Category Archives: SOFIA PEREIRA

Aprende ciência com o «Mestre Carbono», de Filipe Monteiro

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por Sofia Pereira

No próximo dia 20, realiza-se, pelas 15h30m, no Centro de Interpretação Ambiental de Leiria, a apresentação do livro infantil Mestre Carbono, o Cientista, do escritor e cientista Filipe Monteiro.

Mestre Carbono, o Cientista conta a missão de três cientistas que fazem as suas investigações e experiências num laboratório, para descobrir uma solução que permita controlar e reverter as questões climáticas, causadas sobretudo pelo aquecimento global e pela excessiva libertação de CO2. No entanto, durante a noite, contam com a preciosa ajuda dos pequenos habitantes do laboratório – os átomos e as moléculas – que, chefiados pelo Mestre Caborno, se mostram bastante empenhados na salvação da Natureza.

Este livro concilia as palavras e os conceitos de química com as ilustrações apelativas e vivas, tornando-se muito interessante e motivador para promover e divulgar a ciência, e para suscitar a curiosidade e incentivar o interesse dos pequenos leitores.

Paralelamente, esta obra infantil procura homenagear todos os cientistas que, na sua grande maioria, trabalham num laboratório, numa sala, num gabinete ou numa biblioteca, na procura de um mundo melhor.

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Mestre Carbono, o Cientista
Autor: Filipe Monteiro
Ilustrações: Ana Beatriz Marques
Editora: Chiado

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As escolhas de Natal de… Sofia Pereira

O Natal está a chegar e cresce a ansiedade de encontrar um presente no sapatinho. A Fábulas é uma devoradora de livros. De todos os tamanhos e formas. Grandes, pequenos, com letras e ilustrações, só com ilustrações ou apenas com texto. E, nesta quadra festiva, sugere-te livros para explorares o ano que se avizinha, no quentinho da lareira.

Natal!, texto de Tracey Corderoy, ilustrações de Tim Warnes, Minutos de Leitura

«O Natal está a chegar. O Rodrigo nunca esteve tão entusiasmado! E ideias não lhe faltam: ele quer tornar este o melhor Natal de sempre….

Oh, oh! Cuidado!»

Por que razão? O Natal é uma época de grande euforia para todos, sobretudo para os mais novos. Esta é a história de Rodrigo, um menino como tantos outros, que fica entusiasmado com a noite de Natal e contagia os pequenos leitores com as suas brilhantes ideias para tornar este um dia único e especial.

Oh! Um Livro com Sons, de Hervé Tullet, Editorial Presença

«Depois de “Mistura as Cores” e “Vamos Jogar?”, Hervé Tullet volta com mais um extraordinário livro que nos leva ao mundo das cores e da imaginação. Mas este é um livro sonoro! Carregas com o dedo na página e… és tu que fazes os sons! Para além de estimular a imaginação, eis um livro perspicaz e divertido que promove o desenvolvimento das capacidades psicomotoras e aumenta a atenção e a criatividade.»

Livro-interativo, para quê? Os momentos em família, além de serem fundamentais no crescimento e desenvolvimento das crianças, podem constituir importantes momentos de brincadeiras e aventuras. Num ambiente lúdico, a família poderá explorar este livro que estimula, através do jogo de sons, a imaginação, a criatividade e atenção da criança.

 

O Gigante Secreto do Avô, de David Litchfield, tradução de Luísa Costa Gomes, Booksmile

«Autor vencedor do prémio Melhor Livro Ilustrado da Waterstones. Quando o avô lhe diz que existe um gigante escondido na sua cidade, que ajuda toda a gente em segredo, o Billy não acredita. Por isso, decide procurá-lo. Mas quando finalmente o vê com os seus próprios olhos, ele fica aterrorizado! O que o Billy não sabe é que aquele enorme e assustador gigante está prestes a ensinar-lhe uma importante lição… Divertida e ternurenta, esta é uma história GIGANTE sobre a amizade e a aceitação da diferença, que não vai deixar ficar ninguém indiferente.»

Porquê? Os livros são um bom instrumento para transmitir valores, como o Amor, a Amizade, o Respeito, a Tolerância, a Verdade, a Entreajuda, entre outros. Mais do que uma festa, o Natal é uma (re)união da família e dos amigos e a leitura desta história, num ambiente saudável e harmonioso, pode ajudar a cultivar este sentimento muito nobre logo desde tenra idade.

Para lá do Inverno, de Isabel Allende, Porto Editora

«Isabel Allende parte da célebre frase de Albert Camus para nos apresentar um conjunto de personagens próprios da América contemporânea que se encontram «no mais profundo inverno das suas vidas»: uma mulher chilena, uma jovem imigrante ilegal guatemalteca e um cauteloso professor universitário. Os três sobrevivem a uma terrível tempestade de neve que se abate sobre Nova Iorque e acabam por perceber que para lá do inverno há espaço para o amor e para o verão invencível que a vida nos oferece quando menos se espera. “Para lá do Inverno” é um dos romances mais pessoais da autora: uma obra absolutamente atual que aborda a realidade da migração e a identidade da América de hoje através de personagens que encontram a esperança no amor e nas segundas oportunidades.»

Ler, porque sim! Pela apaixonante história que prende a nossa atenção e cativa até ao desfecho, sugiro que não deixem de ler este magnífico romance.

Reaccionário com Dois Cês – Rabugices Sobre os Novos Puritanos e Outros Agelastas, de Ricardo Araújo Pereira, Tinta da China

«Depois de mais de 40 mil exemplares de “A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram Num Bar”, chega o novo livro de Ricardo Araújo Pereira. Quem já o leu, já o ouviu na rádio ou já o viu na televisão (e é difícil que uma das três coisas ainda não tenha acontecido a alguém em Portugal) sabe que uma das grandes causas de Ricardo Araújo Pereira é a liberdade de expressão. “Reaccionário com Dois Cês” é sobre isso, mas é também sobre portugalidade, vitórias no Euro, propriazinhas (ou selfies), língua portuguesa, Shakespeare, os justiceiros das redes sociais, a vagina de Marine Le Pen e outras rabugices, num livro que se divide em quatro capítulos: – Comente o seguinte País – Admirável Facebook novo – Então mas o que é isto? – Assim como nós não perdoamos a quem nos tenha ofendido.»

Vale a pena ler? Óbvio que sim! Um livro recheado de bom humor, de ironia, de boa disposição, de irreverência e de inteligência, que nos fala da realidade do país e do mundo.

Livros que ajudam as crianças a vencer os medos

por Sofia Pereira

Medo do escuro, das alturas, de se separar dos pais, de ser esquecido na escola, de dormir sozinho, dos pais se divorciarem, de personagens assustadores, de barulhos e ruídos estranhos, e da rejeição social são alguns dos medos que fazem parte do crescimento das crianças.

Em boa verdade, é natural que a criança sinta medo e isso é importante. Quando os mais pequenos sentem receio de algo, descobrem esse sentimento e começam a ser cautelosos. Paralelamente, as situações de temor ajudam-nos a avançar ou a fugir de determinadas realidades, tornando-os mais corajosos e resilientes.

O apoio dos pais nesta etapa da infância é crucial. É importante que estes estejam preparados para ajudar as crianças a lidar e a superar este sentimento intrínseco ao seu desenvolvimento, preparando-as para um futuro saudável e tranquilo.

Os livros podem ajudar as crianças a superar os seus medos. Num ambiente seguro e harmonioso, os pais podem e devem falar com os pequenos leitores sobre os seus medos e, através de fantásticas histórias e ilustrações, mergulhar nos seus medos, sem qualquer preocupação, tornando um problema tão delicado mais fácil de ser superado.

Deixamos a sugestão de alguns livros que podem ajudar as crianças a vencer os seus medos:

Maria do Medo – Uma História para Aprenderes a Vencer o Medo, de Rita Castanheira Alves, ilustrações de Carla Nazareth, Booksmile

«A Maria adora a escola, os dias de festa e cantar as suas canções favoritas. Desenha com a mão esquerda, sempre com lápis de cera, e adora tomar banho na banheira cheia de água. Mas a Maria tem um problema. Um problema que aparece todas as noites… Na hora de dormir, lá vem ele: O MEDO! Inclui dicas para os pais ajudarem as crianças a gerir as emoções.»

 

O gato e o escuro, de Mia Couto, ilustrações de Danuta Wojciechowska, Caminho

«A inventividade a que Mia Couto nos acostumou e o seu domínio da língua, numa história para crianças, ou também para adultos partilharem com as crianças. As ilustrações de Danuta Wojciechowska complementam este universo maravilhoso. Para perder o medo do escuro.»

 

 

Onde Vivem os Monstros, texto e ilustrações de Maurice Sendak, Kalandraka

«Na noite em que Max vestiu o seu fato de lobo e começou a fazer travessuras a torto e a direito, a mãe chamou-lhe: «-MONSTRO!» E Max respondeu-lhe: «-VOU-TE COMER!» Então ela mandou-o para a cama sem jantar. Naquela mesma noite, no quarto de Max surgiu uma floresta que cresceu… Esta obra, publicada pela primeira vez em 1963, suscitou certa polémica pelo tratamento nada exemplar para com as crianças, mas tornou-se num clássico da Literatura infantil e juvenil e num referente imprescindível do seu género.
Não só obteve a Medalha Caldecott (1964) e o American Book Award, como também foi eleito pelo The New York Times Book Review como um dos melhores livros ilustrados; desde então foi traduzido em inúmeras línguas e tornou-se num dos títulos mais lidos. Max empreende uma viagem simbólica a partir daí até um lugar fantástico, atravessando um tempo mítico e enfrentando os seus próprios medos. Depois de se tornar no rei de uns monstros tão ferozes como insinuantes, regressa ao ponto de partida, onde o aguarda o jantar.»

Carlota Barbosa, a Bruxa Medrosa, de Layon Marlow, ilustrações de Joelle Dreydemy, Dinalivro

«Era uma vez uma bruxa, mas não pensem que era uma bruxa como as outras. Nada disso. Ao contrário do que é costume, a Carlota Barbosa tem medo de tudo e por isso, em vez de assustar, é ela quem se assusta. E assusta-se por tudo e por nada: treme quando vê um sapo; o escuro deixa-a com os nervos em franja. Se encontra uma aranha, dá logo um salto até ao tecto. E quando voa no céu a alta velocidade, cai da vassoura abaixo se um mocho lhe cruza os ares. Mas a Carlota tem um grande amigo, um companheiro inseparável: é o Espinosa, o seu gato de estimação. Graças a ele, a Carlota torna-se uma bruxa verdadeira e corajosa. E assim perde a sua alcunha… Medrosa!»

O Monstro das Cores, texto e ilustração de Anna Llenas, Nuvem de Letras

«As emoções explicadas às crianças através das cores. A personagem principal é um monstro que muda de cor consoante o que está a sentir. Ele não percebe porque muda de cor e a sua amiga, a menina, explica-lhe o que significa estar triste, estar alegre, ter medo, estar calmo e sentir raiva.»

 

O pequeno livro dos medos, texto e ilustração de Sérgio Godinho, Assírio & Alvim

«Escrito e ilustrado por Sérgio Godinho, este livro fala-nos dos medos da infância, alguns mais fortes que nós, de como ultrapassamos outros (…o cavalo chegou-se à minha mão aberta, que tremia com a maçã em cima. Era a única coisa que lhe podia dar. Foi a única coisa que ele levou. Adeus cavalo, adeus medo dos cavalos.).
Até à história que o avô Francisco Magalhães, tipógrafo de profissão, escreveu para o seu filho João de cada vez que ele tivesse medo. Porque o medo também faz parte de nós (quem não tem medo?) mas quando começa a ser exagerado é preciso controlá-lo, nem que para tal seja preciso saltar, correr, espernear, lutar, falar, responder, perguntar, ou, muito simplesmente, pensar.»

Boas leituras!

 

Leituras para as Férias Grandes, por Sofia Pereira

Cinco livros para ler, para desfrutar, para folhear, para oferecer ou para partilhar. Em qualquer lugar. A qualquer hora. Porque, nas férias, é tempo de ler. E os livros são sempre uma das melhores companhias.

 

A Sereia e os Gigantes, de Catarina Sobral, Orfeu Negro

«Conta a lenda que havia dois gigantes, o Mar e a Montanha, que nunca se tinham zangado. Um dia, a Sereia chegou e, de imediato, despertou a curiosidade dos gigantes, que logo dela se enamoraram. Numa disputa feroz, o Mar e a Montanha movem céus e terra um contra o outro, na esperança de conquistar o amor da Sereia.»

Porquê? Verão cheira a maresia, praia, ondas, conchas e criaturas e monstros marinhos. Por isso, estas são as férias ideais que nos podem ajudar a viajar, através do universo das letras e dos livros, para cenários idílicos e paradisíacos, ao conhecer e ler histórias que despertem a curiosidade pelo maravilhoso mundo marinho, descobrindo as suas lendas, os seus encantos e as suas riquezas.

Cá Dentro, texto de Isabel Minhós Martins e Maria Manuel Pedrosa, ilustrações de Madalena Matoso, Planeta Tangerina

«Na Antiguidade julgava-se que o órgão responsável pelos nossos pensamentos e emoções era o coração. Hoje já sabemos que tudo o que somos – pensamentos, emoções, decisões, ideias – acontece dentro do cérebro, em conversa contínua com o resto do corpo. Mas como nasce um pensamento? Como funciona o cérebro? Como é que o cérebro guarda o que aprende? Como se emociona, cria, inventa e faz de cada um de nós uma pessoa única e irrepetível? Construído com o apoio de uma equipa de neurocientistas, filósofos e psicólogos, Cá Dentro acompanha a evolução do cérebro desde o primeiro segundo, mostra-nos a incrível realidade construída com a ajuda dos sentidos, explica-nos como aprendemos, decidimos ou agimos e também como nos ligamos às outras pessoas, outros cérebros. Se todas as experiências da vida contribuem para moldar o nosso cérebro, esperamos que esta leitura contribua para um cérebro (ainda) mais curioso, motivado e feliz.»

Por que razão? O cérebro humano é um mundo difícil de compreender. Mas todos, em algum momento das nossas vidas, ansiamos ter a lâmpada do Aladino para perceber como tudo funciona: os nossos pensamentos, as nossas emoções, as nossas ideias. Este livro, que pode ser explorado num ambiente de harmonia familiar, leva-nos numa viagem pelo órgão mais complexo de entender, numa linguagem acessível e num percurso de desafios sobre o fascinante e misterioso mundo da massa cinzenta. Uma descoberta que pode tornar os cérebros leitores mais seguros, exigentes, autênticos e espontâneos.

Descobre o caminho – No fundo do mar, de Paulo Boston, Booksmile

«Os habitantes da Cidade Oceânica precisam da tua ajuda! Explora o fantástico mundo subaquático e ajuda-os a construir um castelo. Mergulha junto ao navio naufragado e tem cuidado com o polvo gigante, enquanto resolves enigmas matemáticos e colecionas objetos ao longo do caminho.»

Livro-interativo, porquê? As férias são para ler, mas também brincar. E quando é possível conciliar estas duas actividades, tudo fica mais fácil. Com este livro, pretende-se que os leitores mais novos descubram o fascinante mundo aquático, através da interatividade e dos desafios matemáticos propostos, contribuindo para o seu desenvolvimento intelectual e para o raciocínio lógico.

O Mundo de Garfield 1978-1983, de Jim Davis, Verbo

«Quem não conhece Garfield, esse gato redondinho (nunca lhe chamem gordo!) e cor de laranja que nasceu na cozinha de um restaurante italiano? Preguiçoso e guloso, adora comida italiana (e não só!), não perde uma boa sesta, odeia as segundas-feiras, é avesso a passas e a dietas, tem nojo de caçar ratos, detesta despertadores e, sobretudo, tem um constante e adiado ajuste de contas (e de peso) com a balança. O Mundo de Garfield, 1978 – 1983, para além de coligir num único volume, a preto e branco e por sequência cronológica, as tiras originalmente publicadas durante os primeiros cinco anos e meio da vida de Garfield, conta ainda artigos que permitem ao leitor acompanhar o percurso de um gato sarcástico e preguiçoso, cujo sucesso é indesmentível.»

Ler, porque sim! O gato Garfield é a personagem de banda desenhada criada por Jim Davis e a mais publicada em jornais de todo o mundo, tendo-lhe valido, em 2002, um recorde do Guiness. É um gato preguiçoso, sarcástico e guloso, que adora dormir, comer lasanha e pizza e delicia os leitores com o seu humor indesmentível. Um livro para descontrair com as tirinhas apetecíveis deste gato redondinho!

A Sereia, de Kiera Cass, Marcador

«O mesmo discurso foi feito centenas de vezes a centenas de lindas raparigas que entram na irmandade das sereias. Há anos que Kahlen segue as regras, esperando pacientemente pela vida que poderá considerar sua. Mas quando Akinli, um ser humano, entra no seu mundo, ela não consegue continuar a viver segundo as regras. De repente, a vida pela qual tem esperado não parece tão importante como a que está a viver agora. «Se tens estado pacientemente à espera de algo num mundo não relacionado com “A Seleção”, aqui o tens! Deram-me a oportunidade de reescrever o meu primeiro livro, “A Sereia”. Este conta a história de Kahlen, uma sereia, enquanto vive com as suas irmãs ao serviço de Oceano, afundando navios com o seu canto e mantendo em segredo o seu dom mortífero. Kahlen vai gerindo as coisas o melhor que se pode esperar de uma rapariga que está proibida de falar, cantar e rir, até conhecer Akinli, um rapaz ligado a Oceano à sua maneira. E então, a vida que ela poderia ter agora, ainda que breve e cheia de segredos, parece valer o risco, mesmo que isso signifique desistir do futuro para o qual tem trabalhado.»

Vale a pena ler? Claro que sim! Como se cruzam os mundos de uma Sereia e de um Humano? Será que a conexão intensa que os une será suficiente para corromper as regras que os impedem de se ligar um ao outro? Até onde vai a coragem para seguir a voz do coração? Uma história emocionante e arrebatadora que não podem deixar de ler!

Novidades no mundo dos livros

por Sofia Pereira

Sol, calor, praia, mar, campo e esplanada são sinónimos de verão. A verdade é que as férias estão (quase) a chegar. Há mais tempo e disponibilidade para usufruir da companhia dos familiares e dos amigos. Mas é também nesta época que se compensa a falta de tempo que, durante o ano, temos para nos dedicar a atividades culturais que nos dão prazer. Que nos relaxam. Que nos enriquecem. Que nos alimentam o corpo e o espírito. Como a leitura. Quem não se sente sereno e num mundo mágico quando lê um livro? Porque podemos ler em todo o lado, basta para isso levarmos na mala, no saco de viagem e/ou de praia ou na carteira um pequeno livro para folhear e deixar-nos viajar pelo seu mundo imaginário e criativo. Sem sair do lugar.

Partilhamos com os nossos leitores o que há de novo no universo editorial, dirigido a leitores de diferentes idades – miúdos aos graúdos, para que possam fazer as vossas melhores escolhas:

A Maratona dos Bichos, texto de Regina Boratto e Vanda Romão e ilustrações de Vanda Romão, Editorial Caminho

«Três velhos amigos — um porquinho, um urso panda e uma tartaruga — adoravam corridas e sonhavam em ser velozes e ágeis como os felinos.
Resolveram, então, organizar uma maratona e correr também! Como não eram muito velozes, acharam melhor convidar outros animais, também lentos por natureza, para aumentar as hipóteses de ganharem.
E foi assim que um bicho preguiça, um rinoceronte e um burrinho entraram na disputa.
Os três amigos preparavam-se para vencer, mas quando a corrida começou, acabaram por se atrapalhar… E as surpresas também apareceram! O grande vencedor surpreende, dando uma lição a todos os que duvidaram da sua vitória.»

A Revolta dos Vegetais, de David  Aceituno e Daniel Montero Galán, Nuvem de Letras

«Os vegetais estão fartos! … Fartos de meninos chorões e queixinhas que nunca acabam o que têm no prato. Por isso, disseram BASTA! e reivindicaram o seu lugar no mundo. Como? com a revolta mais endiabrada, divertida e vitamínica jamais vivida no interior de um frigorífico. Um álbum ilustrado muito divertido e original para incentivar as crianças a comer vegetais.»

Se Vir Um Ovni… Peço-lhe Boleia, de Nurb, Planeta Editora

«Um manual de sobrevivência para o fim da adolescência – início da idade adulta. O popular YouTuber e cantor propôs-se escrever um livro que fosse uma espécie de manual para a transição entre a vida adolescente e a adulta, relatando as experiências e lições aprendidas na sua vivência. Mas, ao reflectir sobre a vida e o mundo que o rodeia, acabou por perceber que quem precisa de um manual para sobreviver neste planeta é ele.»

Por Treze Razões, de Jay Ashe, Editorial Presença

«Não podes parar o futuro, nem voltar atrás ao passado. A única maneira de perceberes o mistério… é carregando no play. Clay Jensen não quer ter nada a ver com as cassetes gravadas por Hannah Baker. Hannah está morta. Os seus segredos foram enterrados com ela. Mas a voz de Hannah diz a Clay que o nome dele está gravado naquelas cassetes e que ele é, em parte, responsável pela sua morte. Clay ouve as gravações ao longo da noite. Ele segue as palavras gravadas de Hannah pela pequena cidade onde vive… e o que descobre muda a sua vida para sempre. Por Treze Razões é um romance intenso e sempre atual, adaptado a minissérie pela Netflix.»

O Pianista de Hotel, de Rodrigo Guedes de Carvalho, Publicações Dom Quixote

«O Pianista de Hotel transporta-nos numa melodia.
É uma entrada para um mundo regido pela linguagem da música, pela sua força e beleza, presentes no ritmo de cada frase, de cada parágrafo rigorosamente medido.
Livro em camadas, nele se cruzam diversos planos, diversas histórias perpassadas pelo poder redentor da música que entra e rasga, a solidão, a dor e o vazio das pessoas que habitam nestas páginas. Com um vasto subtexto, a densidade das personagens está carregada de mistérios que nos prendem a sucessivas interrogações.
Há um pouco de nós em todas elas.
Há muito de nós neste mergulho ao mais fundo da alma humana.
É um romance que se lê e ouve, que mantém todos os sentidos alerta. Uma pauta musical, com andamentos diversos, que acabam por se cruzar numa vertigem imprevisível de autêntico thriller psicológico.
E, depois, há o pianista…»

Escrito na Água, de Paula Hawkins, Topseller

«Um thriller intenso, da autora do bestseller mundial A Rapariga no Comboio. Cuidado com as águas calmas. Não sabemos o que escondem no fundo. Nel vivia obcecada com as mortes no rio. O rio que atravessava aquela vila já levara a vida a demasiadas mulheres ao longo dos tempos, incluindo, recentemente, a melhor amiga da sua filha. Desde então, Nel vivia ainda mais determinada a encontrar respostas. Agora, é ela que aparece morta. Sem vestígios de crime, tudo aponta para que Nel se tenha suicidado no rio. Mas poucos dias antes da sua morte, ela deixara uma mensagem à irmã, Jules, num tom de voz urgente e assustado. Estaria Nel a temer pela sua vida? Que segredos escondem aquelas águas? Para descobrir a verdade, Jules ver-se-á forçada a enfrentar recordações e medos terríveis há muito submersos naquele rio de águas calmas, que a morte da irmã vem trazer à superfície. Um livro profundamente original e surpreendente sobre as formas devastadoras que o passado encontra para voltar a assombrar-nos no presente. Paula Hawkins confirma, de forma triunfal, a sua mestria no entendimento dos instintos humanos, numa história com tanta ou maior intensidade do que A Rapariga no Comboio

Boas leituras!

 

A importância da Literatura

por Sofia Pereira

“…leer puede que tenga el valor de hacermos más críticos, más reflexivos, más solidarios y tolerantes, más autónomos: puede dar la posiblidad de pensar por uno mismo, con lo que se convierte en herramienta imprescindible …”
(Puertas a la lectura)

Se a Literatura não necessita de se justificar porque possui um capital simbólico, uma arte gratuita e livre, não se pode, contudo, atualmente, deixar de se questionar sobre o seu presente e o seu futuro. A leitura está em crise, a Literatura deixou de ser uma marca de Homem culto. A atual cultura baseia-se noutras formas de aquisição, vindo esta arte a perder o prestígio que detinha até há uns anos atrás. Quando lemos um livro, conseguimos compreender o melhor e o pior de um povo, de uma cultura, pois nele cabem emoções, gostos, valores, ideologias e esperanças.

Ler um texto literário:

– estimula a aprendizagem da língua no seu poder de expressão mais perfeita e completa;
– permite adquirir conhecimentos de ordem linguística, estética e cultural;
– contribui para o aperfeiçoamento das expressões oral e escrita;
– contribui para uma visão crítica e reflexiva do mundo;
– desenvolve a formação cultural e cívica;
– proporciona experiências de emoção estética;
– fomenta valores morais;
– reforça a superação das fragilidades emocionais e as pressões do dia a dia, proporcionando o bem-estar físico, mental e social.

O texto literário é o thesaurus da identidade nacional e o espaço de diálogo com outras realidades culturais e literárias (textos de outros povos, outras terras e culturas). O seu estudo reforça a consciência do ser português, das raízes culturais e identitárias, num mundo globalizado.

A Literatura, também pelo seu carácter libertador e terapêutico, promove a interação, a socialização e a participação, preparando-nos para as contínuas mudanças da vida, auxiliando-nos a fomentar valores e crenças, desenvolvendo a nossa capacidade imaginativa e criadora e aumentando o nosso sentido crítico e estético.

 

Dia Mundial do Livro: qual a importância da leitura?

por Sofia Pereira

Hoje é o Dia Mundial do Livro!
O Dia Mundial do Livro é celebrado, desde 1996 e por decisão da UNESCO, a 23 de abril. Esta data foi escolhida com base na tradição catalã segundo a qual, neste dia, os cavaleiros oferecem às suas damas uma rosa vermelha de São Jorge, e recebem em troca um livro, testemunho das aventuras heróicas do cavaleiro. Em simultâneo, é prestada homenagem à obra de grandes escritores, como William Shakespeare e Miguel de Cervantes, falecidos em abril de 1616.

A leitura deve ser um hino à vida. O contacto com o livro como instrumento de trabalho e de lazer facilita o acesso à cultura, à informação e à educação, fomenta hábitos de leitura, contribui para a preservação das tradições e da cultura locais, estimula a inovação educacional, ampliando os horizontes sociais e culturais e contribuindo para o desenvolvimento democrático das sociedades, base de uma cidadania ativa e plena.

Para assinalar a data, a Fábulas convidou alguns leitores a partilharem a importância da leitura nas suas vidas:

Raquel Cravo, 6 anos, aluna do 1º ano

«Ler é muito importante porque aprendemos todas as coisas do mundo. Adoro ler e estou muito feliz porque já consigo ser eu a ler os livros sozinha.»

Alunos do 3º ano da turma 18 da Escola Básica do 1º ciclo da Gândara dos Olivais, Leiria

«A leitura é muito importante porque nos transporta para lugares mágicos. Permite-nos imaginar e viver aventuras fantásticas. Quando lemos, conseguimos esquecer as nossas tristezas.»

Fábio Canceiro, 31 anos, Jornalista

«É difícil descrever a importância que a leitura teve na minha vida. Desde que me conheço que as letras e as palavras, os livros, fazem parte da minha vida. Seja na construção de cenários imaginários seja no melhor conhecimento do mundo real. Graças aos livros e à leitura abri portas, quebra fronteiras, desvende mistérios. Não consigo imaginar a minha vida sem livros.»

André Barros, 32 anos, Compositor e Pianista autodidata

«Parece-me que em todos os géneros literários persiste, por parte do seu autor, uma vontade inequívoca de partilha. Seja esta de factos históricos ou científicos, de estados de espírito ou de sentimentos recalcados, de mundo ficcionados ou de relatos autobiográficos, a verdade é que de um livro comungamos na mesma medida em que se fôssemos o interlocutor presencial do autor da obra. E que privilégio é poder fazê-lo com tamanha intimidade e ao tempo que queremos… Sempre achei curioso que um poema musicado impõe necessariamente o seu tempo através da música que o acompanha, confinado ao seu ritmo e duração, sendo que um poema escrito adapta-se ao tempo de cada leitor, individualmente. Como apaixonado pelos sons confesso que para mim não há melhor combinação do que uma boa leitura potenciada por uma consonante paisagem sonora instrumental! Parabéns aos autores que, tantas vezes, nos comunicam de forma absolutamente altruísta e indelével!»

Catarina Pereira, 34 anos, Professora do 1º ciclo

«Para mim, a leitura tem uma grande importância. Com ela, estimulamos a nossa capacidade de aprendizagem e memória, como também a nossa escrita. Com a leitura desenvolvemos ainda a nossa imaginação, criatividade e adquirimos novos conhecimentos. E, para além de tudo isto, é um ótimo passatempo com efeito terapêutico que nos permite sonhar! Por isso, acho importante a leitura tanto nas crianças como nos adultos.»

Micael Sousa, 34 anos, Engenheiro Civil

«Ler para mim é a oportunidade de aprender, de aceder a conhecimentos que de outra forma me estariam vedados. Ler permite quebrar as fronteiras do tempo e do espaço, permite conhecer ideias distantes na sua pureza original. Podemos escapar à pressão e ditadura do presente acelerado, pois ler desenrola-se ao nosso ritmo, numa viagem para outra dimensão.»

Rita Pereira, 36 anos, Psicóloga

«Para mim, a leitura é importante porque ao lermos um livro este transporta-nos para outras vivências e novas realidades, desenvolvendo assim o nosso imaginário e a nossa criatividade. Ajuda-nos a libertar emoções e sentimentos reprimidos, a conhecer melhor o nosso interior e as pessoas que nos rodeiam, contribuindo para um melhor bem-estar aos níveis da saúde mental, emocional e social. No fundo, acaba por nos ajudar a crescer pessoal, espiritual e profissionalmente.»

Telma Fontes, 39 anos, Funcionária Pública

«Não me lembro de quando aprendi a ler, lembro-me unicamente de escrever em espelho porque era mais fácil e lembro-me, lembro-me perfeitamente do dia em que li Blaupunkt na porta do frigorífico lá de casa. Já nessa altura olhava para o copo meio cheio quando ele se apresentava meio vazio e disse rapidamente para a minha mãe: é frigorífico no país de outras pessoas. Deixo aqui o meu agradecimento aos meus pais por terem sempre livros em cima das suas mesinhas de cabeceiras, uns castanhos ou verdes da Círculos de Leitores, grandes, de uns escritores com nomes diferentes, como Alexandre Herculano e Eça de Queiroz. E agradeço também por nunca me deixarem faltar os livros coloridos no meu quarto, os da Anita e os da Condessa de Segur. E, claro, ao senhor da carrinha da Calouste Gulbenkian que me deixava sempre levar mais livros do que o permitido!
A importância da leitura da minha vida? Deve ter muita, não me lembro de como era dormir, sem ter um livro ao lado!»

Célia Alves, 40 anos, Funcionária Pública

«Há pessoas tão pobres, tão pobres, que só têm dinheiro! Esta frase feita ajuda-me a esclarecer o que, para mim, a leitura tem de tão especial uma vez que, independentemente do estrato social e da condição financeira, todos podemos ler! A leitura aguça-nos a sede de viver e permite-nos tudo… viajar, conhecer, sentir!! Quem nunca sonhou e foi feliz devorando as letras escritas por alguém com tanta paixão como quem as recebe, humildemente no seu coração?»

Saul António Gomes, Professor Universitário

«Ler é a oportunidade do encontro, da reflexão, da descoberta do maravilhoso e do sonho, mas também a oportunidade de crescer na vida e de se aprender a olhar o mundo de forma mais original, pessoal e sem limites. Ler por necessidade, ler para debater, ler para vencer barreiras e estarmos disponíveis para cada novo amanhã.»

Feliz Dia Mundial do Livro! E boas leituras!

Entrevista a Catarina Nunes de Almeida

por Sofia Pereira

Catarina Nunes de Almeida nasceu em Lisboa, em 1982. Licenciada em Língua e Cultura Portuguesas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, ensinou, entre 2007 e 2009, Língua Portuguesa na Universidade de Pisa. Em 2012, concluiu, na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, uma Tese de Doutoramento intitulada «Migração Silenciosa – Marcas do Pensamento Estético do Extremo Oriente na Poesia Portuguesa Contemporânea» e, atualmente, trabalha num projeto de investigação de Pós-Doutoramento no Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, também no âmbito do Orientalismo Português. A sua ligação à poesia iniciou-se com a publicação de poemas em revistas literárias portuguesas e estrangeiras e a participação em diversos encontros internacionais de poesia. Tem cinco livros de poesia publicados –  Prefloração (2006), A Metamorfose das Plantas dos Pés (2008), Bailias (2010), Marsupial (2014), Achamento (2015) –  e um dirigido ao público infantojuvenil – O dom da palavra (2016).

A Fábulas entrevistou a autora. Catarina, que desde cedo manifestou um enorme fascínio pelo Teatro e pela Literatura, tendo frequentado diversos cursos e oficinas criativas, fala-nos do seu gosto pela poesia e do seu percurso literário.

Que papel desempenha a poesia na sua vida?
Não desempenha um papel. Quando muito a poesia está na assistência. Umas vezes aplaude-a de pé, outras levanta-se e vai-se embora. Quando leio um poema (ou escrevo) agrada-me sobretudo aquela sensação de poder entrar onde não há tempo. Num haiku, por exemplo, nunca sei se me demoro por quinze segundos, se por quinze séculos. Isto é o que me faz bem na poesia, ir para fora de pé e afogar-me.

Muitos estudos psicológicos concluem que a poesia pode ter maiores benefícios para o bem-estar do ser humano do que os livros de autoajuda. Concorda?
Esses estudos deixam-me arrepiada. É uma visão muito utilitarista da poesia, que sinceramente não me interessa. Talvez possamos dizer, invertendo um pouco os termos, que cada poeta escreve o seu próprio livro de autoajuda. Mas sabendo de antemão que no final não salvará ninguém, nem sequer a si próprio.

Em que momento da sua vida surgiu o encanto pela leitura e pela escrita de poesia?
O amor pela leitura e pela escrita nasceu antes de saber ler ou escrever. Os livros de histórias interessaram-me sempre e eu gostava de os receber, gostava que os adultos mos lessem. Outras vezes imaginava, inventava a partir das ilustrações, como qualquer criança. Também era uma grande criadora de dramas e tragédias para as minhas bonecas. A escrita ia aparecendo assim: frases ou cantilenas que se inscreviam nos meus pensamentos. Neste aspeto, o contacto com a natureza, nos verões com os meus avós, foi muito importante para tornar os meus sentidos disponíveis. Observar os adultos era uma coisa que adorava. É importante que uma criança aprenda a ver além do que é objetivamente visível e lhe seja dado espaço para partilhar as suas descobertas – por mais simples e comuns, devem ser recebidas como coisas raras. Assim uma criança vai aprendendo a colecionar os seus pequenos milagres e a pensar com poesia.

É uma autora da novíssima poesia portuguesa. Há uma proximidade em estilo nos novos poetas contemporâneos?
Do lado de dentro é difícil ter uma visão do conjunto. Haverá coincidências em certas angústias que perpassam a nossa geração, no ritmo da escrita (que reflete o da própria vida), nos espaços das cidades que partilhamos e que coabitam vários poemas. Porém, não existe atualmente um movimento estético organizado que reúna várias vozes como os que existiram noutros momentos.

Quando lemos os seus livros, facilmente percebemos que há uma forte ligação ao Oriente. Como surgiu esse fascínio?
O interesse pelo Extremo Oriente foi crescendo à medida que desenvolvia a minha investigação de doutoramento. Esse interesse, que começou por ser puramente estético – pela poesia e pela arte –, rapidamente se transformou num interesse espiritual. Certos aspetos da tradição budista foram ao encontro de questões profundas, silenciosas, que estavam comigo há muito tempo. E à medida que avanço em leituras – ou que pratico exercícios como a meditação – o meu entendimento do mundo transforma-se e a escrita também se transforma. Todo este processo está ainda muito ativo e tem abalado poderosamente a minha estrutura, mas descrevê-lo é quase impossível.

Com O dom da palavra estreia-se na literatura para crianças e jovens, criando «uma espécie de poema contínuo, escrito sob a forma de diálogos». Fale-nos um pouco sobre este livro.
O João Concha, que ilustrou este livro e foi também o seu editor, convidou-me um ano antes para escrever o número seguinte da Colecção Alice (Não Edições), criada a pensar em miúdos mais ou menos graúdos. A ideia era fazer qualquer coisa que se aproximasse mais da poesia, algo que me pareceu bastante difícil. Mas sou amiga do João há muito tempo e sinto imensa afinidade com o seu trabalho – tínhamos, aliás, já colaborado num projeto antes deste, embora não tenha saído da gaveta –, pelo que lá me enchi de coragem. Tinha uma fonte riquíssima lá em casa, o meu filho, a quem acabei por dedicar o livro. As crianças são uma espécie de reis Midas da linguagem: quase todas as palavras que proferem se transformam em ouro. Passei a fazer esse exercício de o escutar com mais atenção do que nunca, de me concentrar na essência das suas perguntas, das suas inquietações, na forma como reconstruía os conceitos, o discurso. E foi um exercício que nunca mais abandonei, porque me faz visitar uma série de raízes: as da minha própria linguagem, as das minhas ideias e as dos meus afetos.

Podemos identificar versos e imagens de outros poetas na sua poesia?
Sim, isso acontece, como é natural. Todos nós temos mestres e entramos em diálogo com eles – algumas vezes essas referências transparecem de forma evidente, outras vezes são mais subtis. Também já aconteceu esses ecos revelarem-se mais tarde, quando releio um poema publicado há algum tempo. Isso mostra que essa revisitação é também um processo inconsciente. Portanto, prefiro não destacar (ou destapar) aqui nenhum nome.

Como é o seu processo de criação artística?
Nada organizado. Posso passar várias semanas sem escrever um verso e a certa altura ser atravessada por ele (ou por uma imagem antes dele) e no momento mais inoportuno. É comum guardar fragmentos no telemóvel, nos rascunhos das sms. Ultimamente, os poemas saem dum só jorro, por vezes até difícil de acompanhar só tendo duas mãos. Depois volto a eles, claro, para os limar, mas cada vez menos. Para os meus três primeiros livros escrevia sempre os poemas em caderninhos. O acto de me sentar a um computador inibia a fluidez e o despojamento de que eu precisava. Além de que, alguns versos deixados de lado, por vezes encontravam salvação numa segunda ou terceira leitura. Depois, aos poucos, fui-me habituando, porque passei a estar mais tempo a trabalhar ao computador e, por vezes, para não deixar fugir um verso, acomodava-o logo ali no documento ao lado. Já no que respeita à relação entre os poemas, quando se entra na fase de escrever o livro propriamente dito, com uma estrutura pensada, o computador facilita um pouco. Quando publico um livro, geralmente nos tempos que se seguem ando muito às cegas, não encontro logo um fio condutor a partir do qual escrever. Mas quando ele me aparece, nunca mais o largo: sei que vou escrever um livro e não uma coletânea de poemas.

 

«Os Lusíadas»: poema de fundação nacional

por Sofia Pereira

Os Lusíadas de Luís de Camões, poema épico, tem como núcleo central estruturante da obra a viagem inaugural de Vasco da Gama à Índia (1948). A viagem deste navegador estava já muito remota e bastante tratada discursivamente para aparecer como evento histórico marcante. Quando Camões vai à Índia, fá-lo num período de declínio do Império Português no Oriente. Assim, a epopeia surge como uma forma de exaltação de um Império já conscientemente crepuscular.

Desde há muito tempo que se ansiava em Portugal por um poema de vitórias; desde a expansão portuguesa, que marcou a verdadeira abertura ao “outro”, que se sentia a necessidade de celebrar a entrada numa nova fase da Humanidade. Esta vontade de escrever uma epopeia era profundamente humanista, assim como era o pensamento camoniano.

Cumprido esse desejo por parte de Camões, herdámos uma obra símbolo de um mundo axiologicamente marcado por princípios épicos/guerreiros muito próprios. O intuito do autor é (re)fundar a nação, a visão de Portugal pelos portugueses e pelos estrangeiros. Pretende sublimar a glória de um dos primeiros países no tempo, com fronteiras territoriais bem definidas. Daí a sua preocupação em produzir uma arqueologia e uma genealogia portuguesas.

A epopeia camoniana divide-se em quatro planos: o da viagem, o da narração histórica, o mitológico e o das considerações do Poeta. É através destes planos, do discurso de Vasco da Gama e de alguns deuses que tomamos contacto e conhecimento com o espírito de aventura, a universalidade, a heroicidade e a religiosidade, valores inerentes à empresa dos descobrimentos/navegações, que adquirem toda a dimensão estética que permite a fusão harmoniosa da imagem nacional/imperial ambicionada pela política nacional de então.

A nação portuguesa é apresentada no poema como centro de uma pátria de fronteiras em expansão. Os Lusíadas convertem-se na metáfora privilegiada da nação, contribuindo, dessa forma, para a criação da imagem que temos da nossa identidade.

A universalidade camoniana inclui toda a aventura ética, estética e religiosa que a travessia implicou em termos pessoais e nacionais. São estes aspetos narrados, que aliados à cultura recebida do Humanismo, se tornam símbolos de uma nação em expansão, Portugal. Esta epopeia é o reflexo não só da aventura vivida pelo povo, mas também a do próprio autor.

Com este poema temos acesso aos acontecimentos que foram ocorrendo ao longo dos tempos e que tornaram Portugal num país duplamente central: centro face à Europa como descobridores de novos mundos e centro face aos outros na Europa.

Os Lusíadas exprime a ideia de Portugal como núcleo de expressão, ideário do renascimento. Um olhar em busca do projeto imperial de D. Manuel, com aspetos medievais, como o messianismo, a missão de expandir a fé e restaurar o poder de Jerusalém.

É, de facto, a história da fundação do nosso país enquanto nação, desde os seus primórdios até à sua vontade de expansão à escala planetária, divulgando a fé e o cristianismo tão característicos dos Portugueses.

O álbum infantil

por Sofia Pereira

A literatura para a infância desempenha um papel primordial na formação de futuros leitores que, na juventude e na idade adulta, manifestam um interesse e prazer próprios pelo ato de ler. Por essa razão, torna-se fundamental a criação de hábitos de leitura desde tenra idade, através de um contacto precoce com o universo das letras e dos livros.

Pese embora o facto de ser, algumas vezes, considerado um meio de intertextualidade, certo é que o álbum infantil tem conseguido granjear, ao longo dos tempos, um reconhecimento notável como género literário eficaz na aproximação dos pequenos leitores ao mundo da literatura.

Pelas suas particularidades, o álbum infantil atribui uma universalidade ao objeto livro, entrelaçando a linguagem verbal e imagética, o que permite fruir em pleno do seu caráter artístico, aprimorar a sensibilidade  estética e desenvolver a capacidade de expressão.

Características do álbum infantil:

  • Presença de elementos paratextuais;
  • Capa rija em formato de grandes dimensões;
  • Ilustrações muito apelativas de página inteira ou dupla página;
  • Modos diversos de organizar a informação: narrativo (o enredo resolve-se numa situação final); lista (sequência de tópicos ou de ideias); e documentário (função meramente didática).

Os álbuns podem ser puros – apenas com ilustrações – ou significativamente ilustrados, quando o texto e a imagem estabelecem uma relação de interdependência, conferindo um sentido global à obra.

Potencialidades do álbum infantil:

O álbum infantil visa contribuir para a educação literária da criança, preparando-a para participar ativamente no processo de exploração da obra. Privilegiando momentos enriquecedores e agradáveis, os pequenos leitores têm, por vezes, acesso a referências culturais que remetem para áreas tão diversas, como a arte, a música, o teatro, a história, a geografia, a ciência, possibilitando o alargamento dos seus horizontes culturais e despertando a sua sensibilidade estético-literária. Os conteúdos temáticos proporcionam um conhecimento do mundo, um diálogo aberto sobre os problemas relativos ao universo pueril e um contacto com o fantástico e o maravilhoso. Atualmente, já existem também álbuns que incluem, no seu conteúdo, mapas, cartas, livros de receitas, entre outros tipos de textos, assumindo-se, desse modo, como pontes para a construção de representações mentais sobre diferentes géneros textuais.

Pela preocupação pedagógica contemplada, assente na transmissão de valores veiculados e na socialização das crianças, o álbum infantil contribui para o desenvolvimento da criança aos níveis social, cultural, afetivo e linguístico, tornando-se, cada vez mais, um objeto de fruição e de pedagogia para pais e educadores.