Category Archives: CATARINA ARAÚJO

Nova editora Ponto de Fuga reedita o ursinho «Petzi»

por Catarina Araújo

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Para quem não conhece, Petzi é uma banda desenhada dirigida às crianças e criada em 1951 por um casal de dinamarqueses, Carla e Vilhelm Hansen. Os livros contam a história de uma cria de urso – Petzi –, e dos seus amigos – Pingo (um pinguim), Riki (um pelicano) e Almirante (uma foca), entre outros. Sempre vestido com umas calças vermelhas às bolinhas brancas, Petzi viaja a bordo do seu barco Mary, construído com os seus amigos.

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A banda desenhada foi editada em Portugal pela Editorial Verbo e agora a nova editora Ponto de Fuga, fundada por Vladimiro Nunes, estrear-se-á com o relançamento dos três primeiros volumes, com tradução de Susana Janic, a partir do original, e que terão os seguintes títulos: Petzi constrói um barco, Petzi e a baleia e Petzi e a mãe peixe.

A página oficial da editora encontra-se aqui.

Via Diário de Notícias.

Estará a leitura na sala de aula a estragar o prazer de ler?

por Catarina Araújo
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Frank Cottrell Boyce, escritor infantil e juvenil, conhecido pela obra Milhões (editado em Portugal pela Editorial Presença, em 2004), afirmou recentemente, num artigo escrito para o jornal The Guardian, que alguns métodos de ensino estão a poluir a experiência de leitura. O autor alerta que determinadas estratégias aplicadas para encorajar a literacia estão a afastar as crianças dos livros ao invés de as aproximar deles. Isto acontecerá devido a uma análise excessiva dos textos que retira o prazer da leitura. Cottrell Boyce explica que em vez de se deixar a criança apreciar a história, os professores muitas vezes interrompem o momento de leitura para dar indicações daquilo a que devem estar atentas para mais tarde realizarem diferentes exercícios. O autor acredita que isso afeta o gosto pela história que se está a ouvir ou a ler. Ele defende que «o prazer de ler é uma forma profunda e poderosa de atenção, uma espécie de pensamento lento». O escritor apoia ainda a leitura em voz alta, pois ela não tem de ser um ato solitário.

Promover o gosto pela leitura é pois o ponto de partida para a literacia. Se se não se fomentar esse prazer, então qualquer análise de uma história corre o risco de não se fixar e de a criança acabar por não refletir no texto por si, mas apenas com base em parâmetros fornecidos, o que esvazia toda a experiência de leitura.

Abrir uma livraria por paixão e razão, sem crises.

por Catarina Araújo

aqui apresentámos a livraria infantil e juvenil Fadas, Bruxas e Dragões, de Benavente. Entretanto, falámos um bocadinho com os proprietários, que iniciaram em 2013 um verdadeiro negócio de família, juntando um «”pai”, Pedro Peralta, 42 anos, vindo da área dos números, das faturações e das contas, com uma “mãe” jornalista, Ana Mafalda Ganhão, com 45, os dois rendidos aos livros e com muita vontade de apostar num projeto comum.»

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A paixão pelos livros levou-os a correr o risco em plena crise, porque por vezes é na crise que se encontra a inspiração e a força para ir mais longe. Ambos mantêm os seus empregos, pelo que, como nos conta Mafalda Ganhão, «as “Fadas” são um esforço extra-laboral, que envolve ter alguém a tomar conta da loja, muita ajuda familiar e até a colaboração das nossas duas filhas, grandes entusiastas, críticas moderadas e às vezes também “mão-de-obra” de recurso, nas horas de aflição.»

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(c) Fadas, Bruxas e Dragões

Numa jigajoga que certamente não será fácil, a parceria é fundamental e Mafalda admite: «Tenho a tendência de fugir para as nuvens ou acordar com ideias repentinas, que nem sei como concretizar, o Pedro é muitas vezes a voz da razão, o executor paciente e o complemento racional que faz falta para o equilíbrio não se perder… »

Apresentem-se!
A «Fadas, Bruxas e Dragões» é uma livraria infanto-juvenil, aberta há menos de um ano em Benavente, em pleno Ribatejo (mas pertinho de Lisboa), onde os livros são as estrelas, ainda que a casa tenha também uma pequena cafetaria, venda brinquedos didáticos e promova várias atividades educativas. O nosso lema diz quase tudo: «Brincar com as histórias, crescer com os livros».

Porque resolveram abrir uma livraria infantil e juvenil?
A livraria nasceu da absoluta necessidade de dar corpo a uma ideia que morava há tempo de mais só na cabeça e em imensas folhas de rascunho, como projeto. Há fases na vida em que é preciso arriscar, perder o medo e ir à luta, apesar das crises ou das recomendações para ter cautela. Nasceu da preocupação com os baixos índices de leitura – particularmente entre os jovens – e da vontade de dar a conhecer os nossos maravilhosos autores e ilustradores, tal como as muitas obras infanto-juvenis que «escapam» às prateleiras das grandes superfícies. Em suma, nasceu do desejo de partilhar o prazer que é a leitura.

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(c) Fadas, Bruxas e Dragões

Como conceberam o espaço?
A casa onde se instalou foi um feliz acaso do destino: antiga o suficiente para ter memórias (com um sótão que um dia destes se vai transformar num cenário de sonho para as histórias) e em frente a uma escola do ensino básico, que nos faz ter por perto as crianças. Ser quase uma salinha de estar, acolhedora como as nossas casas e sem cair nas cores berrantes, só por ser para os mais novos, foram as linhas da decoração. Depois ganhou forma naturalmente, como um puzzle que se encaixa. Foi o que deu estar há tanto tempo pensada… Ideia fundamental? Ser agradável para qualquer faixa etária, com boas energias.

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(c) Fadas, Bruxas e Dragões

Como tem sido a receção das pessoas?
As pessoas são muito simpáticas e elogiam o espaço. Sobretudo, sentimos que as crianças se sentem bem aqui dentro, o que representa a maior conquista. A livraria tem um conceito um bocadinho diferente, novidade em relação à vila onde se insere, por isso no início também notámos alguma estranheza: «É um café? Uma livraria? As duas coisas?» Mas aos poucos cresce o número de clientes fiéis, o número de «amigos» no Facebook, e vamos recebendo muitas mensagens de encorajamento.

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(c) Fadas, Bruxas e Dragões

Que atividades desenvolvem?
Temos atividades pagas e atividades gratuitas. A filosofia é que não seja pago tudo o que aconteça no horário comercial normal, como horas do conto (há sempre, ao sábado de manhã), eventuais apresentações de livros, etc. As propostas que requerem inscrição são várias e variam mensalmente. Muitas estão ligadas à promoção da leitura, mas não só. Por aqui se fazem ateliês de fotografia, ciclos de cinema de animação, tardes de culinária… e tudo o mais que a imaginação ditar.

Também é intenção da livraria trabalhar com as escolas e a comunidade, daí que sair da loja seja outra vertente. Para ir contar histórias, para organizar Feiras do Livro… estamos sempre à espera de receber desafios.

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(c) Fadas, Bruxas e Dragões

Sentem-se como missionários da leitura?
Ui! Missionário talvez soe pomposo e se afaste daquilo que realmente nos sentimos, no sentido em que só queremos mostrar que ler é bom, e faz bem. Como não conhecemos melhor forma de o demonstrar, fazemos por dar o exemplo. Por aqui lê-se muito.

E agora recomendações de leitura para esta época: de infantil e de juvenil.
Para todas as épocas: Os livros que devoraram o meu pai, de Afonso Cruz, e, para os mais pequenos, o recém-lançado O Escuro, de Lemony Snicket, com ilustrações de Jon Klassen. Para os leitores «em transição», a meio caminho entre o infantil e o juvenil, não resisto à personagem Clementina, criada por Sara Pennypacker – a coleção tem três títulos e são todos muito divertidos.

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E que tal um convite aos nossos leitores?
O óbvio convite para nos visitarem. Adoramos ter a casa cheia e as “fadinhas” ficam sempre felizes quando aparecem amigos novos. Gostamos que nos falem de livros que ainda não conhecemos, que nos contem quais são os vossos preferidos e que nos tragam ideias para fazermos coisas novas. Os fãs da internet que nos desculpem, mas para este efeito o mundo virtual sabe a pouco. Apareçam!

Leitura através de tablets com as crianças conta como hora do conto?

por Catarina Araújo

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É a pergunta feita pelo jornal The New York Times num artigo que questiona se ler no iPad ou num tablet vale o mesmo que ler um livro ou será como ver televisão?

Pediatras, educadores e especialistas recomendam aos pais que comecem a ler livros com os seus filhos mesmo quando ainda são bebés. Contudo, com o crescimento do mercado dos dispositivos eletrónicos, e com novos e-books e aplicações de leitura infantis a serem lançados a toda a hora, são cada vez mais os pais que adotam os tablets como suporte de leitura.

A experiência de ler através de um ecrã é deveras diferente daquela de ler um livro encadernado. Como é que isso afeta o modo como a criança processa e apreende a informação?

Alguns estudos concluem que «elimina uma certa dinâmica que conduz ao desenvolvimento da linguagem». A interação que ler um livro promove com o virar da página, o apontar para os bonecos, aprender os sons com os pais, falar sobre a história, perde-se quando o dispositivo eletrónico faz isso tudo por eles. Será também mais fácil a criança distrair-se, não estar tão empenhada, quando pode carregar em tantos botões diferentes, sem se concentrar verdadeiramente em cada página.

O artigo aponta para um estudo feito em 2013 com crianças entre os três e os cinco anos cujos pais costumam ler e-books com elas e em que verificaram que essas crianças tinham mais dificuldades de compreensão do que aquelas que liam livros encadernados com o pai ou a mãe. Por outro lado, outros estudos demonstram que as crianças aprendem as palavras mais depressa através de um dispositivo eletrónico do que de maneira tradicional. Pode-se inferir daqui que embora favoreçam efetivamente a apreensão de vocabulário em quantidade, no que diz respeito à qualidade da aprendizagem não serão tão eficazes, muito pelo contrário.

O ideal seria portanto uma conjugação dos dois: favorecer a leitura de livros tradicionais, mas complementar com leitura através de tablets à medida que a criança for crescendo, tendo em conta as vantagens e desvantagens de cada suporte, pelo menos enquanto não se encontrar um consenso quanto à utilização de dispositivos eletrónicos com crianças.

Há uns meses a revista Visão, se não me engano, publicou uma reportagem sobre este tema, mas infelizmente não consegui encontrá-la. O artigo completo do The New York Times pode ser lido aqui.

Um espírito gentil preso no olhar grotesco da vida

por Catarina Araújo
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«Wonder», o título em inglês deste livro de R. J. Palacio, significa maravilha, ou na sua forma verbal, admirar-se, surpreender-se, sentir curiosidade. «Wonder» é uma daquelas palavras que, tal como «saudade», contêm nelas muito mais do que aquilo que significam objetivamente. Talvez por isso a editora decidiu-se por «Milagre» como título para a edição portuguesa. O que ainda assim, não sei se exprimirá com verdadeira justiça o otimismo, a esperança, o maravilhamento que a história nos transmite.

Auggie tem dez anos e está prestes a entrar numa escola nova. Como todas as crianças tem medo do que vai encontrar – novos professores, novos colegas, novas disciplinas, novas regras. Ainda para mais porque sempre estudou em casa, com a mãe. Porém, o desafio que está prestes a enfrentar é muito mais complicado do que à partida seria já que ele nasceu com uma deformação grave no rosto e teve de ser sujeito a inúmeras cirurgias para lhe permitir respirar normalmente, falar e comer.

Consciente do seu aspeto e de como as outras pessoas o veem à superfície, Auggie partilha com o leitor os seus medos, as suas dificuldades, com um humor, uma candura e uma franqueza desarmantes. Não há aqui lugar a condescendências, nem cinismos. As coisas são como são e ele sabe disso. Considera-se um miúdo normal – gosta de comer gelados, andar de bicicleta, jogar à bola e com a Xbox, além de ser um grande fã de A Guerra das Estrelas, só que com uma cara que leva «outros miúdos normais a fugir do parque infantil, aos gritos». Ele tem uns pais e uma irmã que o adoram, que o protegem, enchem-no de amor e carinho, mas sabe também que a irmã, Via, não o vê como um miúdo normal, caso contrário não sentiria necessidade de o proteger tanto, como ele próprio nos conta. No entanto, não se sente paralisado por isso, não deixa de se divertir, e se ao princípio se mostra muito relutante em ir para a escola nova, depois fica determinado em frequentá-la. Contudo, e tal como se esperava, não é fácil. Os miúdos são espontâneos, reagem à flor da pele, e alguns comportam-se de maneira diferente quando não estão ao pé dos pais ou de figuras de autoridade. Isso é uma coisa que Auggie aprende rapidamente.

A surpresa aqui é o facto de termos não só o ponto de vista de Auggie, mas também o de outras personagens importantes, como de Via, a irmã, e dos novos colegas de escola, como Summer, Jack Will, e até do namorado da irmã, Justin, e a melhor amiga dela, Miranda, cada um com a sua perspetiva sobre Auggie e a sua vida, visível até na sua escrita. É encantador verificar como ele toca cada um deles de uma maneira muito específica. Mais uma vez com uma franqueza brutal, sem floreados onde eles não existem. Há sentimentos de repulsa, de inveja, de dor, de vingança, há traições, há arrependimentos. Graças ao amor dos pais e da irmã, porém, Auggie é um rapaz muito bem resolvido e que aos poucos vai conquistando as pessoas ao seu redor. É claro que nem todas conseguem ultrapassar a deformidade do seu rosto e encontrar por detrás dela o miúdo normal com que todos nos identificamos e por quem nos apaixonamos perdidamente. Vivemos no mundo real e o desta história é tão real quanto possível.

Uma história desafiante, que nos obriga a pensar como reagiríamos se estivéssemos na pele de Auggie ou de alguém que o conhece, que nos desarma e que no fim nos deixa absorvidos em sentimentos de compaixão, esperança e otimismo, face à crueza da vida. E de como pequenos gestos de gentileza podem ter um efeito tão grande em nós e nos outros.

Deixo apenas uma pequena crítica a algumas gralhas e falhas de tradução, bem como ao formato adotado que é demasiado grande para uma criança, e este livro deve ser dado a ler às crianças.

Para quem estiver interessado em conhecer um pouco mais do contexto desta história, pode ler uma entrevista muito interessante que a autora R. J. Palacio deu ao The Guardian.

O que fazer para que os rapazes queiram ler?

por Catarina Araújo

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É a pergunta crítica que muitos pais fazem, sem saberem como convencer os filhos rapazes a pegarem num livro e a lê-lo até ao fim. Há diversos estudos que indicam efetivamente que as raparigas mais facilmente leem um livro do que os rapazes. Contudo, isso não quer dizer que eles não gostem de ler. Apenas que não gostam de ler o mesmo que as raparigas, dado que esses estudos indicam que se por um lado eles se afastam mais da literatura, por outro preferem banda desenhada, não-ficção, e humor, o tipo de livros que tendem a ser subvalorizados.

A pensar nesta problemática Jon Scieszka, autor norte-americano de livros infantis e juvenis, e que já foi Embaixador Nacional da Literatura para a Juventude, nos EUA, fundou a Guys Read (rapazes leem), um programa de literacia para rapazes, com o objetivo de incutir nos jovens a vontade e o gosto de ler, chamando com isso a atenção para a questão com o fim de desenvolver o conceito de leitura para que inclua não só literatura, mas também outro tipo de livros como não-ficção, novelas gráficas, banda desenhada, etc.

Recentemente surgiu uma discussão gerada por outro autor, Jonathan Emmett, sobre a forma como o marketing dos livros é feito e em que alegava que «no Reino Unido os livros ilustrados refletem mais o gosto das raparigas do que dos rapazes» e que isso resulta do facto de haver muito mais mulheres na indústria da edição do que homens. Jon Scieszka admite, numa entrevista dada ao blogue Playing by the book, que «é razoável colocar-se a questão e que talvez essa discrepância de género na indústria influencie os livros que são publicados, adquiridos e premiados nos livros infantis e juvenis». A entrevista completa pode ser lida, clicando na ligação.

No sítio Guys Read encontramos mais informações sobre a missão do autor Jon Scieszka com este programa, bem como ferramentas que poderão ajudar a conquistar os rapazes para a leitura: www.guysread.com.

Quanto ao caso português não será muito diferente, mas explorando os sítios portugueses encontrei alguns títulos que poderão cativar os rapazes. Além dos livros do Geronimo Stilton ou do Diário de Um Banana,  aqui ficam outras sugestões.

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Até que ponto poderão os livros para crianças ser «pesados»?

por Catarina Araújo

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Há temas sensíveis que às vezes são tratados nos livros infantis e juvenis que poderão ser considerados «pesados» para os jovens leitores. Todavia, é uma maneira de expô-los a assuntos difíceis através de uma história que demonstra aquilo com que muitas pessoas têm de lidar no seu dia-a-dia, como seja por exemplo o bullying, a violência, as dificuldades económicas, a doença, a morte e outros. Isso permitirá que ganhem uma noção das diferentes realidades que existem e também algum conhecimento de como lidar com determinadas situações.

Num artigo do The Guardian, uma autora de literatura juvenil, Rebecca Westcott, apresenta o seu ponto de vista sobre esta questão:

«Children live in families; they are surrounded by adults with all their adult problems. They wake up every morning in homes where there are everyday crises and challenges. They hear their friends talking and they watch the news on TV. Life happens and they are a part of that. Their books need to reflect what they hear, what they see. They need to recognise their situations in a book.»

Porém, até que ponto é que um livro pode ser demasiado pesado?

Em princípio as crianças saberão instintivamente aquilo que conseguem «aguentar» e pararão de ler algo que as faça sentir-se desconfortáveis. É preciso ter em conta a sua personalidade, a sua capacidade de superar as dificuldades, de entender o que lê, independentemente da idade. Dependerá também de como o autor tratou de certo assunto, da linguagem utilizada, do tato com que conta história, descreve as personagens e as suas ações. Por vezes não é uma questão de retirar esse livro à criança, mas de acompanhá-la na leitura, conversar, refletir com ela.

Rebecca Westcott faz um apontamento sobre a importância de ler histórias que desafiem: «In the same way that millions of people watch hospital dramas and imagine themselves as part of the action, books provide children with the chance to empathise. They can play out a role in a safe environment. They can learn about how other people think.»

Em conclusão, um livro só será demasiado pesado se a criança não estiver pronta para lidar com os temas tratados e isso não tem que ver necessariamente com a idade, mas com uma série de fatores que vão desde a sua personalidade, maturidade, ao contexto em que vive ou em que lê determinada história, que tipo de suporte tem por parte dos pais ou dos educadores.

O artigo do The Guardian sobre este tema pode ser lido aqui.

Uma super-heroína chamada Pippi das Meias Altas

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Edição da Booksmile, 2013

Pippi das Meias Altas é mentirosa, não obedece a ninguém, está sempre a fazer pouco dos adultos e das suas regras, tem atitudes incompreensíveis e rejeita tudo o que é norma social. Seria pois o pesadelo de qualquer pai cujos filhos a tivessem como amiga. Que é o que acontece com Tomás e Anita Santiago, os irmãos e vizinhos com quem Pippi brinca.

Mas Pippi também é uma super-heroína, muito forte, invencível, capaz de pegar num homem pela cintura, de derrubar toiros e de dar a volta a ladrões fazendo-os implorar por perdão e dar uns passos de dança escocesa, e de salvar crianças de edifícios em chamas.

«Uma criança fora de série.» É assim que Pippi é descrita no princípio da história e com razão: ela tem nove anos, perdeu a mãe quando ainda era bebé e o pai afogou-se no mar, pelo que vive sozinha na Vila do Arco-íris, sem nenhum adulto para cuidar dela, porque aparentemente é muito bem capaz de cuidar de si própria. Usa os cabelos cor de cenoura presos em duas tranças espetadas, veste um vestido azul com flores costurado por si e calça meias altas de pares diferentes. Tem como companheiros um macaco, o Senhor Nelson, e um cavalo. Os adultos não a toleram, porém as crianças, apesar de ao princípio ficarem muito espantadas por Pippi viver sozinha e não ir à escola, acabam por achá-la muito divertida.

Na falta de uma educação coerente, Pippi tem dificuldade em ler e escrever, bem como fazer contas e não sabe «comportar-se». Os amigos Tomás e Anita arranjam maneira de a convencer a experimentar ir à escola, mas Pippi contesta a professora logo que ela tenta ensinar alguma coisa e acaba por desistir.

Pippi não é uma personagem tradicionalmente identificável, dado ser tão forte, irreverente, ter muito dinheiro e viver uma vida independente, sem ligar às normas. O Tomás e a Anita serão as crianças com que os pequenos leitores se identificam e que ficarão a desejar conhecer alguém como Pippi, uma rapariga confiante, criativa, cheia de personalidade. Por outro lado, como está sempre a mentir e a inventar histórias, torna-se difícil confiar nela.

A um nível mais profundo, é notável como Pippi é uma rapariga solitária, que procura o contacto humano, apesar de acabar por se «mal comportar» sempre, consciente de que não é capaz de conviver normalmente com as outras pessoas, por não ter adultos que cuidem dela, a orientem e a ensinem a viver em sociedade. Isso fá-la sentir-se triste e incapaz, embora seja um sentimento temporário, porque logo depois arranja outras maneiras diferentes de se distrair e divertir.

Este livro é definitivamente escrito para crianças. Um adulto, especialmente se for pai ou mãe, sentir-se-á consumido por uma vontade de fechar o livro cada vez que lê mais uma das tropelias de Pippi. Contudo, lendo nas entrelinhas, compreendemos como é importante para uma criança ter por perto um adulto que a ame, que cuide, que oriente, que ensine e que lhe dê estrutura, sem perder de vista claro as peculiaridades de uma personalidade própria, com as suas ideias e as suas diferentes capacidades.

Literatura para adolescentes entre nomeados para National Book Award

Os livros para adolescentes ou «jovens adultos» têm sido alvo de alguma controvérsia por serem cada vez mais lidos por adultos com idades acima dos vinte e trinta anos. A questão em causa terá que ver com a qualidade desses livros e a sua pertinência para uma faixa etária que os críticos consideram que deveria ler obras mais adequadas à sua idade. Polémicas à parte, a verdade é que no meio de uma grande diversidade de histórias, típicas do Young Adult, encontram-se obras de qualidade literária cujo mérito merece ser reconhecido.

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Recentemente foi divulgada a long-list dos nomeados deste ano para o National Book Award, prémios atribuídos pelo National Book Foundation, nos EUA, com o objetivo de celebrar a literatura americana, e entre os livros presentes encontram-se alguns destinados ao público adolescente, como Brown Girl Dreaming, de Jacqueline Woodson, única autora afro-americana nomeada.

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Os temas destes livros são variados, desde a relação de uma filha com o seu pai vítima de stress pós-traumático, em The Impossible Knife of Memory, de Laurie Halse Anderson, à história de um rapaz de origem chinesa adotado por pais brancos, em Greenglass House, de Kate Milford, ou a de outro rapaz que sofre de epilepsia, em 100 Sideways Miles,de Andrew Smith, ou ainda de duas jovens acabadas de se formar através de programas de educação especial e que agora se veem numa situação em que terão de aprender a cuidar de si próprias, em Girls Like Us, de Gail Giles. As personagens são diversas e complexas e as histórias refletem questões com que nos debatemos em sociedade.

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Num artigo do The Guardian, há quem louve esta atitude do júri em incluir literatura para jovens na lista, embora considere que sejam mínimas as hipóteses de qualquer uma das obras passar para a short-list. Ainda assim reconhece que independentemente do seu público-alvo são livros de qualidade e provocadores, com a diversidade que muitas vezes falta neste tipo de prémios.

Via Blogtailors.

«Lá Fora» é divertido lá dentro

por Catarina Araújo

À primeira vista é robusto e mete medo. Depois quando se pega nele sente-se o seu peso, mas não se resiste a passar a mão sobre a capa dura, com uma textura áspera, de um laranja hipnotizante.  Por fim cedemos à vontade de o abrir e mergulhamos no mundo «lá fora».

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É da Planeta Tangerina e foi concebido por Maria Ana Peixe Dias, Inês Teixeira do Rosário e Bernardo P. Carvalho.

Por onde começar? Os autores começam inteligentemente pelo princípio, quando o Homem vivia na Natureza, não só da Natureza. Contam uma história de como nós, humanos, fomos aprendendo os ciclos naturais, a distinguir o que era bom do que era mau para comer, a defendermo-nos dos predadores e a inventar formas de prever mudanças na Natureza até à grande invenção – a civilização.

Numa linguagem acessível, em textos muito bem estruturados, os autores contam-nos onde se pode encontrar na cidade um mundo natural que parece existir apenas no campo, mas que está bem presente muito perto das nossas casas urbanas.

E depois contam porque resolveram escrever um livro sobre a vida «lá fora». Primeiro porque pretendiam ajudar a abrir os olhos para as coisas divertidas que se podem explorar na rua, em vez de ficar em casa a descobri-las através da televisão ou da internet. Por outro lado, acharam que as crianças iam gostar de saber quão diverso é o mundo natural neste cantinho da Península Ibérica.

Para isso há que aprender primeiro o que é o campo, a cidade, os bosques, as florestas, as praias, e tudo mais. Depois há que estabelecer regras, porque isto de explorar a natureza até pode ser divertido, mas se não se tiver cuidado, pode tornar-se perigoso. Estabelecidas as regras de segurança, ficamos a conhecer algumas das coisas que devemos levar connosco, desde objetos importantes, como lanterna, bússula e um bloco de notas, a vestuário adequado, o que é sempre muito útil.

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Nada é deixado ao acaso. Tudo fica bem estabelecido antes de se passar para a fase mais interessante – a da partida para a descoberta.

Como é que se procuram os animais na rua? Que tal começar com os vestígios deixados por eles? Desde marcas de patas, a rastos, a restos de comida, até às fezes. Tudo é muito bem descrito e identificado, de modo a não deixar escapar nada. Ou quase nada. Nem sempre é possível descobrir tudo, saber tudo, e há sempre lugar para o erro. Porque também é assim que se aprende.

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Capítulo a capítulo, em páginas profusamente ilustradas e com informações apelativas e elucidativas, vamos descobrindo diversas curiosidades sobre insetos, anfíbios, árvores, aves, répteis, flores, mamíferos, rochas, mar e praias e céu de Portugal.

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Encontram-se pois vários motivos para andar dobrado nos jardins e nos parques ou nos passeios a examinar o chão, com os olhos semicerrados a ver se encontramos uma lesma ou os restos de comida deixados por um chapim-real ou então de cabeça virada para cima, perscrutando o céu, na tentativa de identificar que nuvens suspeitas são aquelas que se aproximam e que podem muito bem trazer chuva.

No final de cada secção, os autores propõem atividades para se aplicar cada novo conhecimento, como por exemplo ir às Berlengas ver sardões e lagartixas ou então fazer uma expedição ao campo algarvio ou ainda escrever histórias sobre os animais sobre os quais se esteve a ler.

Há muito por fazer e descobrir, e basta folhear o livro para nos darmos conta, mal saímos de casa e chegamos à rua, de quanta vida é possível encontrar ali tão perto. Miúdos e graúdos, todos juntos, em família, numa autêntica viagem ao microcosmos.

Um verdadeiro guia que convida à exploração, à descoberta e ao questionamento, numa edição cuidada, cheia de pormenores cativantes, com informação útil, sem ser demasiado expositiva ou maçuda. Um livro que mal fechamos, queremos voltar a abrir, mas não sem antes ir passear um bocadinho com as crianças e ver de perto todas aquelas coisas divertidas e interessantes que se descobriram «lá dentro».