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Leituras para as Férias Grandes, por Sofia Pereira

Cinco livros para ler, para desfrutar, para folhear, para oferecer ou para partilhar. Em qualquer lugar. A qualquer hora. Porque, nas férias, é tempo de ler. E os livros são sempre uma das melhores companhias.

 

A Sereia e os Gigantes, de Catarina Sobral, Orfeu Negro

«Conta a lenda que havia dois gigantes, o Mar e a Montanha, que nunca se tinham zangado. Um dia, a Sereia chegou e, de imediato, despertou a curiosidade dos gigantes, que logo dela se enamoraram. Numa disputa feroz, o Mar e a Montanha movem céus e terra um contra o outro, na esperança de conquistar o amor da Sereia.»

Porquê? Verão cheira a maresia, praia, ondas, conchas e criaturas e monstros marinhos. Por isso, estas são as férias ideais que nos podem ajudar a viajar, através do universo das letras e dos livros, para cenários idílicos e paradisíacos, ao conhecer e ler histórias que despertem a curiosidade pelo maravilhoso mundo marinho, descobrindo as suas lendas, os seus encantos e as suas riquezas.

Cá Dentro, texto de Isabel Minhós Martins e Maria Manuel Pedrosa, ilustrações de Madalena Matoso, Planeta Tangerina

«Na Antiguidade julgava-se que o órgão responsável pelos nossos pensamentos e emoções era o coração. Hoje já sabemos que tudo o que somos – pensamentos, emoções, decisões, ideias – acontece dentro do cérebro, em conversa contínua com o resto do corpo. Mas como nasce um pensamento? Como funciona o cérebro? Como é que o cérebro guarda o que aprende? Como se emociona, cria, inventa e faz de cada um de nós uma pessoa única e irrepetível? Construído com o apoio de uma equipa de neurocientistas, filósofos e psicólogos, Cá Dentro acompanha a evolução do cérebro desde o primeiro segundo, mostra-nos a incrível realidade construída com a ajuda dos sentidos, explica-nos como aprendemos, decidimos ou agimos e também como nos ligamos às outras pessoas, outros cérebros. Se todas as experiências da vida contribuem para moldar o nosso cérebro, esperamos que esta leitura contribua para um cérebro (ainda) mais curioso, motivado e feliz.»

Por que razão? O cérebro humano é um mundo difícil de compreender. Mas todos, em algum momento das nossas vidas, ansiamos ter a lâmpada do Aladino para perceber como tudo funciona: os nossos pensamentos, as nossas emoções, as nossas ideias. Este livro, que pode ser explorado num ambiente de harmonia familiar, leva-nos numa viagem pelo órgão mais complexo de entender, numa linguagem acessível e num percurso de desafios sobre o fascinante e misterioso mundo da massa cinzenta. Uma descoberta que pode tornar os cérebros leitores mais seguros, exigentes, autênticos e espontâneos.

Descobre o caminho – No fundo do mar, de Paulo Boston, Booksmile

«Os habitantes da Cidade Oceânica precisam da tua ajuda! Explora o fantástico mundo subaquático e ajuda-os a construir um castelo. Mergulha junto ao navio naufragado e tem cuidado com o polvo gigante, enquanto resolves enigmas matemáticos e colecionas objetos ao longo do caminho.»

Livro-interativo, porquê? As férias são para ler, mas também brincar. E quando é possível conciliar estas duas actividades, tudo fica mais fácil. Com este livro, pretende-se que os leitores mais novos descubram o fascinante mundo aquático, através da interatividade e dos desafios matemáticos propostos, contribuindo para o seu desenvolvimento intelectual e para o raciocínio lógico.

O Mundo de Garfield 1978-1983, de Jim Davis, Verbo

«Quem não conhece Garfield, esse gato redondinho (nunca lhe chamem gordo!) e cor de laranja que nasceu na cozinha de um restaurante italiano? Preguiçoso e guloso, adora comida italiana (e não só!), não perde uma boa sesta, odeia as segundas-feiras, é avesso a passas e a dietas, tem nojo de caçar ratos, detesta despertadores e, sobretudo, tem um constante e adiado ajuste de contas (e de peso) com a balança. O Mundo de Garfield, 1978 – 1983, para além de coligir num único volume, a preto e branco e por sequência cronológica, as tiras originalmente publicadas durante os primeiros cinco anos e meio da vida de Garfield, conta ainda artigos que permitem ao leitor acompanhar o percurso de um gato sarcástico e preguiçoso, cujo sucesso é indesmentível.»

Ler, porque sim! O gato Garfield é a personagem de banda desenhada criada por Jim Davis e a mais publicada em jornais de todo o mundo, tendo-lhe valido, em 2002, um recorde do Guiness. É um gato preguiçoso, sarcástico e guloso, que adora dormir, comer lasanha e pizza e delicia os leitores com o seu humor indesmentível. Um livro para descontrair com as tirinhas apetecíveis deste gato redondinho!

A Sereia, de Kiera Cass, Marcador

«O mesmo discurso foi feito centenas de vezes a centenas de lindas raparigas que entram na irmandade das sereias. Há anos que Kahlen segue as regras, esperando pacientemente pela vida que poderá considerar sua. Mas quando Akinli, um ser humano, entra no seu mundo, ela não consegue continuar a viver segundo as regras. De repente, a vida pela qual tem esperado não parece tão importante como a que está a viver agora. «Se tens estado pacientemente à espera de algo num mundo não relacionado com “A Seleção”, aqui o tens! Deram-me a oportunidade de reescrever o meu primeiro livro, “A Sereia”. Este conta a história de Kahlen, uma sereia, enquanto vive com as suas irmãs ao serviço de Oceano, afundando navios com o seu canto e mantendo em segredo o seu dom mortífero. Kahlen vai gerindo as coisas o melhor que se pode esperar de uma rapariga que está proibida de falar, cantar e rir, até conhecer Akinli, um rapaz ligado a Oceano à sua maneira. E então, a vida que ela poderia ter agora, ainda que breve e cheia de segredos, parece valer o risco, mesmo que isso signifique desistir do futuro para o qual tem trabalhado.»

Vale a pena ler? Claro que sim! Como se cruzam os mundos de uma Sereia e de um Humano? Será que a conexão intensa que os une será suficiente para corromper as regras que os impedem de se ligar um ao outro? Até onde vai a coragem para seguir a voz do coração? Uma história emocionante e arrebatadora que não podem deixar de ler!

Leituras para as Férias Grandes, por Alexandra Martins

Com o verão, chegam o sol, o calor e, claro, as férias! E apesar de um bom livro se ler em qualquer estação do ano, admito que, para mim, o verão puxa a leituras mais leves, mais alegres, mais sonhadoras. E é por isso que vos deixo as seguintes sugestões, entre livros mais antigos e novidades editoriais, todos perfeitos para ler estendidos na toalha à beira-mar ou numa cama de rede no meio do campo.

Uma aventura na praia, de Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada (Caminho)

«Mergulhadores, navios afundados, tesouros no fundo do mar, um acampamento agitado, um casal estrambólico com dois filhos infernais que dão pelo nome de Bruninho e Bruninha, mais o perigosíssimo ladrão sul-americano que se desloca de helicóptero e que ninguém no mundo conseguiu capturar, são os ingredientes desta aventura numa praia cheia de rochas e grutas onde as emoções vão muito para além de namoros e banhos de mar.»

E começamos com um clássico, mas que é um dos meus livros favoritos da série Uma Aventura. Este livro tem tudo: praia, serra, grutas misteriosas, amizade, romance, aventura e diversão. Sempre na companhia dos eternos cinco amigos e seus cães, com novas personagens extravagantes e cativantes em partes iguais. E o Duarte, claro. Não sabem quem é? Então leiam este livro e depois digam lá se não concordam com a Luísa!

Entre as linhas, de Jodi Picoult e Samantha Van Leer (Bertrand Editora)

«Delilah não consegue parar de ler o seu conto de fadas preferido. As outras raparigas da sua idade já começaram a namorar e são populares, mas ela prefere o conforto de um final feliz e de saber que não vai ter surpresas. Até que lhe acontece a maior surpresa de todas… Oliver é o príncipe encantado do conto de fadas de que Delilah tanto gosta. Um dia, ele olha para ela da sua página e começa a falar. É um milagre que a princípio parece perfeito… mas depois fica tudo virado do avesso. Agora Delilah vai ter de decidir: vai ajudar o príncipe Oliver a sair das páginas do livro? Ou será a sua oportunidade para mergulhar nas páginas de um final feliz?»

Uma jovem apaixonada pelos livros e pelas suas histórias. Um conto de fadas de encantar. Um príncipe vindo diretamente das páginas do nosso livro preferido, para dar uma reviravolta à nossa vida e nos fazer questionar o que é normal e o que é real. Querem melhor do que «mergulhar nas páginas de um final feliz»? Só que os finais felizes dão trabalho, tal como a nossa protagonista irá perceber. Valerá a pena? Vamos descobrir!

Quatro amigas e um par de calças, de Ann Brashares (Editorial Presença)

«Esta é a história de quatro grandes amigas que, pela primeira vez, vão estar separadas nas férias de Verão. Antes de partirem, fazem um original acordo: partilhar umas “calças mágicas” compradas em segunda mão, que enviarão por correio umas às outras. Nestas férias, cada uma delas viverá algo de completamente novo, tendo como única testemunha o par de calças.»

O verão lembra-me sempre este livro. Quatro adolescentes, amigas desde sempre, terão de se separar pela primeira vez nas férias de verão e é individualmente, sem a força umas das outras, que tanto vão aprender, que tanto vão crescer. Quatro histórias que se interligam e que têm como ponto de convergência a amizade verdadeira, o crescimento e os desgostos que ele pode trazer e, sempre no centro, um par de calças de ganga mágicas que zelam pela união destas amigas. Uma história intemporal, mas com um gostinho especial a verão.

O verão em que me apaixonei, de Jenny Han (Topseller)

«”Toda a minha vida era medida em verões. Como se não começasse efetivamente a viver enquanto não chegasse junho, até estar naquela praia, naquela casa.”

Tudo o que é bom e mágico acontece durante o verão, e é a sonhar com o verão que Belly, de 16 anos, passa os seus dias. Para ela, os invernos são insuportáveis e sinónimo de estar longe de Jeremiah e de Conrad, os rapazes que Belly conhece desde a sua primeira estadia na casa de praia. Eles são os seus quase-irmãos, os seus inseparáveis parceiros de aventuras. Até que chega aquele verão — maravilhoso e ao mesmo tempo terrível — em que tudo muda. Estas poderão ser as últimas férias que passam todos juntos na casa de praia. Chegou o momento de perpetuar memórias, confessar paixões escondidas e, acima de tudo, é hora de, finalmente, Belly começar a obedecer ao seu coração. Um romance com sabor a mar e a liberdade, sobre crescer e apaixonar-se, deixando-nos a desejar por mais.»

Os verões perfeitos de Belly, Jeremiah e Conrad estão a chegar ao fim e é esta a última oportunidade que têm para estar juntos. E é neste verão que Belly descobre que tanto pode mudar de um ano para o outro. Terá de enfrentar os seus sentimentos e o seu futuro, na esperança de conseguir que a felicidade dure mais do que uma estação. Do outro lado das páginas, estamos nós, a acompanhar o seu desenvolvimento e a torcer pelo seu final feliz.

A incrível viagem de Arthur Pepper, de Phaedra Patrick (Topseller)

«Repleta de personagens inesquecíveis e episódios memoráveis, “A Incrível Viagem de Arthur Pepper” é uma história imperdível sobre o despertar para as possibilidades infinitas da vida.
Arthur Pepper, de 69 anos, leva uma vida simples e rotineira, como quando a sua mulher, Miriam, era viva. Levanta-se às 7h30, rega a sua planta Frederica e vai tratar do jardim. O dia a dia de Arthur corre como deve ser. Sem surpresas. Sem sobressaltos. Até que no primeiro aniversário da morte da mulher, tudo muda. Ele encontra no meio dos pertences de Miriam uma pulseira que não se recorda de ter visto antes. Uma pulseira com oito berloques diferentes, cada um mais misterioso do que o outro. Num deles encontra até um número de telefone.
Intrigado, Arthur resolve telefonar e descobrir a quem pertence aquele número. As revelações que se seguem vão lançá-lo numa jornada surpreendente. De Londres a Paris, cidades que nunca imaginou visitar, Arthur irá fazer novas e fascinantes descobertas não só sobre a sua mulher, mas também sobre si próprio.

Encantador e comovente, mordaz e cheio de humor, este romance é ideal para leitoras de ficção romântica.»

Leitoras e leitores, de ficção romântica e de todas as idades. Assim devia dizer este livro. Simples sem ser simplista, introduz-nos um conjunto de temas que nos fazem questionar a nossa própria vivência e a forma como levamos a nossa vida, tudo através da história de Arthur Pepper, um homem de rotinas previsíveis que, um ano depois da morte da sua mulher, descobre algo que o lança numa viagem por vários países, mas também pelo tempo, de forma a ficar a conhecer toda a verdade sobre a mulher que tão bem julgava conhecer. Uma viagem também de autoconhecimento, permitindo-nos acompanhá-lo e pensar, questionar, compreender. Um livro para viajar nas férias.

Leituras para as Férias Grandes, por Ana Ramalhete

Vamos aproveitar as férias para olhar com atenção. Olhar para cima, olhar para baixo, olhar para dentro, olhar para fora,  olhar para eles, olhar para nós…Olhar para todos os lados!

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Inventário ilustrado das aves – texto de Virginie Aladjidi, ilustração de Emmanuelle Tchoukriel, tradução de Elisabete Ramos

«Do pinguim ao cardeal, do melro à andorinha… são quase 80 as espécies de aves que voam e trinam por entre as páginas deste inventário repleto de penas e plumas coloridas.»

Um inventário minucioso de várias espécies de aves, ensinando a identificar e a nomear cada parte do corpo, desde o bico até às penas. Descreve a alimentação, as atividades preferidas, os cantos e o chilrear característico de cada espécie. Recheado de ilustrações realistas e coloridas, este inventário é um companheiro indispensável na descoberta das aves e dos seus voos.

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Noite Estrelada – Texto e ilustração de Jimmy Liao, tradução de Ana M. Noronha e Domenica Ignomeriello, edição Kalandraka

«Noite estrelada tem como protagonista uma jovem menina, cuja narrativa na primeira pessoa mostra a forma como é afectada pela sua realidade e pelo mundo que a rodeia. É uma história sobre a solidão e a amizade, a perda e a descoberta, sobre o crescimento e sobre como a arte e a imaginação podem ser veículos de liberdade.»

Nesta história dedicada a todas «as crianças que não se sentem em sintonia com o mundo», a imaginação e a fantasia surgem como formas de libertação de uma realidade pouco atraente, onde estão presentes os conflitos familiares, a solidão e o bullying. O nascimento de uma amizade inesperada vai despontar como um meio de libertação, de fortalecimento individual e de descoberta da beleza, da natureza ou da arte.
O quadro A noite estrelada de Van Gogh inspirou Jimmy Liao no título, em partes do texto e nas aguarelas intensas, onde predominam os amarelos e os azuis fortes. Como é habitual nos seus álbuns, as imagens funcionam como um outro texto que desenvolve, completa e acrescenta o que está escrito.

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O que aconteceu à minha irmã? Texto De Simona Ciraolo, tradução de Rui Lopes, edição Orfeu Negro

«Esta é a história ternurenta de uma menina que muito intrigada com a irmã adolescente, tenta desvendar a todo o custo este grande mistério. Quem é esta nova irmã? Porque já não quer brincar aos mesmos jogos e anda aos segredinhos pela casa?»

Este álbum ilustrado aborda a cumplicidade entre irmãs e o momento em que esta é perturbada pelas alterações de comportamento e pelas mudanças físicas que a irmã mais velha sofre, da noite para o dia. A consciência e investigação de tal fenómeno, pela mais nova, são acompanhadas página a página pelas ternas ilustrações que jogam com os tons de laranja e vermelho em contraste com os azuis e cinzentos, embrenhando-se texto e imagem numa fusão perfeita.

lobo

Na Boca do Lobo – Texto de Sara Monteiro, Ilustração de Susana Carvalhinhos, edição APCC (Associação para a promoção cultural da criança)

«Estes poemas, inspirados em expressões idiomáticas comuns, como por exemplo “fazer uma tempestade num copo de água”, “dar nome aos bois” ou “perder a cabeça”, foram escritos como se se desconhecesse o seu significado, abrindo caminho para o mundo do imaginário.»

Dezassete poemas que nos afastam das conceções iniciais com que certas expressões idiomáticas são utilizadas e nos fazem sorrir e pensar e olhar para todos os lados: para a cidade, para o mundo animal, para o mar, para a lua, para o corpo humano, para o céu. São versos que não batem na mesma tecla e que certamente não nos levam por maus caminhos.
As ilustrações coloridas e bem-humoradas de Susana Carvalhinhos vestem os poemas e lavam-nos alma.

olhos
Olhos tropeçando em nuvens e outras coisas – Texto de João Pedro Mésseder, ilustração de Rachel Caiano, edição Caminho

«Há olhos que quase só deslizam no telemóvel; e olhos que tropeçam em nuvens, em bolas, em pessoas, em patas de aranha, eu sei lá em quê. Às vezes, esses olhos tropeçantes querem que as mãos escrevam textos à maneira de haicais (este livro explica o que são). Os olhos tropeçam num melro, a mão escreve um; numa borboleta, a mão escreve outro, e por aí fora. E há mãos que gostam de desenhar…haicais. Mas será isso possível? É abrir o livro e logo se verá.»

João Pedro Mésseder tropeça em coisas e como das coisas nascem outras coisas escreveu estes poemas de instantes ou instantes de poemas inspirados nos haicais japoneses. São versos que nos transportam ora para a claridade das manhãs, ora para as nubladas tardes de verão e que, em certos momentos, nos fazem lembrar Eugénio de Andrade.
A delicadeza e beleza das ilustrações de Rachel Caiano, a preto, vermelho e azul, traduzem-se em fortes imagens poéticas, quais haicais desenhados.
Um livro que nos deixa com
«Olhos
Tropeçando nas nuvens,
Aturdidos de alegria»

Entrevista a Catarina Nunes de Almeida

por Sofia Pereira

Catarina Nunes de Almeida nasceu em Lisboa, em 1982. Licenciada em Língua e Cultura Portuguesas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ensinou, entre 2007 e 2009, Língua Portuguesa na Universidade de Pisa. Em 2012, concluiu, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, uma Tese de Doutoramento intitulada «Migração Silenciosa – Marcas do Pensamento Estético do Extremo Oriente na Poesia Portuguesa Contemporânea» e, atualmente, trabalha num projeto de investigação de Pós-Doutoramento no Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, também no âmbito do Orientalismo Português. A sua ligação à poesia iniciou-se com a publicação de poemas em revistas literárias portuguesas e estrangeiras e a participação em diversos encontros internacionais de poesia. Tem cinco livros de poesia publicados –  Prefloração (2006), A Metamorfose das Plantas dos Pés (2008), Bailias (2010), Marsupial (2014), Achamento (2015) –  e um dirigido ao público infantojuvenil – O dom da palavra (2016).

A Fábulas entrevistou a autora. Catarina, que desde cedo manifestou um enorme fascínio pelo Teatro e pela Literatura, tendo frequentado diversos cursos e oficinas criativas, fala-nos do seu gosto pela poesia e do seu percurso literário.

Que papel desempenha a poesia na sua vida?
Não desempenha um papel. Quando muito a poesia está na assistência. Umas vezes aplaude-a de pé, outras levanta-se e vai-se embora. Quando leio um poema (ou escrevo) agrada-me sobretudo aquela sensação de poder entrar onde não há tempo. Num haiku, por exemplo, nunca sei se me demoro por quinze segundos, se por quinze séculos. Isto é o que me faz bem na poesia, ir para fora de pé e afogar-me.

Muitos estudos psicológicos concluem que a poesia pode ter maiores benefícios para o bem-estar do ser humano do que os livros de autoajuda. Concorda?
Esses estudos deixam-me arrepiada. É uma visão muito utilitarista da poesia, que sinceramente não me interessa. Talvez possamos dizer, invertendo um pouco os termos, que cada poeta escreve o seu próprio livro de autoajuda. Mas sabendo de antemão que no final não salvará ninguém, nem sequer a si próprio.

Em que momento da sua vida surgiu o encanto pela leitura e pela escrita de poesia?
O amor pela leitura e pela escrita nasceu antes de saber ler ou escrever. Os livros de histórias interessaram-me sempre e eu gostava de os receber, gostava que os adultos mos lessem. Outras vezes imaginava, inventava a partir das ilustrações, como qualquer criança. Também era uma grande criadora de dramas e tragédias para as minhas bonecas. A escrita ia aparecendo assim: frases ou cantilenas que se inscreviam nos meus pensamentos. Neste aspeto, o contacto com a natureza, nos verões com os meus avós, foi muito importante para tornar os meus sentidos disponíveis. Observar os adultos era uma coisa que adorava. É importante que uma criança aprenda a ver além do que é objetivamente visível e lhe seja dado espaço para partilhar as suas descobertas – por mais simples e comuns, devem ser recebidas como coisas raras. Assim uma criança vai aprendendo a colecionar os seus pequenos milagres e a pensar com poesia.

É uma autora da novíssima poesia portuguesa. Há uma proximidade em estilo nos novos poetas contemporâneos?
Do lado de dentro é difícil ter uma visão do conjunto. Haverá coincidências em certas angústias que perpassam a nossa geração, no ritmo da escrita (que reflete o da própria vida), nos espaços das cidades que partilhamos e que coabitam vários poemas. Porém, não existe atualmente um movimento estético organizado que reúna várias vozes como os que existiram noutros momentos.

Quando lemos os seus livros, facilmente percebemos que há uma forte ligação ao Oriente. Como surgiu esse fascínio?
O interesse pelo Extremo Oriente foi crescendo à medida que desenvolvia a minha investigação de doutoramento. Esse interesse, que começou por ser puramente estético – pela poesia e pela arte –, rapidamente se transformou num interesse espiritual. Certos aspetos da tradição budista foram ao encontro de questões profundas, silenciosas, que estavam comigo há muito tempo. E à medida que avanço em leituras – ou que pratico exercícios como a meditação – o meu entendimento do mundo transforma-se e a escrita também se transforma. Todo este processo está ainda muito ativo e tem abalado poderosamente a minha estrutura, mas descrevê-lo é quase impossível.

Com O dom da palavra estreia-se na literatura para crianças e jovens, criando «uma espécie de poema contínuo, escrito sob a forma de diálogos». Fale-nos um pouco sobre este livro.
O João Concha, que ilustrou este livro e foi também o seu editor, convidou-me um ano antes para escrever o número seguinte da Colecção Alice (Não Edições), criada a pensar em miúdos mais ou menos graúdos. A ideia era fazer qualquer coisa que se aproximasse mais da poesia, algo que me pareceu bastante difícil. Mas sou amiga do João há muito tempo e sinto imensa afinidade com o seu trabalho – tínhamos, aliás, já colaborado num projeto antes deste, embora não tenha saído da gaveta –, pelo que lá me enchi de coragem. Tinha uma fonte riquíssima lá em casa, o meu filho, a quem acabei por dedicar o livro. As crianças são uma espécie de reis Midas da linguagem: quase todas as palavras que proferem se transformam em ouro. Passei a fazer esse exercício de o escutar com mais atenção do que nunca, de me concentrar na essência das suas perguntas, das suas inquietações, na forma como reconstruía os conceitos, o discurso. E foi um exercício que nunca mais abandonei, porque me faz visitar uma série de raízes: as da minha própria linguagem, as das minhas ideias e as dos meus afetos.

Podemos identificar versos e imagens de outros poetas na sua poesia?
Sim, isso acontece, como é natural. Todos nós temos mestres e entramos em diálogo com eles – algumas vezes essas referências transparecem de forma evidente, outras vezes são mais subtis. Também já aconteceu esses ecos revelarem-se mais tarde, quando releio um poema publicado há algum tempo. Isso mostra que essa revisitação é também um processo inconsciente. Portanto, prefiro não destacar (ou destapar) aqui nenhum nome.

Como é o seu processo de criação artística?
Nada organizado. Posso passar várias semanas sem escrever um verso e a certa altura ser atravessada por ele (ou por uma imagem antes dele) e no momento mais inoportuno. É comum guardar fragmentos no telemóvel, nos rascunhos das sms. Ultimamente, os poemas saem dum só jorro, por vezes até difícil de acompanhar só tendo duas mãos. Depois volto a eles, claro, para os limar, mas cada vez menos. Para os meus três primeiros livros escrevia sempre os poemas em caderninhos. O acto de me sentar a um computador inibia a fluidez e o despojamento de que eu precisava. Além de que, alguns versos deixados de lado, por vezes encontravam salvação numa segunda ou terceira leitura. Depois, aos poucos, fui-me habituando, porque passei a estar mais tempo a trabalhar ao computador e, por vezes, para não deixar fugir um verso, acomodava-o logo ali no documento ao lado. Já no que respeita à relação entre os poemas, quando se entra na fase de escrever o livro propriamente dito, com uma estrutura pensada, o computador facilita um pouco. Quando publico um livro, geralmente nos tempos que se seguem ando muito às cegas, não encontro logo um fio condutor a partir do qual escrever. Mas quando ele me aparece, nunca mais o largo: sei que vou escrever um livro e não uma coletânea de poemas.

 

«Os Lusíadas»: poema de fundação nacional

por Sofia Pereira

Os Lusíadas de Luís de Camões, poema épico, tem como núcleo central estruturante da obra a viagem inaugural de Vasco da Gama à Índia (1948). A viagem deste navegador estava já muito remota e bastante tratada discursivamente para aparecer como evento histórico marcante. Quando Camões vai à Índia, fá-lo num período de declínio do Império Português no Oriente. Assim, a epopeia surge como uma forma de exaltação de um Império já conscientemente crepuscular.

Desde há muito tempo que se ansiava em Portugal por um poema de vitórias; desde a expansão portuguesa, que marcou a verdadeira abertura ao “outro”, que se sentia a necessidade de celebrar a entrada numa nova fase da Humanidade. Esta vontade de escrever uma epopeia era profundamente humanista, assim como era o pensamento camoniano.

Cumprido esse desejo por parte de Camões, herdámos uma obra símbolo de um mundo axiologicamente marcado por princípios épicos/guerreiros muito próprios. O intuito do autor é (re)fundar a nação, a visão de Portugal pelos portugueses e pelos estrangeiros. Pretende sublimar a glória de um dos primeiros países no tempo, com fronteiras territoriais bem definidas. Daí a sua preocupação em produzir uma arqueologia e uma genealogia portuguesas.

A epopeia camoniana divide-se em quatro planos: o da viagem, o da narração histórica, o mitológico e o das considerações do Poeta. É através destes planos, do discurso de Vasco da Gama e de alguns deuses que tomamos contacto e conhecimento com o espírito de aventura, a universalidade, a heroicidade e a religiosidade, valores inerentes à empresa dos descobrimentos/navegações, que adquirem toda a dimensão estética que permite a fusão harmoniosa da imagem nacional/imperial ambicionada pela política nacional de então.

A nação portuguesa é apresentada no poema como centro de uma pátria de fronteiras em expansão. Os Lusíadas convertem-se na metáfora privilegiada da nação, contribuindo, dessa forma, para a criação da imagem que temos da nossa identidade.

A universalidade camoniana inclui toda a aventura ética, estética e religiosa que a travessia implicou em termos pessoais e nacionais. São estes aspetos narrados, que aliados à cultura recebida do Humanismo, se tornam símbolos de uma nação em expansão, Portugal. Esta epopeia é o reflexo não só da aventura vivida pelo povo, mas também a do próprio autor.

Com este poema temos acesso aos acontecimentos que foram ocorrendo ao longo dos tempos e que tornaram Portugal num país duplamente central: centro face à Europa como descobridores de novos mundos e centro face aos outros na Europa.

Os Lusíadas exprime a ideia de Portugal como núcleo de expressão, ideário do renascimento. Um olhar em busca do projeto imperial de D. Manuel, com aspetos medievais, como o messianismo, a missão de expandir a fé e restaurar o poder de Jerusalém.

É, de facto, a história da fundação do nosso país enquanto nação, desde os seus primórdios até à sua vontade de expansão à escala planetária, divulgando a fé e o cristianismo tão característicos dos Portugueses.

O álbum infantil

por Sofia Pereira

A literatura para a infância desempenha um papel primordial na formação de futuros leitores que, na juventude e na idade adulta, manifestam um interesse e prazer próprios pelo ato de ler. Por essa razão, torna-se fundamental a criação de hábitos de leitura desde tenra idade, através de um contacto precoce com o universo das letras e dos livros.

Pese embora o facto de ser, algumas vezes, considerado um meio de intertextualidade, certo é que o álbum infantil tem conseguido granjear, ao longo dos tempos, um reconhecimento notável como género literário eficaz na aproximação dos pequenos leitores ao mundo da literatura.

Pelas suas particularidades, o álbum infantil atribui uma universalidade ao objeto livro, entrelaçando a linguagem verbal e imagética, o que permite fruir em pleno do seu caráter artístico, aprimorar a sensibilidade  estética e desenvolver a capacidade de expressão.

Características do álbum infantil:

  • Presença de elementos paratextuais;
  • Capa rija em formato de grandes dimensões;
  • Ilustrações muito apelativas de página inteira ou dupla página;
  • Modos diversos de organizar a informação: narrativo (o enredo resolve-se numa situação final); lista (sequência de tópicos ou de ideias); e documentário (função meramente didática).

Os álbuns podem ser puros – apenas com ilustrações – ou significativamente ilustrados, quando o texto e a imagem estabelecem uma relação de interdependência, conferindo um sentido global à obra.

Potencialidades do álbum infantil:

O álbum infantil visa contribuir para a educação literária da criança, preparando-a para participar ativamente no processo de exploração da obra. Privilegiando momentos enriquecedores e agradáveis, os pequenos leitores têm, por vezes, acesso a referências culturais que remetem para áreas tão diversas, como a arte, a música, o teatro, a história, a geografia, a ciência, possibilitando o alargamento dos seus horizontes culturais e despertando a sua sensibilidade estético-literária. Os conteúdos temáticos proporcionam um conhecimento do mundo, um diálogo aberto sobre os problemas relativos ao universo pueril e um contacto com o fantástico e o maravilhoso. Atualmente, já existem também álbuns que incluem, no seu conteúdo, mapas, cartas, livros de receitas, entre outros tipos de textos, assumindo-se, desse modo, como pontes para a construção de representações mentais sobre diferentes géneros textuais.

Pela preocupação pedagógica contemplada, assente na transmissão de valores veiculados e na socialização das crianças, o álbum infantil contribui para o desenvolvimento da criança aos níveis social, cultural, afetivo e linguístico, tornando-se, cada vez mais, um objeto de fruição e de pedagogia para pais e educadores.

 

Desassossegos, curiosidades e inquietações na literatura: entrevista ao escritor Paulo Kellerman

paulo-kellerman

(c) Ricardo Graça

por Sofia Pereira

Paulo Kellerman nasceu em Leiria, em 1974. Editou, em edições artesanais e limitadas de autor, Livro de Estórias (1999), Dicionário (2000), Sete (2000), Uma Pequena Nuvem Solitária perdida no Imenso Azul do Céu (2001), Fascículo (2002 a 2005, 75 edições), Da Vida e da Morte (2005). Foi um dos responsáveis pela conceção e edição da revista literária Cadernos do Alinhavar e é autor do blogue A Gaveta do Paulo. Participa na organização de diferentes eventos e iniciativas culturais.

A Fábulas entrevistou o escritor. Paulo Kellerman fala-nos do seu percurso e gostos literários, do universo dos seus livros e da importância da literatura na vida de todos nós.

Como surgiu o gosto pela escrita?
Na escola, quando percebi o alcance da palavra escrita. Os professores liam textos meus à turma e havia sempre grandes reações, geralmente de riso porque eram textos com algo de humorístico. E eu, num canto, assistia ao poder que essas palavras tinham, as reações que causavam. Não era eu que desencadeava as reações, eram as minhas palavras. Essa descoberta foi determinante.

Lembra-se do primeiro livro que leu na infância?
Não lembro. As recordações mais fortes e antigas referem-se aos Cinco, mas certamente que terei lido muitos livros antes; contudo, não tenho memória dessas leituras.

Qual a importância de A Gaveta do Paulo?
O blogue foi criado em sequência da publicação do livro Gastar Palavras, em 2005. Alguns dos contos que tinha pré-selecionado para esse livro acabaram por ficar de fora e criei o blogue para os divulgar. A partir daí, a Gaveta ganhou uma enorme importância; os livros que fui publicando foram sendo alinhavados e pré-publicados no blogue, conto a conto, permitindo-me um contacto imediato com os leitores, uma interatividade muito estimulante e enriquecedora. Foi tornando-se um sítio de experimentação e partilha, de crescimento, de liberdade. Mais tarde, com a explosão das redes sociais, os blogues tornaram-se menos apetecíveis para muita gente, mas a Gaveta continua a ser um local especial para mim.

Miniaturas, como o título sugere, é um livro de pequenas histórias, num total de cinquenta e seis, recheadas de humor. Considera que o humor pode ser uma forma de nos aliviar das vicissitudes da vida?
O humor pode ser uma distração poderosa. Mas também pode ser uma forma muito incisiva de nos fazer pensar, de nos confrontar, de nos agitar.

A morte, a solidão ou o confronto interior são alguns dos temas presentes no livro Gastar Palavras. É seu objetivo levar os leitores a identificarem-se e a refletirem sobre as emoções e os pensamentos inerentes a todo o ser humano?
O objetivo é confrontar o leitor consigo próprio e desassossegá-lo. Já percebi que muitos leitores procuram na literatura uma possibilidade de fuga ou de sonho, ou até respostas para as suas inquietações. Mas os escritores que julgam ter respostas ou soluções assustam-me um bocado. Prefiro causar alguma inquietação, algum desconforto; porque é o desconforto que nos impele a avançar, arriscar, tentar. Quando estamos confortáveis, tendemos a ficar quietinhos.

Os Mundos Separados Que Partilhamos narra, num tom intimista, situações e momentos contaminados por solidões, cumplicidades, melancolias e obsessões. Podemos ver nele um retrato da sociedade dos dias de hoje?
Para quem escreve, a observação é fundamental. E um texto inclui, consciente ou inconscientemente, muito do que é observado. Um texto será uma mistura de observação, reflexão, imaginação e vivência; nesse sentido, será sempre um retrato da contemporaneidade do autor. Mesmo que se escreva ficção científica ou romance histórico.

Mente-me e seremos mais felizes é o título de um dos seus e-books. Nele, podemos encontrar a estória «Toda a gente sabe que o facebook é uma treta». Considera que as redes sociais podem ser prejudiciais para os relacionamentos?
As redes sociais têm potencialidades extraordinárias mas também assustadoras. Por esta altura, é impossível pensar em redes sociais e não lembrar o que o Trump faz neste âmbito, a forma como manipula a realidade usando o Twitter.

Silêncios entre Nós é um livro que, à semelhança dos anteriores, aborda as relações humanas no mundo contemporâneo. O silêncio pode ser audível?
O silêncio pode ser tão ruidoso que é capaz de nos ensurdecer. Devia haver nas escolas, juntamente com o português, a matemática e a educação física, uma disciplina que ensinasse como lidar com o silêncio, como aprender a geri-lo e até a saboreá-lo.

Chega de Fado é um ato revolucionário?
Neste país de consensos meio podres e quase sempre aparentes, dizer que não se gosta de fado é quase um ato de rebeldia. E, por acaso, não gosto mesmo nada de fado. Mas o fado a que se refere o título não é o género musical, é antes aquele espírito de ladainha e lamentação, de conformismo, de lamuria e queixa, que caracteriza tantos discursos e posturas. E nesse sentido, sim: chega de fado.

O Céu das Mães é o seu primeiro livro infantojuvenil, com ilustrações de Rute Reimão. Trata um tema difícil e pouco abordado na literatura para crianças: a perda. Conta a história de um menino que perdeu a mãe e que é confrontado com uma afirmação muitas vezes escutada: «a tua mãe está no céu». Considera que os livros podem ajudar a explicar a morte às crianças?
Mais do que explicar, talvez os livros possam ajudar a lidar com emoções. E não gosto muito da literatura que tenta dar respostas ou explicações, da literatura com lições ou moralismos. Parece-me bem mais enriquecedor quando suscita questões, desassossegos, curiosidades, inquietações. Quando tira o sono, em vez de adormecer.

Com o livro Serviços Mínimos de Felicidade deu o salto da escrita de contos para o romance. Somos comodamente felizes ou ambicionamos uma felicidade esplêndida e impossível de alcançar?
O desejo de uma felicidade esplêndida pode ter muitas formas e materializações, pode ser simplesmente aquilo a que chamamos sonhos; e se deixamos de sonhar, passamos a viver em função do que somos ou temos, não mudamos; não crescemos. Vivemos em serviços mínimos. Essa é uma das ideias presentes no livro: como reagir quando percebemos que deixámos de sonhar?

Muito recentemente, publicou mais um livro dirigido ao público mais novo: A tristeza dá fome, com ilustrações de Lisa Teles. Fale-nos um pouco desta história.
No final dos anos 90, tinha uma espécie de editora caseira, através da qual editava os meus próprios livros; eram edições artesanais, em que eu construía cada um dos exemplares dos livros; depois, oferecia-os. Fiz, deste modo, milhares de livrinhos. A Lisa é a responsável pela Escaravelho, uma editora que também tem uma componente muito importante de trabalho manual na conceção dos seus livros. E isso fascinou-me. Além disso, é uma ilustradora fantástica. Portanto, foi uma enorme honra colaborar com ela neste projeto, foi das aventuras mais fantásticas em que participei. Quanto à estória, nasceu da sugestão de uma aluna, numa visita a uma escola.

Foi autor e concebeu algumas exposições literárias como Foto estórias (2000), As Palavras do Olhar (2002), Pedaços de Literatura (2005) e Insignificâncias (2006). Quer partilhar connosco como foram essas experiências?
Todos esses projetos estiveram relacionados com a exploração do potencial entre texto e imagem, tendo criado contos originais a partir de fotos ou pinturas de diversas pessoas. A relação texto / imagem é algo que continua ainda hoje a apaixonar-me, assim como a possibilidade de colaboração e criação conjunta com autores das mais diversas áreas. A aventura mais recente neste domínio é um blogue chamado Fotografar Palavras, criado há alguns meses. Mas desses projetos de início do século, o que melhor recordo foi uma exposição que criei (e que depois deu origem a um e-book) chamada Sincronismos (2002); marcou-me particularmente porque foi o único trabalho onde, além do conceito e do texto, também concebi as imagens.

sincronismoExposição Sincronismo

Quando lemos os seus livros, percebemos que a escrita é sempre muito fluida e de leitura fácil, mas não deixa de ser inquietante. Tem a ver com as temáticas abordadas ou é um estilo próprio?
Tem a ver com um estilo próprio, com opções técnicas. Sempre fiz experiências do ponto de vista técnico, sempre me testei e me desafiei, sempre refleti sobre a dimensão mais técnica da minha escrita. Existe uma dimensão instintiva e incontrolável na escrita, mas também é fundamental o trabalho puramente técnico de depuração, de análise e corte, de adequação; e este trabalho está em evolução constante, é sempre melhorável.

Ao longo da sua carreira, já foi distinguido com alguns prémios literários. Como encara todo esse reconhecimento?
Encaro como um incentivo, sinto-me agradecido e responsabilizado. Depois, esqueço e continuo a fazer o que tenho a fazer.

É notória a relação de proximidade que mantém com os seus leitores. Como o faz? Provoca isso mesmo ou é a própria ambiência da escrita que a suscita?
Talvez tenha a ver com o facto de encarar a literatura como algo natural e não uma espécie de dádiva divina apenas ao alcance de meia dúzia de privilegiados, como por vezes acontece com alguns escritores. Gosto quando escritor e leitor estão ao mesmo nível, e ambos podem partilhar algo. É possível que a relação de proximidade nasça daí.

Conte-nos uma situação vivida num encontro com os seus leitores e tenha sido particularmente especial.
As idas a escolas são sempre momentos intensos. Houve, por exemplo, situações tremendas em idas a escolas de 1º ciclo para falar sobre o primeiro livro infantil, que conta a estória de um menino que não tem mãe, e onde convivi com meninos que não têm mãe. Uma das experiências mais tremendas que tive foi numa ida a uma prisão, onde estive duas ou três horas com presos que não me conheciam de lado nenhum, nem tinham tido qualquer contacto com o meu trabalho. Mas nos encontros mais convencionais com leitores também acontece todo o tipo de coisa, desde pedidos concretos de conselhos a ameaças de ser processado por ter uma escrita indecente e perturbadora.

Como tem sido a receção dos leitores à sua escrita?
Importante é existir reação, o que custa é a indiferença. As reações vão sendo boas ou más mas geralmente fortes, e isso é que importa. Se fosse como naqueles inquéritos que fazem aos serviços de comunicações, preferia ser avaliado com 1 ou 10, e não 5.

Onde e quando é que gosta mais de escrever?
Não tenho rituais de escrita nem grandes exigências. Preciso apenas de ter um desejo genuíno de escrever, um desejo que por vezes é uma necessidade. E mesmo que as mãos não estejam a teclar ou a rabiscar, a mente está muitas vezes a escrever. Durante a condução, por exemplo.

Qual foi o último livro que leu?
O meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout.

Se fosse uma personagem literária, qual seria? E porquê?
Tom Sawyer. Foi uma personagem que marcou muito a minha infância, através da série que passava na televisão nos anos oitenta. Na altura não fazia ideia que tinha origem num livro. Nunca quis ser bombeiro ou piloto ou super-herói. Queria ser o Tom Sawyer.

Os livros podem ser amores de perdição, ora porque nos cativam e relemos vezes sem conta, ora porque nos desapontam e nunca mais os voltamos a ler. Fale-nos de um livro que o tenha marcado e daquele que, de alguma forma, o desiludiu.
Os livros não desiludem, eu é que me desiludo porque tenho entusiasmos e expectativas irrealistas. Acontece com frequência. A última vez foi com o último livro que li: O meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout. Quanto a livros marcantes, prefiro aqueles que deixam marcas subtis, por vezes inconscientes, ou apenas percetíveis com o tempo. O Albert Cossery dizia: «Se um determinado livro não tiver sobre o leitor um tal impacto que no dia seguinte ele deixe de ir ao emprego, esse livro nada vale.» Não concordo muito com isto, se uma pessoa precisa de um livro para mudar de vida, algo me parece errado. Acredito mais que dezenas de livros ao longo de anos possam fazer alguém mudar a perspetiva, mudar o foco; na verdade, a literatura serve para isso mesmo, é essa uma das suas riquezas: proporcionar novos focos, novos ângulos.

Qual o/a escritor/a que convidaria para jantar? Porquê?
Elena Ferrante. Porque gosto bastante dos seus livros e porque a própria autora em si é uma espécie de personagem literária. Seria muito interessante tentar perceber onde começa a realidade e termina a ficção.

Que conselhos daria a um jovem que quisesse gastar as palavras na publicação de um livro?
Surpreende-me quando encontro pessoas que desejam escrever mas não leem. É fundamental, é o primeiro passo: ler. Descobrir, perceber, saborear, aprender através do que se lê. A leitura é o oxigénio de quem escreve, ou pelo menos um dos oxigénios. Também importa ser curioso, fazer questões e ter inquietações, imaginar, ter vontade de observar o mundo com um olhar diferente do que se usa habitualmente. Não ter medo de arriscar.

Podemos esperar a publicação de novos livros para breve?
Publiquei dois livros no espaço de três meses. Agora, é tempo de acalmar um pouco.

Afonso Cruz, o escritor que pergunta, compreende e sente

afonso-cruz_copyright_paulo-sousa-coelho(c) Paulo Sousa Coelho

Escritor, ilustrador, cineasta, ilustrador e ainda músico na banda The Soaked Lamb, Afonso Cruz é um dos mais interessantes autores portugueses da atualidade. Nasceu em julho de 1971, na Figueira da Foz e frequentou a Escola António Arroio, a Faculdade de Belas-Artes de Lisboa e o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira. Apaixonado por viagens, publicou o seu primeiro romance em 2008 e, desde então, a escrita tem sido o combustível da sua vida, com livros muito inspiradores. Ao longo da sua carreira, foi já distinguido com diversos prémios e galardões literários e viu a sua obra chegar além-fronteiras, a países como Brasil, Bulgária, Canadá, Colômbia, Croácia, Eslováquia, Espanha, França, Hungria, Itália, Macedónia, Polónia, Sérvia, República Checa e Turquia.

A Fábulas entrevistou o escritor. Afonso Cruz, muito atento à realidade que o rodeia, fala-nos do seu percurso como autor de livros para todos os leitores – crianças,  jovens e adultos – e da sua paixão pelo mundo das artes.

Considera que tem sido dado espaço suficiente à literatura em Portugal?
Creio que os escritores esperam sempre mais. O suficiente é uma palavra terrível, que implica a sensação de que nos acomodamos ao mundo tal como ele nos é dado. Há sempre muito mais a fazer, muitas milhas a percorrer.

Sabemos que todos os escritores têm autores de referência. Quais são os seus?
Vários, evidentemente. Sem ser fastidioso e exibir uma lista, refiro três: Saint-Exupéry, Kazantzakis e Dostoievsky.

É escritor, ilustrador, músico e cineasta. Em que mundo vive melhor?
Depende das alturas, mas passo mais tempo a escrever. Todas essas áreas me preenchem de maneira diferente, e não abdicaria de nenhuma, mas a escrita faz-me viver de um modo mais completo, uma vez que passo mais tempo com ela.

Quando lemos os seus livros, ficámos com a ideia de que é um leitor nato e compulsivo. Lê desde muito cedo? E como começou a ter acesso aos livros?
Leio muito, sim, e não escreveria se não lesse. Não sei ao certo quando comecei a ler nem quando me tornei leitor, mas os livros que li na adolescência marcaram-me muito, em especial os livros que eram do meu pai. Ao pegar em livros que não eram dirigidos especificamente para crianças, entrei noutro mundo. Costumo dizer que a a grande viragem da minha adolescência não aconteceu por causa das hormonas, mas da literatura.

Qual foi o livro que mais o marcou em criança? Porquê?
Em criança, não sei. Mais tarde, aos doze anos, li um livro de Dostoievsky que marcou muito a minha vida enquanto leitor. Era um conto chamado O sonho de um homem ridículo. Também, ao mesmo tempo, com a bd, comecei a ler outras coisas, como os livros de Hugo Pratt. O desenho, que fugia a normas convencionais, foi uma revelação. Com Dostoievsky identifiquei-me com a responsabilidade de cada um e com a importância do julgamento interior para as nossas vidas.

Como surgiu a paixão pela escrita?
Muito mais tarde, nunca pensei em ser escritor, mas acho que, a certa altura, tudo o que tinha lido começou a derramar-se, a tornar-se visível. Foi mais ou menos natural, sem que o que tivesse planeado, assim como uma criança começa a falar.

Lembra-se do primeiro texto que escreveu?
Quando viajava, porque não levava máquina fotográfica, escrevia muito daquilo que vivenciava em pequenos blocos que guardava no bolso das calças e que me ajudavam a reter experiências, permitiam-me gravar, não com imagens, mas com palavras, o que via e sentia.

Tem livros dirigidos a diferentes públicos. Prefere escrever livros para adultos ou para os leitores mais novos? Porquê?
Não penso nisso. Escrevo livros que depois encontram o seu público, os seus leitores. Tenho uma ideia, tento concretizá-la o melhor que sei, da maneira que considero mais eficiente. Por vezes, inclui crianças, outras não.

As recordações que tem da infância passada em Buarcos, Figueira da Foz, influenciaram a escrita de Mar?
Algumas, sim. O mar é uma presença constante na Figueira. Em casa dos meus avós, de manhã, era a primeira coisa que via quando olhava pela janela. Há pouco tempo escrevi uma frase, num livro: «Como é que um mar tão grande cabe numa janela tão pequena?» Eram as minhas manhãs, a olhar para aquele gigante que entrava pela casa, pela janela mais pequena e enchia tudo. Outras coisas foram também importantes, temas omnipresentes, que fazem parte do imaginário da Figueira da Foz. A pesca do bacalhau, por exemplo, é matéria romanesca pura. A meio da escrita do volume Mar, pedi a uma jornalista figueirense, a Andreia, para me enviar uma entrevista que ela tinha feito a um velho capitão da pesca do bacalhau e ponderei pedir-lhe permissão para a publicar na íntegra nesse volume da Enciclopédia da Estória Universal. Só desisti, por não ser o espírito do livro, que é acima de tudo ficcional.

O amor, o passado e a morte são temas nucleares das suas histórias. A escolha destes assuntos deve-se ao facto de fazerem, inevitavelmente, parte integrante da nossa existência?
Claro, são grandes temas. Na verdade, acho que são os temas de toda a literatura. Ao falar da humanidade, inevitavelmente tocamos, abordamos, aprofundamos esses assuntos, que, na prática estão interligados e em certas situações chegam a confundir-se.

Na sua obra, é percetível um enorme fascínio pela religião. A que se deve esse interesse?
Falo de religião, mas não creio falar mais de religião do que de ciência, filosofia ou arte. São maneiras de compreender o universo. Não faz sentido alhearmo-nos de algumas delas. A religião é mais uma ferramenta, ainda que esteja cada vez mais em desuso e desacreditada como forma de entender a vida. No entanto, não perdeu pertinência.

«Quando Deus fecha uma porta, abre-nos um livro». Esta é uma das frases que podemos ler em Jesus Cristo Bebia Cerveja. Considera que a literatura permite-nos viajar, descobrir novos mundos e viver experiências interessantes sem sairmos do mesmo lugar?
A leitura não substitui a viagem física, assim como a viagem não substitui a leitura, apesar de terem alguns pontos comuns. Em ambas podemos experimentar novos mundos e perspetivas, por vezes importantes, outras vezes banais, mas também belos, incómodos, gratificantes, dolorosos, prazerosos. Mas, sobretudo, permitem vários ângulos de visão, novas maneiras de compreender, de aceitar, de execrar.

Para onde vão os guarda-chuvas é um livro que coloca questões, procura explicar o que nos rodeia e estimula a pensar. Como surgiu também o seu interesse pelo mundo da filosofia?
Gosto, como tanta gente, de tentar perceber o mundo que me rodeia. Como uma criança fascinada por um brinquedo, tento abri-lo para ver como funciona, e nesse processo, leio o que posso sobre o que outros têm ou tiveram a dizer sobre isso. A filosofia, assim como a arte e a literatura, são formas de chegar mais longe, de abrir o mundo e tentar perceber as engrenagens que se escondem por debaixo da superfície. Olhar para a vida sem que nos interroguemos, ou a pensemos, é renunciar a uma boa parte da nossa humanidade.

Flores conta a história de um homem que perde a sua memória afetiva e, perante a impossibilidade de a resgatar, procura reinventá-la. Dependemos dos outros para conservar as nossas memórias?
Dependemos dos outros para tudo. A nossa tragédia e felicidade está nos outros. Ninguém existe sem ser percebido, sem ser tocado.

E o escritor, como tem a capacidade de chegar a um maior número de pessoas, tem a responsabilidade de preservar a memória?
O escritor não tem responsabilidade nenhuma, para além da de um cidadão comum. Qualquer coisa imputada a um escritor limita, evidentemente, a sua liberdade e eventualmente a sua criatividade. A preservação da memória é mais um trabalho de um historiador ou de um arqueólogo, mais de um cientista do que de um escritor, cuja matéria-prima é acima de tudo a ficção. Não quer dizer, que, em muitos livros, isso não seja feito de forma admirável. Mas não é um dever.

No livro A Cruzada das Crianças, convida-nos a viajar para o mundo das crianças e lembra-nos que também elas têm sonhos – por vezes, os de tantos adultos – e que há momentos na vida em que é necessário um manifesto, para conseguir alcançar aquilo que desejamos. Deixou algum sonho de criança por realizar? E, hoje, é um sonhador?
Sou otimista. Não gosto nada dos discursos, sejam de direita ou de esquerda, sobre o anúncio do fim dos tempos, da derrocada, do abismo: o estertor do comunismo, o fim do capitalismo, o romance esgotado, a geração vazia e sem propósito (como se tivesse existido uma geração qualquer que não tivesse considerado isso em relação à geração seguinte). Mário de Sá Carneiro, quando tinha dezassete anos, escreveu um conto em que não havia nada mais para descobrir exceto a morte. Basta olhar para o século XX, para perceber tudo o que foi descoberto desde então. Há pouco tempo descobriram uma nova espécie de baleia. Não foi um inseto na Amazônia, foi um mamífero gigante. Há muito para sonhar e para descobrir. Mário de Sá Carneiro, não era um velho desistente quando escreveu esse conto, tinha dezassete anos, mas este é um discurso presente em todas as gerações, no seio do modernismo ou na China de há dois mil e quinhentos anos.

Nem todas as baleias voam é o título do seu último livro, inspirado no projeto «Jazz Ambassadors», e apresenta-se como uma reflexão sobre a vida, a morte e a arte. Considera que a arte, neste caso a música, pode ter um papel importante para transformar o mundo?
Sim. A música, de uma maneira mais imediata, pode fazer mudar muita coisa, basta ver como nos move, como faz encher estádios, como arrasta multidões e põe pessoas a dançar e a gritar em uníssono. Há um poder catártico e avassalador na música, um fenómeno mais difícil ou impossível de conseguir com outras artes, que não deixam de ser igualmente eficientes e marcantes, mas cujo impacto nos fruidores é feito de maneira diferente. Em todo o caso, independentemente do meio de expressão, a cultura é essencial para a sociedade, para a sustentar, mas principalmente para a mudar e melhorar.

Ao longo da sua carreira, recebeu já várias distinções e prémios literários. Enciclopédia da Estória Universal é distinguida com o Grande Prémio de Conto Castelo Branco, em 2009. O livro A Boneca de Kokoschka vence o Prémio da União Europeia de Literatura, em 2012. Recebeu, ainda, o Prémio Autores da Sociedade Portuguesa de Autores (SPA), em 2011 e 2014, e o Prémio Nacional de Ilustração, em 2014. A obra Os livros que devoraram o meu pai é distinguida com o Prémio Literário Maria Rosa Colaço e A contradição humana vence o Prémio Autores SPA/RTP. O romance Jesus Cristo Bebia Cerveja, editado em 2012, é distinguido com o Prémio Time Out – Livro do Ano e Para onde vão os guarda-chuvas, publicado em 2013, com o Prémio Autores SPA na categoria Melhor Livro de Ficção. Muito recentemente, o romance Flores vence o Prémio Literário Fernando Namora, em 2016. Como encara todo este reconhecimento?
Com alegria. É sempre gratificante saber que alguém acha que o nosso trabalho é meritório, independentemente da subjetividade inerente. Os prémios, para quem vem de fora do meio, são especialmente importantes. Apontam para os nossos livros e fazem com que não sejam tão facilmente ignorados, quer pelos media, quer pelos leitores.

Muitas vezes, notamos que há uma certa dificuldade em escolher um livro para oferecer às crianças. O Plano Nacional de Leitura, em parceria com a Rede de Bibliotecas Escolares e as Bibliotecas Municipais, desempenha um papel fundamental na promoção da leitura. Acha que o objetivo está a ser cumprido?
Sim. Acho que é muito importante. Tenho conhecido pessoas incríveis, que têm atos superrogatórios e promovem a leitura com uma dedicação admirável. Quando apoiados por um plano ou instituição que os ajude, podemos efetivamente chegar mais longe em muito menos tempo.

Conte-nos uma situação que tenha vivido numa visita a uma Escola ou a uma Biblioteca e tenha sido particularmente especial.
Numa escola em Medellín, na Colômbia, um rapaz rapou o cabelo, pôs uma barba postiça e uma argola na orelha, para ficar parecido comigo. Havia centenas de crianças à minha espera, mas este sósia, que dizia ser o meu maior fã, deixou-me verdadeiramente surpreendido.

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Escreve todos os dias? Por prazer ou por necessidade?
Escrevo quando tenho algo para escrever. Espero que seja todos os dias, mas por vezes não acontece. De qualquer modo, prazer e necessidade confundem-se.

Tem algum ritual de escrita?
Escrevo em qualquer lugar e a qualquer hora. Mas prefiro escrever à noite, quando tenho mais silêncio e menos interrupções. Ninguém me liga, me envia e-mails. A noite é, também, pelo meu ritmo biológico, o momento em que me sinto mais confortável. Escrevo sempre no computador ou no iPad.

Lembra-se do momento em que viu pela primeira vez um livro seu nas montras das livrarias? Descreva-nos como foi a sensação.
Não me lembro, o que deve querer dizer que não dei muita importância.

Podemos esperar a publicação de novos livros para breve?
Claro. Estou sempre a escrever.

Mais informações sobre o autor aqui.

 

 

«Harry Potter and the Cursed Child»: Voltar a Hogwarts duas décadas depois

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*Atenção! Pode conter spoilers*

Eleito pelos utilizadores do Goodreads como o melhor livro de Fantasia de 2016, Harry Potter and the cursed child – Parts I & II* parte de uma boa premissa: voltar a Hogwarts 19 anos depois e contar a história do segundo filho de Harry Potter, enquanto nos mostra as vidas adultas das nossas personagens favoritas.

Albus Severus Potter é o segundo filho de Harry Potter e Ginny Weasley e cresceu à sombra da fama do seu pai. Um miúdo introvertido e calado que, por infortúnio, sorte ou destino, no seu primeiro ano em Hogwarts, é selecionado para os Slytherin e torna-se no melhor amigo de Scorpius Malfoy, filho do grande rival do seu pai. Como se isso não bastasse, tem ainda de lidar com os problemas típicos da adolescência e com um relacionamento cada vez mais tenso com o seu progenitor: duas personagens tão parecidas em tantos aspetos, mas que são incapazes de se compreender mutuamente. Isto leva Albus a querer destacar-se do seu pai, acabando por, em conjunto com Scorpius, criar uma série de confusões perigosas para o universo mágico numa altura em que Lorde Voldemort está novamente à espreita. No final, Albus precisará de toda a sua coragem, a par dos laços fortes da amizade e da família, para poder evitar que um grande mal seja feito.

Esta obra trata-se, na verdade, do guião da peça de teatro homónima, escrito por Jack Thorne e baseada numa história original de Thorne, J. K. Rowling e John Tiffany. A peça, dividida em duas partes para serem vistas de uma assentada ou em dias seguidos, estreou no dia 30 de julho de 2016 no Palace Theatre, em Londres, e pouco depois foi editado o seu guião, criando assim a oitava história oficial de Harry Potter, agora um adulto a trabalhar no Ministério da Magia e a ter de lidar com a adolescência dos seus filhos. J. K. Rowling disse, na altura, que estava «confiante de que, quando o público visse a peça, iria concordar que aquele era o único meio adequado à história».

Não tendo visto a peça, não posso opinar sobre a mesma, mas acredito que os atores e toda a envolvência cénica acrescentarão uma profundidade e um conteúdo extra ao guião, dando-lhe, acima de tudo, a tridimensionalidade das personagens que por vezes me faltou na leitura desta obra. Porque, apesar de ser claramente uma história mágica e com um dedinho da incrível imaginação de J. K. Rowling, nas folhas do livro falta toda a componente narrativa que descrevia os pensamentos, as emoções e o carácter do Harry. Desta forma, ficamos muitas vezes a pensar porque é que as personagens (as novas, como Albus e Scorpius, e as antigas, o Harry, o Ron, a Hermione e o Draco crescidos) fazem o que fazem, o que está por detrás das suas ações e dos seus pensamentos. Um exemplo claro é o início da história e a seleção de Albus para os Slytherin – quem leu o livro Harry Potter e a Pedra Filosofal sabe bem que o Chapéu Selecionador tem em conta os sentimentos e as escolhas dos alunos; no entanto, nesta obra, a seleção foi muito rápida, muito apressada e quase descartada como irrelevante, quando na verdade é ela que molda grande parte do percurso da história, já que Albus se sente à parte da sua família por causa desta questão. Todo o percurso de Albus até ao quarto ano, e consequente degradação da relação com o seu pai, é, aliás, encarada muito superficialmente, o que me fez distanciar-me desta personagem.

Tive também alguma dificuldade em criar empatia com as personagens adultas: Harry tornou-se mais severo e rígido do que toda a sua história fazia prever, Ron serve apenas como comic relief, Hermione não acrescenta grande coisa à história e o papel de Ginny é perfeitamente secundário. Ganha pontos Draco Malfoy, com uma história vivida no interregno temporal e que é abordada, para efeitos que história, fornecendo-lhe profundidade. Draco cresceu e evoluiu de uma forma que me pareceu condigna com o final da sua personagem nos Talismãs da Morte.

Apesar de um pouco apressada no início, e da falta de alguns pormenores que me pareciam importantes esclarecer para melhor compreendermos as personagens, a verdade é que a história vai ganhando um ritmo interessante, com conteúdo, melhorando a cada página. E termina com aquela sensação que todos os livros do Harry nos deixaram: podem acontecer coisas terríveis, mas a vida continua e o dia de amanhã será sempre melhor. E, no fim, o melhor que temos são mesmo os amigos e a família. Mesmo quando demoramos a entender-nos uns com os outros.

Um livro que me confortou e que agradará a qualquer pessoa que goste de Harry Potter e queira saber mais um pouco da história. Aos fãs mais acérrimos – para os quais não devem haver variações aos livros originais, nem sequer as adaptações para filmes – então não recomendo este livro, uma vez que é preciso lê-lo com mente e coração abertos, sabendo que pode haver coisas muito diferentes das que imaginámos. No fundo, surpresas são um dos pontos fortes de J. K. Rowling e Jack Thorne captou muito bem esse espírito com este Harry Potter and the cursed child – Parts I & II.

 

*A obra em português, editada pela Editorial Presença, tem o título Harry Potter e a Criança Amaldiçoada – Partes 1 & 2, mas aqui mantive o título original em inglês, pois foi nesta língua que li esta obra.

Canções e Histórias de Natal

por Alexandra Martins

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Edição em português – Edições Convite à Música

O Natal é uma época propícia à música, aos contos, às atividades em família. E que melhor programa do que pegar neste livro da Edições Convite à Música e passar um bom bocado com os miúdos? Ele tem histórias divertidas e engraçadas, ilustrações lindíssimas e 12 canções originais e perfeitas para cantar em conjunto que vêm num CD áudio.

Lá por casa, ofereci-o ao meu filho no último Natal e já lhe demos muito uso! Mais ainda agora que mais um Natal se aproxima. Antes de ir para a caminha, lemos sempre uma ou duas histórias (o livro tem 12) e, durante o dia, ouvimos as músicas e cantamos e dançamos. É um dois em um perfeito para quem, como o meu filhote, adora histórias e adora canções. Vá, eu também adoro!