «um súbito impulso irracional de desenhar um certo tipo de crocodilo».

Pelos seus méritos como escultor, designer, pintor e ilustrador, Leo Lionni recebeu a medalha de ouro do Instituto Americano de Artes Gráficas.

Publicou o último livro Uma pedra extraordinária, em 1994, com oitenta e quatro anos. Faleceu cinco anos depois, em Itália, na Toscânia, no dia 11 de Outubro.

 

Páginas consultadas:
Random House
Revista Imaginaria
Revista Babar
Kalandraka
Cria, Cria

Oliver Jeffers – Dos livros ao multimédia

por Ana Ramalhete

Oliver Jeffers, autor e ilustrador de álbuns para crianças, aproveita as potencialidades do multimédia para explorar a sua arte e divulgar o seu trabalho. Desde a utilização de vídeos que mostram a construção de um objecto, até à apresentação online de projectos realizados com outros artistas, Jeffers tem aproveitado as potencialidades do multimédia.

O seu livro Lost and found, publicado em 2005, foi adaptado para cinema e transformado num filme curto. Oliver trabalhou com o realizador na sua construção.

Também baseado neste livro, aproveita a internet para ensinar a desenhar um pinguim, uma das personagens principais da história.

É ainda na internet que tem uma loja onde vende serigrafias, livros e objectos criados por ele.

A sua intervenção mais recente foi a criação de um anúncio a uma marca de chocolates, para televisão. Com a introdução do multimédia, a obra de Oliver salta dos livros e do papel e consegue chegar a um outro nível e a um público mais alargado. Ver vídeo de O Coração e a Garrafa.

Aqui fica uma lista de livros com texto e/ou ilustrações de Oliver Jeffers publicados em Portugal:

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As escolhas de Natal de… Ana Ramalhete

Falta um mês para o Natal e achamos que os melhores presentes para pôr nos sapatinhos dos mais pequenos, e também dos maiorzinhos, são livros, livros e mais livros. Com isso em mente, e porque às vezes é difícil saber o que escolher no meio de tanta oferta, resolvemos dar uma ajudinha. Ao longo desta semana será publicada uma lista de cada uma das redatoras da revista Fábulas com as suas recomendações de livros para oferecer neste Natal. Ana Ramalhete revela aqui as suas escolhas na categoria de Infantil.

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Dentes de rato, de Agustina Bessa-Luís, Ilustrações de Martim Lapa, Guimarães Editores

Dentes de rato conta a história da vida de Lourença, dos seis aos nove anos, passada no Douro com a sua família. A escola, as férias, os lugares, as leituras, as aventuras e as fantasias acompanham o seu crescimento interior e exterior e levam-na à descoberta de vários mundos: os reais e os imaginados.

Esta narrativa inspirada nas vivências de Agustina Bessa-Luís enquanto criança, espelha a própria infância, nas suas diversas vertentes: física, psíquica, imaginativa, emocional e poética, que decorre num tempo vertiginoso em que tudo pode acontecer.

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 O pássaro da cabeça, de Manuel António Pina, Imagens de Ilda David, Assírio e Alvim

Este livro inclui os poemas de Manuel António Pina que integram as edições originais das obras O pássaro da cabeça, Gigões e anantes e O têpluquê, editadas pela Regra do Jogo. O autor parte dos contrários, transforma-os em jogos de palavras e apropria-se do seu significado dando-lhes um novo sentido, como se tivessem vida própria e sofressem mudanças intrínsecas.

Nestes poemas singulares, plenos de originalidade e criatividade, nada é estático ou permanente, tudo se encontra em processo de transformação dinâmica entre o que é e o que não é, o que há e o que não há. A terna desconstrução da realidade leva-nos até um mundo às avessas que parece fazer todo o sentido.

perfumeO perfume do sonho, na tarde, de Luísa Dacosta, Ilustrações de cristina Valadas, ASA

Numa tarde de sábado, debaixo de uma árvore, uma menina, acompanhada do seu gato, deixa-se envolver no sono e entra no mundo do sonho. Aí vive e imagina aventuras desencadeadas pelos seus vestidos mágicos, guardados numa arca encantada. Quando o sol se põe e o gato reclama comida, guarda os fatos que não usou, fecha o baú dos sonhos e corre para casa.

Uma prosa poética construída a partir de aguarelas de Cristina Valadas, perfumada de intertextualidades que vão desde as histórias de As mil e uma noites até aos contos de Hans Christian Andersen. Uma bela simbiose entre texto e imagem.

j.p.m.

Tudo é sempre outra coisa, de João Pedro Mésseder, Ilustrações de Rachel Caiano, Editorial Caminho

Pela prosa do poeta percorremos um caminho separado por uma linha que divide dois mundos aparentemente díspares mas no fundo complementares. Em tudo há sempre outra coisa. Há o lado de cá e o lado de lá, o lado de dentro e o lado de fora, o lado de cima e o lado de baixo.

Neste livro, podemos começar pelo princípio ou pelo fim, podemos ler primeiro a ultima frase de uma página ou a primeira de outra. Podemos pensar ou sentir, ler ou ver, de uma maneira ou de outra. Podemos procurar a prosa e encontrar a poesia, esperar uma resposta e descobrir uma pergunta. Numa coisa há sempre outra coisa.

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O paraíso são os outros, de Valter Hugo Mãe, Ilustrações de Esgar Acelerado, Porto Editora

Uma menina divaga sobre a vivência entre casais, sejam pessoas ou animais. Embora não compreenda totalmente o comportamento afectivo dos adultos, homens ou bichos, também espera, um dia, encontrar felicidade no amor. E até já descobriu que «o amor precisa de ser uma solução, não um problema».

Com esta história, Valter Hugo Mãe faz-nos sentir como é importante o amor, construí-lo, procurá-lo, vivê-lo… e ajuda-nos a perceber como é fundamental ter esperança, saber fintar a solidão e ter tempo para aprender «que amar é um trabalho bom».