Tag Archives: Importância da leitura

Deixá-las ler o que quiserem

Que livros devem ler as crianças? Que tipo de livros? Livros de monstros para os rapazes, livros de princesas para as raparigas. Livros considerados muito bons pelos críticos ou apenas muito bons em vendas, mas não tão bons ao nível da escrita? Há quem defenda que se deva deixar as crianças e os jovens lerem o que quiserem, independentemente de género ou da qualidade, desde que leiam, isso é que é importante. Outros, pelo contrário, acreditam que não, que deve haver critério.
O estabelecimento de critérios estará sempre sujeito a níveis de subjetividade que variam de pessoas para pessoa.  Não creio que se deva limitar aquilo que um rapaz ou uma rapariga podem ler, como se os rapazes só se interessassem por banda desenhada e as raparigas por histórias românticas, como defende também uma jornalista num artigo do The Telegraph, e que serviu de base para esta minha breve reflexão. O melhor é deixá-los expandir os seus horizontes não a partir de estereótipos de género, mas do conteúdo das histórias.
É claro que certos livros, principalmente aqueles que foram publicados num determinado momento histórico, devem ser lidos com orientação, para que as suas histórias sejam contextualizadas, como no caso por exemplo de As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain, do Não Matem a Cotovia, de Harper Lee, do Tintin, e no que diz respeito a autores portugueses, dos livros de Odette de Saint-Maurice, entre outros. Pode-se assim estabelecer um paralelismo entre aquilo que estarão a estudar na disciplina de História, e as visões de cada época através da literatura.  É uma forma prática de estimular uma leitura crítica e isso só pode ser enriquecedor para a criança e para o jovem.
É, pois, importante que leiam um pouco de tudo, e que os rapazes também leiam livros cujo marketing é mais direcionado para as raparigas, e que as raparigas tenham acesso a livros que à partida seriam mais destinados aos rapazes, porque assim constroem dentro de si a capacidade de questionar e de olhar o mundo sob diferentes perspetivas que não aquelas determinadas somente pelo género, por estereótipos ou pelo contexto da época ou da sociedade em que vivem.

Ilustração retirada daqui
Ilustração retirada daqui

Balanço do primeiro ano do projeto «Voluntários de Leitura»

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Foi recentemente divulgado o relatório com o balanço do primeiro ano de atividade do projeto «Voluntários de Leitura», sobre o qual escrevi há uns meses. As conclusões são para já animadoras. Entre dezembro de 2012 e dezembro de 2013, 648 voluntários inscreveram-se no projeto, e dos quais 214 foram colocados em escolas, bibliotecas e outras organizações. A maior parte das iniciativas dos voluntários eram destinadas a alunos do 1.º ciclo. As expectativas para este ano é que o projeto liderado por Isabel Alçada continue a crescer e a incentivar o gosto pela leitura junto das crianças. O relatório completo pode ser lido aqui.

O verdadeiro poder dos livros

Às vezes há livros que têm um impacto especial não só no leitor como indivíduo, mas nos leitores como comunidade.  Qual é o verdadeiro poder da literatura? Será capaz de influenciar comportamentos? Pois parece que um certo livro intitulado The One and Only Ivan, de Katherine Applegate, vencedor do prémio Newbery em 2012, sobre um gorila preso numa jaula demasiado pequena em exposição num centro comercial, tem tido um grande impacto entre alunos e professores da comunidade escolar americana, e já inspirou diversos programas sociais e também peças de teatro à volta da história do livro.
Certas histórias ficam connosco, mas devem ser partilhadas e exploradas com os outros, porque o seu significado é tão importante que uma leitura ao nível individual não é suficiente para se captar a sua verdadeira dimensão. E é assim que se compreende o verdadeiro poder de uma história.
O artigo completo que relata este caso pode ser lido aqui.

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As livrarias de bairro

Quando era pequena havia no sítio onde moro duas ou três livrarias. Como havia muitas crianças, essas livrarias tinham uma oferta variada de livros infantis e juvenis. Passei muitas horas a vaguear nos estreitos corredores dessas livrarias, deliciando-me não só com os livros, mas também com as canetas, os blocos, os lápis e os pequenos peluches que também se vendiam. Era raro sair de lá sem trazer qualquer coisa, numa época de abundância, fosse um livro para ler, fosse um bloco para escrevinhar e desenhar ou a última caneta ou conjunto de borrachas e blocos que faziam sucesso na escola. Essas livrarias ficavam tão perto da minha casa que quando passei a poder andar sozinha na rua ia lá com frequência, na minha companhia ou na companhia dos colegas. Lembro-me de estarem sempre cheias, principalmente na época escolar e no Natal. Para mim eram como mundos mágicos cheios de fantasia, tanto que até em casa brincava às livrarias.
Hoje em dia resiste apenas uma, e posso dizer felizmente, apesar da crise. Noto-a muito mais vazia não só de clientes, mas também na oferta infantil e juvenil. Mas ultimamente tenho notado uma explosão de crianças no bairro, fruto do regresso de muitos filhos que tinham saído e que voltaram para criar as suas famílias, pelo que é com renovada esperança que vejo a livraria do meu bairro como um farol para as leituras dessas crianças. O tempo pode ser cruel às vezes, mas a vida é feita de ciclos, e embora se diga que a tendência é para as livrarias locais desaparecerem, torço para que isso não seja verdade, que aquelas que resistem arranjem maneira de se manterem, porque são um património inestimável. Gostava tanto que um dia os meus filhos também guardassem memórias ternas dessas livrarias que foram tão importantes para mim.

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Literatura juvenil, literatura menor?

Certamente que sou suspeita, mas impressiona-me quando alguém fala de literatura juvenil como se fosse algo menor, como se fosse apenas para um escritor que não tem ainda «estofo» para escrever literatura para adultos se iniciar na escrita e então depois passar para horizontes maiores, ou como se fosse só uma «merecida pausa» de um romancista já estabelecido. Diminuir o género é diminuir o seu público-alvo, é subestimar as crianças. Julgo que seja porque se confunde muito simplicidade com simplismo. Os livros para crianças são, claro, mais simples, porque os leitores mais jovens ainda estão a aprender a ler, a apreender conceitos, mas isso não quer dizer que as histórias tenham de ser simplistas, desprovidas de sentimentos complexos, de enredos ligeiramente obscuros. Quem escreve para crianças e tem contacto com os seus leitores sabe que elas são capazes de captar até os sentimentos mais subtis das personagens e ideias que nem o autor imaginou. Tive essa experiência nas minhas idas às escolas e em conversas com alunos, em que eles me diziam coisas sobre aquilo que tinham retirado da leitura dos meus livros, que ou me comoveram ou me fizeram rir às gargalhadas, coisas que por vezes passam completamente despercebidas aos adultos.  A literatura juvenil não deixa de ser literatura, escrita com cuidado, talvez até mais rigorosa do que a escrita para adultos, com atenção redobrada à linguagem, aos enredos, às personagens e às relações entre elas. É literatura maior, porque é fundamental para a literacia infantil  e poderá criar bases importantes para o desenvolvimento da criança, tanto a nível intelectual como emocional.

«Mother and child» Pintura de Frederick Warren Freer
«Mother and child»
Pintura de Frederick Warren Freer

A importância de ler, segundo Neil Gaiman

Não há dúvida nenhuma de que ler e imaginar é importante para o desenvolvimento de qualquer criança, mas poucos poderiam dizê-lo com tanta propriedade como Neil Gaiman. Numa palestra que deu para o The Reading Agency, num encontro anual iniciado em 2012, com o objetivo de ter escritores e pensadores a partilharem ideias originais sobre a leitura, o autor reflete sobre como o nosso futuro depende essencialmente das bibliotecas, de ler e da capacidade de sonhar acordado.

A palestra encontra-se transcrita (em inglês) aqui.

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